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Os carros de três rodas ao longo das décadas

De acordo com a definição mais básica possível, um carro é uma máquina com quatro rodas, volante e motor que serve para transportar pessoas e objetos de um lugar para o outro. Simples assim – a culpa é nossa se gostamos tanto destes objetos que, no fundo, são só ferramentas criadas para facilitar nossa vida.

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Mas não estamos aqui para elucubrações filosóficas sobre o que faz um carro ser um carro e que nos torna tão fanáticos por automóveis. Concentre-se na parte das rodas: são quatro, não é? Geralmente, sim. Mas… nem sempre. De tempos em tempos uma fabricante – geralmente uma empresa pequena, de produção artesanal – resolve fazer um carro de três rodas. E isto acontece com mais frequência do que você imagina.

Boa parte dos carros de três rodas surgiu nos anos que sucederam a Segunda Guerra Mundial, quando baixo custo de desenvolvimento e produção, preço acessível e  economia de combustível eram quesitos importantes. Muitos destes carros eram classificados como motocicletas de acordo com a legislação de vigente, o que permitia certas vantagens – como impostos mais baixos e isenção de crash tests (dão trabalho e custam caro) e outros empecilhos de homologação. Com isto, companhias com menor capital podiam colocá-los nas ruas mais facilmente, o que não aconteceria com carros de quatro rodas.

Ao mesmo tempo em que ofereciam custo mais baixo e menos barreiras legais que carros convencionais, os carros de três rodas também eram mais práticos e seguros que as motos (por ter carroceria fechada e protegerem o interior dos elementos) – e, o melhor, podiam ser conduzidos por quem só era habilitado para motocicletas. Ou seja, eles juntavam coisas boas dos dois mundos, ao preço de um visual muitas vezes desajeitado e, no caso daqueles com duas rodas atrás e uma na frente, certa instabilidade em curvas. Por outro lado, muitos usavam mecânica de moto, o que significava economia de combustível e manutenção barata .

Os carros de três rodas mais modernos, porém, tendem a seguir um caminho oposto. Com duas rodas na dianteira e uma na traseira, eles apostam nesta configuração para reduzir peso e garantir um comportamento dinâmico mais alegre e afiado – e são mais sofisticados, com mecânica moderna e materiais nobres. E eles mais caros, pois não são meios de transporte alternativos, e sim brinquedos de luxo para track days e passeios animados aos fins de semana.

Nós separamos dez deles nesta lista – entre carros de três rodas clássicos, modernos e conceituais. Confira a seguir!

 

Reliant Robin

Este é provavelmente o mais famoso dos carros de três rodas. Lançado no Reino Unido em 1973 e descontinuado em 2001, ele ficou famoso nos anos 2000 ao participar de um quadro no Top Gear, no qual Jeremy Clarkson dirige um exemplar e sai tombando a cada esquina.

Clarkson admitiu anos mais tarde que aquele exemplar em específico teve o diferencial modificado para fazer aquilo de propósito – e, na verdade, o Reliant Robin era bem estável para um carro com apenas uma roda na dianteira.

 

Mais do que isto: ele vendeu muito bem, beneficiando-se justamente das facilidades que os carros de três rodas tinham na Europa perante a legislação – na década de 1980, a produção ficava na casa das 300 unidades por semana, o que dava em média 15.000 exemplares por ano.

O que nem todo mundo sabe ou lembra é que o Reliant Robin era sucessor de outro modelo de três rodas: o Reliant Regal, que foi vendido entre 1953 e 1973 e tinha um estilo mais clássico, até mesmo com certa influência dos automóveis americanos. Em comum, ele também tinha uma roda na dianteira e usava o mesmo arranjo de suspensão – com apenas um amortecedor, lembrando a suspensão traseira de algumas motocicletas.

 

Bond Bug

Fabricado por apenas cinco anos, entre 1970 e 1974, o Bond Bug era baseado no Reliant Regal, mas tinha uma proposta mais descolada, quase futurista. Sua carroceria de fibra de vidro tinha linhas retas, faróis esbugalhados e capô em forma de cunha – que, de certa forma, remetia aos esportivos e supercarros da época.

Sua característica mais curiosa, porém, era o acesso ao interior – ele tinha um canopi que abria para cima, enquanto as “portas” eram, na verdade, janelas de plástico flexível. O interior tinha uma pegada quase de carro de corrida, com os bancos embutidos na carroceria e almofadados.

O Bond Bug era anunciado como um carro divertido de guiar que de quebra era barato e econômico – e, com seu pequeno quatro-cilindros de 700 cm³, era capaz de chegar aos 122 km/h. A fabricante dizia que sua sensação de velocidade era grande por conta da posição de pilotagem baixa, e dizia que ele era uma alternativa mais descolada ao popular Mini Cooper.

 

Peel Trident

Ainda sobre fabricantes britânicas obscuras e carros de três rodas baratos, é obrigatória a menção à Peel – a fabricante de um dos menores carros do mundo, o P50. Que, incidentalmente, também tem três rodas. Tão pequeno e leve que podia ser manobrado usando uma alça na traseira, ele também foi explorado por Jeremy Clarkson em um episódio do Top Gear, no qual ele entra no prédio da BBC dirigindo um.

Mas o P50 é só o mais famoso dos Peel de três rodas. A fabricante também fez o Trident, que foi lançado em 1965 – mesmo ano em que o P50 saiu de linha. Diferentemente do Peel P50, o Trident tinha um visual mais futurista, lembrando um carro dos Jetsons com seu canopi transparente. O motor era o mesmo DKW de 49 cm³ e menos de 4,2 cv, acoplado a uma caixa de três marchas (sem ré).

 

Foram feitas cerca de 45 unidades originalmente. Mas anto o Peel P50 quanto o Trident voltaram a ser produzidos em 2011, por uma empresa que comprou os direitos sobre os projetos, e os comercializa como kit cars.

 

Campagna T-Rex

O Campagna T-Rex não é muito lembrado entre os esportivos de três rodas, mas é um dos mais tradicionais – ele foi lançado em 1988. Produzido em Quebec, no Canadá, ele tem estrutura tubular, dois lugares lado a lado e segue o mesmo projeto básico há mais de trinta anos, com alterações apenas na carroceria.

O T-Rex foi criado pelo mecânico Daniel Campagna na década de 1980, quando ele fazia parte da equipe técnica de Gilles Villeneuve, na época na Scuderia Ferrari. Quando deixou a equipe após a morte do piloto, o projeto paralelo ganhou força e tornou-se o principal foco do engenheiro, que a partir dali dedicou-se integralmente ao T-Rex – até o início de 2019, quando a Campagna fechou as portas.

Classificado como motocicleta no Canadá e em algumas regiões dos Estados Unidos, o T-Rex geralmente era oferecido como kit car e vem pronto para receber uma boa variedade de motores quatro-cilindros vindos de motos grandes. O mais popular era o BMW de 1,6 litro vindo da K1600, com 160 cv, acoplado a um câmbio sequencial de seis marchas.

 

Polaris Slingshot

A Polaris é mais conhecida por seus quadriciclos e ATVs side-by-side – que são vendidos oficialmente no Brasil, inclusive. Mas se os off-roaders da Polaris geralmente usam motores pequenos, de até 750 cm³, o Slingshot é um animal completamente diferente.

Movido por um motor GM Ecotec de 2,4 litros e 175 cv – ou, mais recentemente, por um 2.0 da Prostar com 203 cv e redline de 8.500 rpm, o Polaris Slingshot é anunciado como uma motocicleta de três rodas – nem tanto pela classificação perante à lei, mas pelas suas características dinâmicas.

Com três pedais e alavanca de câmbio, ele é operado como um carro, tem bancos concha e cintos de três pontos – mas a Polaris recomenda que se use um capacete para dirigi-lo no limite. Faz sentido, considerando que ele não traz qualquer tipo de proteção além de um para-brisa (que, baixo e sem moldura, é quase um defletor) e tem potencial para chegar aos 100 km/h em menos de cinco segundos, com máxima de 200 km/h.

 

Peugeot 20Cup

Este é um conceito, mas está aqui pela simples razão de que é bacana demais para não ter sido produzido. Mostrado no Salão de Frankfurt de 2005, ele parecia um Peugeot 207 com traseira de motocicleta – e, conceitualmente, não estava muito distante disto, aproveitando a seção frontal do hatchback e dando a ele um motor 1.6 turbo THP de 170 cv. Tudo com menos de 500 kg.

O restante da estrutura, porém, era um monocoque de fibra de carbono com habitáculo bipartido, suspensão por braços triangulares sobrepostos na dianteira e monoshock na traseira. Não havia qualquer sugestão de um para-brisa ou teto – a ideia era uma uma experiência pura e sem filtros, como em uma moto, porém com a mesma operação de um automóvel. Infelizmente, o Peugeot 20Cup era uma ousado demais para passar de conceito.

 

Morgan 3-Wheeler

Muitos entusiastas consideram o 3-Wheeler o carro de três rodas supremo – e dá para entender o motivo. Criado em 1911, ele foi produzido por décadas antes de sair de linha em 1952. O modelo original deu origem a uma família até que ampla de roadsters com três rodas – e a receita foi seguida fielmente quando, em 2011, a Morgan resolveu trazê-lo de volta.

o 3-Wheeler não mudou muito nos últimos nove anos, e isto é ótimo: ele segue exatamente a mesma receita dos clássicos, com estrutura tubular, pneus estreitos e um motor V-twin à frente da grade. O habitáculo acomoda duas pessoas, sentadas no mesmo banco lado a lado.

O motor é um V-twin de dois litros feito pela americana S&S Cycles, ligado a uma caixa Mazda de cinco marchas. Com 115 cv, é suficiente para levar o carro de 550 kg até os 100 km/h em 4,5 segundos, com máxima de 185 km/h. Também foi planejada uma versão elétrica, mas esta nunca passou da fase de conceito.

 

Vanderhall Venice

Olhando de repente, o Vanderhall Venice parece uma mistura de Morgan 3-Wheeler e Caterham Seven. Considerado uma moto de três rodas, ele é movido por um motor GM de 1,5 litro com turbo, injeção direta e 194 cv, ligado a um câmbio automático de seis marchas com trocas por aletas no volante. Seus 662 kg permitem que ele vá de zero a 100 km/h em 4,5 segundos, com máxima de 210 km/h.

Como outros veículos do tipo, o Vanderhall Venice pode rodar nos EUA como motocicleta de três rodas ou autociclo – o que significa que ele tem potencial para ser um substituto mais estiloso e prático para uma motocicleta. E ainda tem direção hidráulica, banco aquecido e sistema de som com Bluetooth.

 

Vandenbrink Carver

Feito na Holanda, o Vanderbrink Carver certamente torna muito mais difícil a distinção entre motos e carros de três rodas. Como os outros veículos desta lista, ele tem volante e pedais de carro. Contudo, ele tem duas rodas atrás e uma na frente – e inclina-se nas curvas como uma moto. Nos EUA ele é considerado uma moto de três rodas, mas na Europa é preciso ter habilitação de carro para conduzi-lo.

Em qualquer lugar, porém, ele oferece uma experiência completamente bizarra. Quase tão estreito quanto uma moto, ele pode se inclinar em até 45° enquanto as rodas de trás permanecem firmemente plantadas no chão.

O motor de 660 cm³, embora pequeno como o de uma moto, na verdade vinha do Japão – era usado nos kei cars da Daihatsu, com turbo e 65 cv. Ligado a uma caixa manual de cinco marchas, e posicionado sobre o eixo traseiro, ele era capaz de ir de zero a 100 km/h na casa dos oito segundos, com máxima de 185 km/h.

O Carver também foi muito elogiado no Top Gear, e Jeremy Clarkson disse que o Carver foi um dos carros mais divertidos que ele já conduziu. Por ser um veículo extremamente nichado, porém, o Carver não durou muito: apenas seis anos entre 2003 e 2009.

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