FlatOut!
Image default
Car Culture Carros Antigos História

Os 60 anos do DS, o carro que redefiniu a Citroën – e os carros franceses

No dia 5 de outubro de 1955, em Paris, começava a história de um grande carro. Faz um pouco mais de 60 anos — mais precisamente, 60 anos e 9 dias —, mas a gente acha que ainda dá tempo de contar aqui no FlatOut um pouco sobre o Citroën DS, um dos maiores clássicos não apenas de sua fabricante, mas de toda a história do automóvel.

Pensando bem, talvez este pequeno atraso até combine um pouco com o espírito do Citroën DS. Dizemos isto porque, apesar de ser um verdadeiro clássico, ele não era muito veloz: nunca teve motores de mais de quatro cilindros, e a versão mais potente fabricada (a última, de 1973) tinha 141 cv em seu motor 2.3 com injeção eletronica. No entanto, dá para dizer com toda a certeza que o DS é uma prova de que ser rápido não é a única coisa que transforma um automóvel em uma lenda. E, de qualquer forma, nada impediu o DS de fazer sucesso até mesmo nos ralis!

traction-avant-620x349

Há algum tempo, contamos no site a história do Citroën Traction Avant, e dissemos que ele foi o carro que inventou o futuro. Além de ser um dos pioneiros no emprego da tração dianteira para carros de passeio, o Traction Avant tinha construção monobloco e, considerando que foi lançado em 1934, um visual bastante moderno, com postura mais assentada e proporções menos parecidas com as de uma carruagem sem cavalos.

No entanto, se você acha que o sucesso do Traction Avant foi motivo para que a Citroën se acomodasse, é porque você não conhece os franceses. O Traction Avant ficou 23 anos em produção, até 1957, mas já em 1937 a marca começou a trabalhar em seu sucessor. Isto significa que o carro apresentado naquele 5 de outubro de 1955 no Salão do Automóvel de Paris foi o resultado de nada menos que 18 anos de desenvolvimento.

ecc4c146-59ce-4bf7-ab81-17f544aa95e9

Se você fosse um dos presentes no evento de apresentação do Citroën DS, certamente não conseguiria tirar seu queixo do chão. Quer dizer, esta é a maior probabilidade: segundo consta, nos primeiros 15 minutos de exposição, a Citroën recebeu 743 encomendas. Só no primeiro dia, foram 12.000 interessados no carro.

E esse pessoal nem precisou esperar muito: o carro exposto no Salão era um modelo de produção, totalmente funcional, e os primeiros exemplares não demoraram mais que algumas semanas para serem entregues.

Quem comprava um Citroën DS não levava para casa apenas um carro. Comprava também uma manifestação da nova identidade de design da Citroën, e um símbolo do orgulho que os franceses têm de seu senso estético — algo que nunca havia sido tão importante para a imagem de um país que ainda se reerguia depois da Segunda Guerra Mundial.

citroen-ds (3) citroen-ds (11)

Só o cofre do DS já era muito mais complexoque um 2CV inteiro

E isto é até curioso, pois ao mesmo tempo que a Citroën pretendia se destacar no segmento de luxo com o DS e não media esforços ou recursos para tal, seu carro-chefe (pun intended) era o frugal 2CV, que era tão minimalista que ganhou o apelido de “guarda-chuva sobre rodas“.

O DS ficava no extremo oposto. Suas linhas foram cuidadosamente modeladas para seguir o caminho oposto dos grandalhões e espalhafatosos carros americanos, com seus motores V8, cromados em abundância e rabos de peixe. A dianteira era baixa, a grade do radiador era tão discreta que parecia ausente e os faróis eram peças circulares bem simples.

citroen-ds (12) citroen-ds (15)

A partir do para-brisa, a curvatura do teto era suave e ia até a extremidade traseira, onde ficavam as lanternas incorporadas ao para-choque. No meio de tudo isto, quatro portas, uma grande área envidraçada e um generoso entre-eixos de 3,12 metros. As rodas traseiras encobertas davam a impressão de que o carro estava flutuando.

Na verdade, quando se dirigia, ele parecia estar, mesmo. Uma das características mais marcantes do DS era o sistema de suspensão hidropneumática, que usava um circuito hidráulico e esferas acumuladoras no lugar de molas e amortecedores. O sistema foi testado no eixo traseiro das últimas unidades do Traction Avant, e nós demos uma explicação bastante detalhada a respeito do assunto neste post:

O princípio de funcionamento da suspensão hidropneumática da Citroën sempre foi, em essência, o mesmo. Desenvolvido pelo engenheiro Paul Mèges, o sistema consiste em um circuito hidráulico com óleo mineral e nitrogênio pressurizado. No lugar das molas e amortecedores, o que se tem são as chamadas esferas acumuladoras, contendo gás e o fluido hidráulico.

ds (22)

O gás é o elemento elástico da suspensão, comprimindo-se e expandindo-se de acordo com as irregularidades da superfície. O fluido hidráulico fornece a sustentação e, controlado por uma bomba, possibilita que se altere a altura da suspensão e até mesmo, caso necessário, se dirija o carro sobre apenas três rodas.

A suspensão hidropneumática do Citroën DS permitia que se escolhesse entre três níveis de altura, e o fluido hidráulico também atuava os freios e a embreagem. Era, de fato, um sistema bastante complicado e dispendioso na hora de fazer a manutenção. No entanto, você não espera simplicidade mecânica de um carro de luxo, espera?

citroen-ds (9)

Dito isto, o resto da mecânica do DS era surpreendentemente simples. Como já dissemos, os motores sempre tinham quatro cilindros. O deslocamento variava entre 1,9 e 2,3 litros, com potência entre 75 e 141 cv. Em essência, eram os mesmos motores já usados no Citroën Traction Avant, porém ligeiramente modernizados com novos componentes — incluindo um sistema de injeção eletrônica adotado nos últimos anos.

citroen-ds (14)

O DS também não contava com alguns itens que eram vistos como essenciais em um carro de luxo, como vidros elétricos ou sistema de ar-condicionado. Por outro lado, isto não significa que seu interior era básico ou frugal.

Quer dizer, ele não era muito recheado, mas seu acabamento era impecável. O design não-convencional, com volante de um raio só, retrovisor montado no painel e um cluster que trazia uma barra horizontal em vez de instrumentos circulares, era uma atração à parte. Além disso, o entre-eixos longo garantia um espaço impressionante aos ocupantes, especialmente no banco traseiro. O silêncio e a suavidade ao rodar também eram grandes atrativos.

citroen-ds (10) citroen-ds (2)

Tanto que, ao longo dos 20 anos em que foi produzido — as últimas unidades foram fabricadas em 1975 —, o Citroën DS um dos carros de luxo de maior sucesso da França, sendo usado até mesmo pelo presidente francês Charles de Gaulle em 1962. Quando o carro presidencial,  um Citroën DS conversível, foi alvejado por uma organização terrorista, o sistema hidropneumático permitiu que o carro continuasse rodando mesmo com os pneus furados e evitou uma provável tragédia.

Citroën-DS-rettet-Charles-de-Gaulle1-1-620x413

Agora, apesar de tudo, a Citroën não demorou muito para perceber que o DS podia ser um carro mais versátil. Assim, em 1957, a Citroën apresentou o ID, uma versão mais simples do DS, com menos equipamentos — sem direção assistida ou embreagem hidropneumática — e motor de 1,9 litro e 69 cv. A propósito, os nomes dos carros têm significados especiais: em francês, a pronúncia das letras “DS” é idêntica à da palavra déesse, que significa “deusa” em francês. “ID” é pronunciado exatamente igual a idée, ou “ideia” em francês. Faz sentido, não?

dsbreak

O DS/ID também teve uma versão perua, que podia vir nas configurações Break ou Familiale. Ambas traziam uma terceira fileira de bancos, sendo que no primeiro caso eram bancos voltados um para o outro, menores, enquanto a segunda tinha um banco de três lugares rebatível.

Agora, só porque os motores de quatro cilindros do DS não eram tão potentes, não significa que ele não tinha capacidade de fazer bonito nas pistas. Ou melhor, nos estágios de rali: em 1959, um Citroën DS venceu o Rali de Monte Carlo. Apesar de não ser muito mais potente do que os carros que rodavam nas ruas, o francês se saiu muito bem graças à eficácia da suspensão hidropneumática, que o permitia acelerar em altas velocidades mesmo em terrenos acidentados. Naquele ano, o piloto francês Paul Coltelloni também venceu outros seis ralis, conquistando o título europeu.

O DS também conquistou o Rali da Finlândia com Pauli Toivonen, que venceu em casa na edição de 1962, e outra vitória em Monte Carlo em 1966 — ainda que Toivonen só tenha ficado com o primeiro lugar porque os Mini Cooper que chegaram antes foram desclassificados por irregularidades nos carros. Curiosamente, as vitórias nos ralis quase não são lembradas quando se menciona o Citroën DS.

citroen-ds (8) citroen-ds (2)

Talvez isto se dê pela força de seu legado entre os carros de luxo, especialmente da própria Citroën. Com metade dos cilindros (e da potência) dos principais concorrentes alemães e americanos, tamanho relativamente compacto e tecnologias inéditas em sua ousadia, o DS conseguiu ser um sucesso por duas décadas ininterruptas, e influenciou diretamente todos os seus sucessores na filosofia de design e no vanguardismo.

Apesar de gostarmos (e muito) dos carros da marca DS, especialmente o baixinho e invocado DS3, lamentamos um pouco o fato de o nome do DS ter sido transformado em submarca. E, mais ainda, o fato de a suspensão hidropneumática ter ficado no passado depois que C6, último modelo equipado com ela, saiu de linha. A contribuição do DS para a imagem dos carros de luxo jamais será esquecida.

citroen-ds (1)