FlatOut!
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Pensatas

Onde foram parar os opcionais e a variedade de escolha?

A notícia recente que nos EUA a câmera de ré se torna obrigatória foi um choque para mim, confesso. Ainda não tinha digerido nem a obrigatoriedade dos sistemas eletrônicos de controle de estabilidade, e já me vem mais essa. Desde a obrigatoriedade do ABS e dos Airbags, parece que realmente não existe mais volta; qualquer comentário contrário à esta pandemia de obrigatoriedades é recebido exatamente como um questionamento religioso na idade média: queimem-no na fogueira virtual da praça central de nossa comunidade! Que fica ali na conjunção da rua Twitter com a alameda Instagram, depois que ela se junta com a avenida Facebook. Quanto mais modernos nos achamos, mais continuamos na mesma. Basta uma doença nova aparecer que a casa cai, hoje ou em 1428.

MAO, ontem

Na verdade, ao contrário do que muita gente pensa, não sou contra estes equipamentos. Pelo contrário, acho que toda novidade tecnológica é mais um passo na evolução do automóvel, tornando-o simplesmente melhor, sem senão nem dúvida. Nem o chatérrimo carro elétrico, apesar de não ser novidade nem avanço, não é um problema em si. Tem sua utilidade também, uma opção válida, e é ótimo para as pobres almas que veem o automóvel como um mero módulo de transporte, que Deus tenha piedade de suas almas sem visão. Meu problema, na verdade, não é com nada disso. É com a obrigatoriedade.

Todo mundo reclama e olha para mim com cara de nojinho quando digo que ABS não podia ser obrigatório. Mas ninguém, repito, ninguém comprava carro com ABS antes do governo mandar. Quando digo isso, respondem: ah, mas era caro! Claro, e agora ganhamos ele de graça por um decreto estatal né? Não sejamos tolos. A maré subiu, e levantou todos os navios juntos, então não se percebe que antes, estavam em outro patamar. Tudo que é adicionado num automóvel, seja por lei ou qualquer outro motivo, nós pagamos ao compra-lo, não tenha dúvida disso. Neste caso, querendo ou não.

A verdade é que o mesmo sujeito que olha de lado para mim nesse tema é o mesmo cara que preferia pagar mais num carro mais chique que comprar um reles Palio com ABS e Airbag. Sim, existia Palio com ABS e Airbag muito antes da obrigatoriedade. Nunca viu? Claro, ninguém comprava…

Mas sobre este problema, prefiro não me preocupar mais, simplesmente por cansar em dar murro em ponta de faca. A turba já se assentou em ter suas liberdades sacrificadas no altar da segurança, então que seja. Paciência. Mas nossa liberdade de escolha, estranhamente, vem diminuindo não somente por isso.

O Opala 1984

Explico: em 1984 meu pai foi até a concessionária Chevrolet de nossa cidade para comprar um carro zero-km, talvez a pela segunda vez em sua vida. Tinha feito seu dever de casa e pesquisa, e portanto sabia exatamente o que queria. Sentou com o vendedor e encomendou o seu carro, escolhendo todos opcionais individualmente. Pediu um Opala 4 portas básico, sem nenhum opcional a não ser o motor 250-S de seis cilindros, o câmbio de 4 marchas (3 era o básico) e a direção hidráulica. Nem ar-condicionado pediu, mesmo nossa cidade sendo bem quente e úmida, porque era simplesmente muito caro. Mas veja bem: podia-se pedir ele. O carro, lembro bem porque ajudei-o a especificar, ficou mais barato que um Escort Ghia básico, que então existia também sem A/C.

Não foi a única vez que fez isso. Trocou este Opala por outro 4 portas em 1988, também básico, mas desta vez 4 cilindros a álcool (cansou de gastar com gasolina), e com ar condicionado, pintura verde-metálica e rodas de alumínio. Reparem que ele continuou na mesma faixa de preço e na mesma marca e modelo, mas ticando quadradinhos de opcionais diferentes, acabou com dois carros completamente diferentes.

Meu pai acabou por se arrepender de não ter pedido a trava elétrica no ’88: trocaram a posição da trava, antes um pino perto da coluna B em todas as portas, agora uma tecla no meio da porta, fazendo travar todas as portas do Opala uma ginástica danada. Mas era um carro muito legal, que gostava muito: bonito em verde metálico e rodas, mas menos decorado externamente que os Diplomatas cheios de apliques de plástico vagabundo por fora. O interior era claro, com bancos de tecido cinza de qualidade, navalhado, de novo mais legal que a tumba preta dos Diplomatas. E o ar condicionado, ah! Que delícia. Me estragou para sempre. Senti falta de ser o mais veloz “moleque com carro do pai” de minha cidade, como era com o ’84, mas curti muito aquele ’88.

O Opala básico 1988

Era na verdade uma tradição familiar. Antes desses dois, nossos Opalas eram herdados de meu avô materno, que os comprava novos e nos vendia com cinco anos de idade. Primeiro, um cupê 1972 bege, básico feito mineiro mascando mato, seis cilindros com três marchas na coluna. Depois, um sedã 1982, quatro cilindros a álcool (péssimo, ainda não totalmente desenvolvido) mas também três marchas, com o painel novo já, uma combinação que nunca mais vi. Mais pelado que bumbum de nenê também. E tinha rodas de aço fechadas com calotas cromadas! O Interior dele era em vários tons de marrom.

Opções! Cores! Repararam como tudo isso não existe mais? Cor é só uma, preto-cinza escuro e boa. A partir de um preço, só couro, tecido só no carro básico, e um tão barato que provavelmente é feito a partir de pelo de morcego, vindo, sei lá, do Sri Lanka ou outro país qualquer que não sabemos onde fica. Nenhum opcional pode ser escolhido individualmente quase, praticamente tudo vem em pacotes. Quer o painel maneiro dos Polo topo de linha? Não tem opcional no básico, claro, só no topo de linha, pacote megatech-10 plus com som Bosebingfender, seu por apenas um dos bagos do Marajá de Jaipur. Quer teto solar no seu 1.0? Claro que não pode, tem que comprar a versão dois litros GLXS -Plus, que custa só o dobro do preço.

Não, seu Polo não tem isso.

E os motivos para isso acontecer são todos internos dos fabricantes. Tentam nos empurrar para as versões mais caras, claro, onde está o lucro realmente gordo. Não querem muita complicação na linha de montagem, porque tudo é mais fácil com menos variação. E validar esse monte de variável é um problema (leia-se custa dinheiro e tempo, e não, os dois não são a mesma coisa). Clássico caso de pescador escolhendo a isca por sua facilidade de colocar no anzol, e não por quanto atraente esta será para o peixe.

Existe também o problema do esquema de venda de hoje. Não sei como era na época em que meu pai encomendou os seus Opala, mas hoje, nenhum concessionário gosta de encomendar carro. Cobram caro, chiam, criam dificuldades. Tem um estoque enorme de carros que o fabricante lhe enviou, querendo ou não, e tem que desovar aquilo tudo. Se você encomendar, o que ele tem em pátio não anda, e o problema continua.

Por causa disso hoje os opcionais nem existem mais, acabando com essa opção de escolha. O processo de compra é bem menos interessante: se liga para várias lojas e tenta-se achar algo próximo do seu desejo, nos estoques. Comprar algo que vale de 60 a 100% de seu salário anual (média da maioria dos compradores de carros normais) deveria ser algo mais prazeroso, não acham? Hoje beira um martírio.

Veludo vinho!

Para os realmente ricos, esse problema é menor, pois sempre existirá uma marca de luxo, onde os lucros obscenos escondem qualquer gasto extra, para acomodar seus desejos. Mas certamente mesmo eles, tem menos opções hoje. O pessoal que sempre compra o topo de linha “completo” também não deve estar muito preocupado. Mas eu, e acredito a maioria dos entusiastas, adoro escolher detalhes, pensar em opções, escolher a exata configuração que me apetece. Costumava ser uma arte, e gerar conversas longas entre amigos, o que sempre é algo ótimo.

Quando era moleque e andava naquele 250-S básico ‘84, todos me respeitavam. Apenas a direção hidráulica era inaceitável: fazia o carro mais pesado, e drenava potência do motor! Hoje é engraçado dizer isso, mas naquela época, entusiasta não botava nada em seu carro que não ajudasse ele a andar mais. Direção “muito pesada” era uma frase para os fracos. E ninguém queria ser fraco. Sedan era a mais rígida carroceria, Caravan era muito pesada, então estava correto nessa, uma mera direção hidráulica longe do nirvana opalístico, segundo o bando de adolescentes de minha rua. E sim, a gente se encontrava na rua. Para falar de carro!

E por isso que para mim é engraçado que hoje um Opala SS valha tanto. Quando era novo desprezávamos ele veementemente: porque alguém pagaria tanto dinheiro se um Opala básico com os opcionais certos era a mesma coisa andando? Volante bonito e reloginhos eram para os fracos! Mesma coisa valia para os Maverick GT: legal era um duas portas básico, com o V8 opcional. O Dodge Charger, pelo menos, tinha mais taxa que o Dart, então era respeitado. Mas bom mesmo era um levíssimo cupê Dart básico!

Um S-class W140 (1991-1998) sem couro e com câmbio manual!

E este tipo de coisa não acontecia somente com as empresas americanas. Pouca gente se lembra hoje, mas por muito tempo, podia-se especificar Mercedes-Benz S-class com bancos de tecido, câmbio manual e manivelas para subir os vidros. Outro dia esbarrei com uma de 1982 com uma especificação incrível: tecido, câmbio manual de cinco marchas (quatro marchas era o básico; cinco pagou extra), mas ar condicionado e o motor de seis cilindros e 2,8 litros com carburador, o menor a gasolina. Os vidros subiam com manivelas. Um carro bem legal, tudo que você precisa num Mercedes, e nada de que você não precisa. Particularmente, com a estrela no capô eu pegaria automático (eles são melhores com auto, inverso na BMW), mas mesmo assim interessantíssimo.

Na Alemanha, na verdade, existem montes de BMWs e Mercedes com configurações criativas. Por exemplo, houve BMW 740i E38 (1994-2001) com câmbio manual de seis velocidades, bancos em tecido e sem teto solar. O inverso de motor/acabamento também acontecia: Um amigo alemão de uma empresa que trabalhava, me mostrou em 1997, quando fui até lá,  sua nova série 5 E39: o menor motor, o seis cilindros de 2,8 litros e 193cv (“suficiente para mim; viaja a 230km/h tranquilamente”), câmbio manual (ele era um entusiasta da direção; daí a amizade), mas acabamento topo de linha: couro creme, televisões nos encostos de cabeça, navegação por satélite (então chique), pintura azul metálica de várias camadas, teto solar.

Podia-se até os anos 1990 comprar Mercedes S-class e BMW 7 com motores diesel e câmbio manual, e bancos simples de tecido, sem motores elétricos ou memória. Esse mesmo carro diesel podia ser tão equipado quanto os V12 a gasolina do topo da gama. Uma maravilhosa gama de personalização.

BMW 728i: básica, câmbio manual e tecido. 193 cv é pouco?

Mas voltando ao Brasil, já em 1989 tudo tinha mudado de novo. Carro zero km se comprava em mercado paralelo, fora de concessionária, porque tabelamentos estatais impediam que o preço de mercado fosse praticado. Comprei o meu primeiro zero km assim, um Chevette preto, a álcool. Mas lembro de ter procurado bastante para achar um com pneus Pirelli; Firestone e Goodyear não eram boas opções na época. Não tive como comprar meu primeiro zero sem especificar alguma coisa!

Chevettes também eram cheios de opções até 1986: podiam ser comprados com motor 1.4 e 1.6, câmbio auto de três marchas, e manual de 4 ou 5 marchas. Ar condicionado era disponível em todas as versões também. E sedã 2 ou 4 portas, hatch, perua e picape existiam. Claro que vendia bem mesmo na versão sedã 2 portas 1.6 manual de 5 marchas, mas existiam opções. Teve gente que as comprou Chevettes fora do normal, e certamente foram muito felizes com eles.

Teto solar? Só em versão topo, claro.

Em 2003 ou 2004, dois amigos que trabalhavam na VW aqui no Brasil compraram carros em um leilão de carros encalhados na fábrica; acredito que foi a última vez que estas versões malucas aconteceram por aqui. Segundo eles, a VW na pré-série fazia toda as versões possíveis em catálogo, mesmo que nunca mais fossem fabricadas depois disso. Por isso um deles comprou uma Parati 1.0 16V tão equipada que parecia um GTI, com couro, airbag, ABS e tudo mais. Outro comprou uma versão ainda mais esquisita: um Polo (PQ24) 2.0 sem ar condicionado ou vidros elétricos!

Particularmente sempre tive uma coisa com carros básicos mais potentes, ou mais divertidos, que o normal. Em 1995 comprei um Gol CL 1.6 a álcool, numa época em que carro a álcool era tabu e ninguém queria. Era básico a ponto de não ter nem desembaçador elétrico no vidro traseiro, e nem retrator nos cintos de segurança traseiros! Mas andava bem, e foi mais barato que o 1.0 plus a gasolina.

Talvez seja a memória daquele Opala seis cilindros com cara de táxi, mas malvado pacas, que meu pai comprou em 1984 que até hoje me empurre a carros básicos legais. Talvez seja uma fixação em conseguir mais valor pelo meu dinheirinho. Não sei o motivo, mas o fato é que, nós, meros mortais que não temos todo dinheiro do mundo, teríamos a vida melhor se pudéssemos ter mais opções à escolher.

veludo azul!

Talvez até nos desse mais vontade de comprar carro novo, e ao invés de ficar selecionando coisas esquisitas em mecanismos de busca de usados (teto solar, câmbio manual, A/C, abaixo de 30k, vamos ver o que aparece…), a gente voltasse a olhar catálogos de carros novos. Talvez. Será?

Ou talvez seja algo que, tal qual os Opalas sem direção hidráulica, fiquem melhor através das lentes rosadas de minha nostalgia de um tempo há muito passado. Um tempo onde os carros eram lentos, mas andávamos rápido. Onde as opções de modelo eram restritas, mas de opções eram infinitas. Talvez devam permanecer lá, onde ainda vivem bem e felizes. Lá nos encontramos sempre. “Nos jardins da memória, no palácio dos sonhos”.  Onde nenhuma lei, nem a preguiça burocrática dos fabricantes, consegue nos alcançar.