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O que o Dodge Viper ACR nos ensinou com seus 7 minutos em Nürburgring?

Enquanto uns governos europeus anunciavam um futuro sem motores a combustão, apostando que tudo vai dar certo até o prazo definido pela caneta estatal, um grupo de malucos apaixonados por estas máquinas amaldiçoadas pelo resto do mundo estava em Nürburgring, no coração do país-berço do automóvel, tentando quebrar o recorde da pista com o Viper ACR.

A tentativa de recorde não era apenas uma despedida mais digna ao Viper, mas a única despedida possível. Não poderia ser diferente. A Fiat Chrysler fingiu que não era com ela — provavelmente porque esta última geração do Viper foi um fracasso comercial. Ela não se importou em criar uma edição final para seu supercarro de 25 anos. Nem mesmo uma foto com os trabalhadores de sua linha de produção, registrando o último exemplar fabricado. Somente Ralph Gilles, o chefe do Viper, publicou algumas fotos do carro em seu perfil no Instagram. Melancólico, para dizer o mínimo.

Felizmente, nestas quase três décadas o Viper conquistou um número de fãs suficiente para dar a ele a merecida despedida. Mais do que isso, eles fariam justiça ao supercarro esquecido nesses tempos de computadores que dirigem e ajudam a transformar motoristas comuns em pilotos medianos.

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E assim eles partiram para a Alemanha. Com capacetes e macacões na bagagem, dois Viper ACR no compartimento de carga e um pouco de dinheiro dos fãs no bolso. Dificuldades de todos os tipos foram enfrentadas, desde a limitação de tempo — uma vez que o aluguel da pista é caro — até a impossibilidade de reparos extensos. Sem uma fábrica bancando a tentativa, bater o carro significaria o fim do sonho.

Logo em sua primeira tentativa, realizada em um recorte de tempo entre duas locações mais endinheiradas, o Viper quebrou seu antigo recorde e deixou para trás o Mercedes-AMG GT R (antigo recordista de tração traseira) e o Nismo GT-R e toda a sua eletrônica. Os pilotos sabiam que era possível baixar mais. Só precisavam de mais treino e mais tempo.

Com mais treino e mais uma janela de tempo, eles voltaram à pista livre. Reduziram o tempo de 7:03,45 para 7:03,1. Parece pouco, mas eles conseguiram isso mesmo com os pneus derretendo no asfalto quente de Nürburgring. Além disso, havia ainda uma última tentativa. A última chance do americano bronco, com motor inspirado em uma picape, um antiquado câmbio manual e uma mundana tração traseira.

Na primeira bateria o piloto Luca Stolz teve uma falha no pneu dianteiro esquerdo a 273 km/h. Voltou para os boxes, trocou o pneu, mas na hora de acelerar o diferencial estava com o bujão solto. O óleo vazou e o negócio fundiu. Fim de jogo para o primeiro Viper ACR.

Enquanto isso o segundo Viper ACR ganhava ritmo com Lance Arnold. Na primeira volta pra valer veio o novo recorde: 7:01,3. Na segunda volta veio o ponto final desta história incrível: o pneu dianteiro esquerdo Arnold teve o mesmo problema que afetou a volta de seu colega. A cerca de 260 km/h. Em uma curva.

O Viper beijou o guard-rail do lado esquerdo, atravessou a pista escorregando e seguiu arrastado contra o guard-rail do lado direito. Os airbags abriram, Arnold saiu ileso, mas o Viper estava morto. Sem orçamento nem tempo para reparos, o sonho estava acabado.

Apesar do desfecho quase-trágico para o carro, a empreitada dos americanos foi uma vitória para a equipe, para os fãs que financiaram tudo isso, para a indústria americana e para o Viper, acima de tudo. Ele morreu em combate, lutando por sua dignidade, por sua glória.

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Por diversos motivos achamos que o mundo não tem mais lugar para um carro como o Viper, que não está nem aí para emissões, para consumo, para trocas de marcha ultra-velozes, para a precisão da modernidade. O Viper é aquele vovô ranzinza que acha que a juventude está perdida, que não admite que homens furem suas orelhas, que mulheres usem shorts e minissaias, que ambos tenham tatuagens e que as novelas e filmes mostrem beijos e transas.

Mas da mesma forma que aquele avô careta, foi o Viper que ajudou a construir o cenário automotivo em que nós, os jovens que admiramos supercarros digitais, estamos vivendo e aproveitando e nos divertindo.

E como um velhinho careta que decide, com razão, mostrar quem é que manja da vida, o Dodge Viper ACR mostrou que, apesar do mundo inteiro contra — até mesmo seus pais —, os carros à moda antiga ainda são páreo para as máquinas mais avançadas do planeta. Os jovens espertos e modernos.

E isso acontece principalmente porque você não pode mudar a realidade com um desejo e uma caneta poderosa. Como a sabedoria humana, as novas tecnologias precisam de tempo para amadurecimento. Muito mais do que ter dito ao mundo que ele ainda é um grande carro, a grande lição do Viper foi nos mostrar que os carros do futuro ainda não são tão melhores quanto parecem.

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