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Car Culture

Os carros em “The Matrix”

Poucas coisas são absolutamente uma certeza indiscutível neste mundo. Mas essa é: qualquer filme de sucesso será revisitado algum dia, em outro filme. Uma regravação, uma reinterpretação, uma continuação, um prelúdio, ou uma história diferente que ocorre no mesmo universo apresentado anteriormente; não importa: se foi sucesso, voltará.

Meio como acontece naquela outra indústria que conhecemos bem, a do automóvel. Criatividade e genialidade são legais e tal, mas o que os acionistas querem mesmo é uma maneira bem garantida de imprimir grana no maior volume possível. Mais daquele SUVzinho de tração dianteira e CVT que custa o mesmo que um hatch pequeno para produzir, mas que pode ser vendido com preço de Mercedes. Mais uma edição especial, uma variação de investimento pífio mas volume limitado daquele carro esporte caro, para ser vendido a preço milionário para crescente população bilionária do mundo, que literalmente não sabe mais onde enfiar tanta grana.

Ganhar dinheiro sempre é o objetivo de todo mundo, e quanto mais dele, melhor. Isso é claro. Mas toda indústria costumava ser tocada por gente da indústria; gente com vocação e vontade de fazer o celular, o filme, o carro legal, E ganhar dinheiro com isso. A jornada, a satisfação de passar anos fazendo algo legal não importa mais; o objetivo não é mais esse.

Mas divago; o fato é que a indústria do cinema está obcecada pelo dinheiro garantido que uma revisita a um clássico amado traz. Se por um lado reduz o dinheiro disponível para tentar algo novo, não é necessariamente ruim. Grandes histórias de verdade precisam de tempo, de mais de 2 horas para serem contadas. A Marvel nos ensinou isso nos quadrinhos de super-herói desde os anos 1960: criando uma história de vida interligada, com milhares de heróis e vilões espalhados por dezenas de títulos de gibis, mas contando uma mesma história que anda para frente com o tempo, mudou tudo. Os personagens cresciam, iam para escola, se formavam, casavam-se, tinham filhos… uma vida como a de qualquer um. Eles, e o mundo, mudavam com o tempo, como no mundo real. Ninguém nunca morria (ou se morresse, não permanecia morto) because comics, mas ainda assim, uma enorme, gigantesca história que valia a pena seguir. E que não vai acabar nunca, garantindo o futuro da Marvel.

Não é à toa que Hollywood pegou essa mania de universos e sagas longas justamente da Marvel, que justamente como nos gibis, ensinou todo o resto como fazer isso no cinema também, na incrível saga recém-fechada das Joias do Infinito. Dez anos e vinte e três filmes, para contar uma história só. O universo dos quadrinhos, no cinema. Incrível. Todo resto, como era nos gibis, tenta imitá-los agora, fazendo um ou outro filme passável, mas nunca com a clara direção de contar uma só história, nem que ela leve dez anos para ser totalmente conhecida.

Divago de novo. O assunto aqui não é esse, e sim o recente anúncio da data (natal de 2021) e liberação do trailer da esperada continuação da saga iniciada no revolucionário filme de 1999, “The Matrix”. Chamada de “Matrix Resurrections”, pouco se sabe sobre o enredo deste novo filme da franquia a não ser o que pode ser visto no trailer. Que é: Neo (Keanu Reeves) e Trinity (Carry-Ann Moss) retornam mais velhos à Matrix, aparentemente tendo esquecido suas aventuras de vinte anos atrás. O resto é, bem, a velha confusão filosófica misturada com filme de ação e imagens incríveis que fez o primeiro filme tão importante.

O primeiro filme foi um imenso sucesso, e uma revolução. A história, baseada na premissa filosófica explicada por Platão em sua “Alegoria da Caverna”, basicamente nos faz imaginar um mundo onde vivemos em um sonho, controlado por máquinas, que nos usam para algum fim perverso. A tal “Matrix” é nosso mundo, na verdade um universo virtual interativo e bem elaborado, mas que não existe fisicamente. Meio como um jogo gigante online, jogado inconscientemente por humanos, agora convertidos em baterias biológicas inertes para alimentar as máquinas inteligentes que a criaram.

Quando são libertos dessa prisão de uma realidade falsa, heróis e vilões se revelam, muitas leis da física e lógica (mas, por algum motivo narrativo, não todas!) são revogadas, e muita ação se segue. Uma ficção extremamente interessante e de potencial sucesso por isso só, mas também fez mais: mudou a forma que se faz cinema. Efeitos incríveis como o “Bullet-time”, que move a câmera de perspectiva, desconectada com o tempo, são inaugurados aqui. Mesmo sem a história interessante, “The Matrix” é um filme que se imaginaria impossível de se fazer então, mas foi feito. Quem o viu no lançamento, ficou pasmo com o que parecia possível agora nas telas do cinema. Uma revolução.

Bullet time!

Os seus criadores, os reclusos irmãos Wachowski (Larry e Andy), são obviamente contratados para fazer duas continuações. O resultado são mais dois filmes, ambos lançados em 2003: o interessante mas menos revolucionário e um pouco confuso  “The Matrix Reloaded”, seguido pelo absolutamente incompreensível  “The Matrix Revolutions”. O último, um relativo fracasso de público e crítica, meio que enterra a franquia por 20 anos.

Mas nenhum pecado fica sem recompensa. Vinte anos depois Keanu Reeves é um ícone gigantesco, o John Wick, o criador das motocicletas ARCH, e gente boa em tempo integral que todos amamos. Carry-Ann Moss, meio esquecida, mas ainda bela na meia-idade como só uma estrela de Hollywood consegue. E os Wachowskis continuam reclusos, mas agora assinam por “The Wachowskis”, e são mulheres: Larry agora é Lana, e Andy agora é Lilly. E um novo Matrix está prestes a aparecer, escrito e dirigido só pela Lana Wachowski, sozinha.

Esquema escuso para ganhar mais algum? Se for, me pegou. Eu é que não vou perder, deixar de ver isso de perto. Mal posso esperar ver um grumpy old Neo com rosto e terno de John Wick dentro da Matrix!

 

Os carros de Matrix

Definitivamente automóveis não estão no tema dessas malucas ficções científicas Wachoskianas. Na verdade, são raríssimos, o terceiro sem nenhum deles, trocando as rodas por sensacionais armaduras/exoesqueletos de batalha que defendem os portões da última cidade humana de Zion. Uma cidade subterrânea onde máquinas são necessárias para sobrevivência: se forem desligadas todos morrem. Ao mesmo tempo que outras máquinas tentando invadir sobrevivem extraindo eletricidade do corpo dos humanos na Matrix; as irmãs Wachowski adoram encruzilhadas filosóficas, está claro.

Neo no Lincoln: um Porsche 924 passa na janela.

Mas o estilo elaborado das roupas, acessórios, telefones flip, ambiente e tudo mais mostra que nada vem à toa ali, principalmente no primeiro filme, ainda livre de patrocínios e product-placement. Como tudo nesses filmes, há uma razão para cada um deles.

No primeiro filme há só um carro digno de nota. Mas um que é simplesmente perfeito para toda a linguagem visual do ambiente e gente dali. O que a tripulação do hovercraft Nabucodonosor (MY 2069) dirige em suas missões dentro da Matrix, para combinar com suas capas e ternos pretos, com suas botas de jacaré e seus óculos escuros maneiros? Claro que um Lincoln Continental 1964, preto, ora bolas.

Este Lincoln é talvez um dos maiores ícones de design da marca, e inspiração para o seu último Continental, aquele produzido de 2017 a 2020, e que morreu infelizmente sem sucessor. Lançado em 1961, esta quarta geração do modelo ia contra o estilo da época, rebuscado e ainda preso aos rabos de peixe. O Lincoln era ainda enorme, mas menor que antes, algo inédito. E com linhas limpas, clássicas, retas e sem adornos demais. Era também um quatro-portas sem coluna, e a porta traseira abria ao contrário do normal. Um tipo de porta que os americanos chamam de “suicida”, mas nós, com muito mais bom humor, chamamos de “dechavê”. Para quem não lembra, vem dos primeiros DKW com portas assim, e uma analogia ao que acontecia quando mulheres de saia saiam deles.

 

O Lincoln era clássico, limpo, belo e formal, enquanto Cadillacs eram espalhafatosos e grandes demais. Sua versão conversível é até hoje um clássico cobiçado: um enorme teto elétrico cobrindo as quatro portas. Também é conhecido como a base da limousine onde foi assassinado o presidente Kennedy. O modelo 1964 da equipe de Morpheus (L. Fishburne) é da primeira fase desta geração: entre-eixos ainda mais curto, mas já com freios a disco dianteiros, V8 de sete litros e 340hp, e acoplado a câmbio automático de três velocidades.

Neste filme, Trinity aparece também brevemente numa Triumph speed triple, de novo uma escolha de estilo: uma moderna e diferente moto então, com seus faróis duplos assimétricos e cara de moto bandida modificada. Com 855cm3 e 106cv de seu três em linha, uma sportbike disfarçada de moto “standart”. Mas digno de nota no primeiro filme.

Trinity e a Speed Triple

Tudo muda no segundo filme, “The Matrix Reloaded”. Em 2003. Mais dinheiro, fama, expectativas, e com ele, carros colocados por fabricantes nos filmes, que pagam pelo privilégio. O chamado “product placement”.

A grande coisa para nós que gostamos disso, neste filme, é a fantástica cena de perseguição. Simplesmente uma das perseguições de carros mais caras já filmadas na história. A dupla de Wachowskis construiu, do zero, a um custo de dois milhões e meio de dólares, uma rodovia falsa em uma base naval desativada em Alameda, na Califórnia. A estrada de um quilômetro e meio foi cercada por uma parede de 6 metros, feita de madeira e compensado, projetada para parecer concreto.

Um par de gêmeos albinos com dreadlocks , com poderes de se tornar fantasmas, e empunhando lâminas de barbear como armas. Agentes da Matrix robóticos pipocando balas num Cadillac em alta velocidade. Carrie-Anne Moss acelerando uma Ducati 996 muito além da capacidade humana. Carros rolando e girando, e Laurence Fishburne distribuindo golpes de taekwondo e de espada de samurai, em cima de um caminhão à alta velocidade. Um frenesi de ação e maluquice ficcional imperdível, em um filme bem menos interessante, porém, que o primeiro.

O Cadillac é o motivo para a GM ajudar a patrocinar a cena, obviamente fornecendo todos os carros nela. Apenas quando eles viram CGI em certo ponto (ainda arcaico e plenamente identificável hoje) que aparecem carros de outras marcas, num CGI bem pobrinho, visto de hoje.

Era um CTS, o primeiro, lançado ali mesmo naquele ano. Um novo tipo de Cadillac, que pretendia competir com os BMW série 3, e ser um carro mundial, esportivo além de luxuoso. Era baseado na plataforma antes usada no Opel Omega, que virou Cadillac Catera nos EUA; o Catera foi substituído por este CTS.

Era a inauguração da filosofia Art&Science de estilo, com linhas retas e dobras pronunciadas, e que permaneceria na marca por muito tempo. O carro tinha um V6 moderno na dianteira, DOHC/4 válvulas por cilindro e todo em alumínio, de 3,6 litros e 255hp. Opcional existia até câmbio manual, algo raro na marca, que levava adiante o espírito esportivo do modelo. Em algumas cenas pode-se ver o painel original: o console central imitava a torre de um computador pessoal!!!

A GM propagandeou extensivamente a presença do carro no filme, onde era crivado de balas (mas incrivelmente nenhuma chega aos heróis dentro dele, claro) e termina abandonado quando o Morpheus de Fishburne enfrenta outro Cadillac, o dos gêmeos-albinos-fantasmas (this is getting really weird), katana em posição de ataque.

O Caddilac dos bandidos é na verdade uma coisa rara, um fracasso tentado pela GM na época: uma picape Cadillac. Chamada Escalade EXT, era, claro, derivada do SUV Escalade. Na verdade, o Chevrolet Avalanche, aquela mistura legal de picape cabine dupla e Suburban criada pela GM de então, em versão chique, Cadillac. É um carro bom para os bandidos: numa cena, ao atingir um BMW série 7 E32, arranca a traseira inteira do carro, sem nem tomar conhecimento dele.

Em meio ao resto dos carros GM genéricos da época nesta perseguição, mais dois veículos dignos de nota: uma magnífica Ducati 996 que Trinity rouba de um caminhão para fugir fazendo impossíveis manobras em CGI. E o Pontiac Firebird Trans-Am 1967 (obviamente um Hot-rod, mexido) usado pela personagem de Jada Pinkett Smith, Niobe. E é isso.

Definitivamente, carros não são o tema aqui. Mesmo assim, tem presença e criaram um ambiente; por isso gostaria muito que no novo filme, um já mais velho Neo, sem lembranças de suas aventuras anteriores, tivesse um Lincoln Continental 2020, inexplcavelmente atraído pelo seu antecessor escondido lá bem no seu inconsciente. E tem que ser um dos 150 carros produzidos com as portas traseiras “suicidas”, o “Coach Door Edition”. Em preto, claro.

Mas muito provavelmente nunca vai acontecer: a oportunidade de vender este product placement importante não será perdida, e mesmo a Lincoln não teria a inteligência de usar um carro fora de linha… No mundo de hoje, nada parece acontecer porque é o certo; tudo tem que ter um motivo baseado em ganho financeiro. Triste, mas como sempre, com seu lado bom: por causa disso, e só disso, que teremos oportunidade de ver novamente um filme desses acontecer. Mal posso esperar.