FlatOut!
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Design Automotivo Zero a 300

Os melhores exemplos da fina arte de se fazer uma Ferrari retrô

Há algumas semanas, como você provavelmente já viu aqui no FlatOut, a Ferrari apresentou uma belíssima dupla: as Ferrari Monza SP1 e SP2. São duas interpretações da mesma ideia: usando como base a 812 Superfast e seu V12 de 6,5 litros, a Ferrari criou duas barchettas retrô inspiradas em diferentes ícones do passado da marca – mais notadamente, as Ferrari 750 Monza e 860 Monza, que foram construídas e colocadas para competir entre 1954 e 1956. A SP1 é uma monoposto, com espaço para apenas uma pessoa e o espaço onde ficaria o carona coberto pela carroceria (o que sem dúvida contribui para sua eficiência aerodinâmica). Já a SP2 tem dois lugares, mas é praticamente idêntica em todo o resto.

Chamar as Ferrari Monza SP1 e SP2 de “retrô” pode ser exagero à primeira vista: ambas são decididamente contemporâneas em seu estilo. Mas, embora estejam separadas por mais de seis décadas, todas as Ferrari Monza (as dos anos 50 e as de hoje) têm características em comum: para-brisas pequenos, quase como defletores; proporções de gran turismo e motor V12 naturalmente aspirado na dianteira. Pensando assim, podemos a palavra “retrô” em uma conotação mais flexível, e assim empregá-la para descrever as Monza SP1/SP2.

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Coincidentemente, hoje mesmo mostramos no Zero a 300 a releitura da Ferrari 250 GTO feita pela Ares Design – a mesma empresa que, pouco tempo atrás, apresentou uma versão moderna do De Tomaso Pantera baseada no Lamborghini Huracán. Como dissemos, a nova 250 GTO, que ainda está em fase inicial de desenvolvimento, poderá usar como base a F12berlinetta ou a 812 Superfast, com 740 cv e 800 cv, respectivamente.

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Só estamos falando tudo isto porque esta definitivamente não foi a primeira vez que a Ferrari criou um carro (ou dois, dependendo do ponto de vista) inspirado em um de seus modelos antigos. Na verdade eles o fazem com certa frequência, considerando sua história de 70 anos e o volume de produção, que é reduzido por natureza. E esta é a ideia deste post: mostrar as Ferrari retrô que já foram feitas antes da Monza SP1/SP2.

 

Ferrari 612 Scaglietti e Ferrari 375 MM “Bergman”

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Antes da Ferrari GTC4 Lusso, havia a Ferarri FF. E, antes da FF, havia a Ferrari 612 Scaglietti. Ela começou a ser fabricada em 2004 e durou até 2010, e era movida por um motor V12 naturalmente aspirado que era compartilhado com a Ferrari 575M. Com 5,7 litros de deslocamento, o motor era capaz de entregar 540 cv a 7.250 rpm e 60 mkgf de torque a 5.250 rpm, e era acoplado a (bons tempos!) uma caixa manual de seis marchas com grelha na alavanca de câmbio – opcionalmente, podia vir com o câmbio sequencial F1, com embreagem eletro-hidráulica e aletas atrás do volante. Embor pesasse seus 1.850 kg, a 612 Scaglietti era capaz de ir de zero a 100 km/h em 4,2 segundos, com velocidade máxima de 323 km/h. A Ferrari 612 Scaglietti foi o segundo modelo da marca feito todo de alumínio, com a carroceria soldada sobre a estrutura do tipo space frame.

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A carroceria da Ferrari 612 Scaglietti era fabricada pela… Carrozzeria Scaglietti, fundada em 1951 por Sergio Scaglietti, que abriu sua oficina bem em frente à sede da Ferrari em Maranello, nos arredores de Modena. Já no fim da década de 1940 Sergio Scaglietti conquistou a admiração de Enzo Ferrari pelo esmero de seu trabalho com chapas de alumínio, e a partir dali Enzo começou a contratar ocasionalmente seus serviços.

Talvez você nem imaginasse que a 612 Scaglietti era uma Ferrari retrô, mas o fato é que seu desenho era fortemente inspirado por uma versão feita sob encomenda da Ferrari 375 MM, modelo de 1954 que usava um V12 de 4,5 litros e cerca de 300 cv. O cliente era o diretor de cinema Roberto Rossellini, que queria dar um presente especial à sua esposa, a atriz Ingrid Bergman. Tanto que, embora o nome oficial do carro fosse “Ferrari 375 MM Coupé Speciale”, ela acabou ficando mais conhecida como Ferrari 375 MM “Bergman”.

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A inspiração fica clara no formato dos faróis da 612 Scaglietti, que emulavam as luzes de direção da 375 MM Bergman – cujos faróis principais eram escamoteáveis e ficavam acima da grade. Os vincos laterais da 375 também apareceram na 612, embora esta não tivesse as entradas de ar que lembravam “guelras” nos para-lamas dianteiros.

 

Ferrari 575 GTZ Zagato e Ferrari 250 GT Zagato “Tour de France”

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No inicio dos anos 2000 o colecionador japonês Yushiuki Hayashi procurou a Ferrari para encomendar uma versão exclusiva da Ferrari 575M que, como dissemos mais acima, utilizava um V12 de 5,7 litros compartilhado com a 612 Scaglietti, exceto que com 515 cv. Sua inspiração foi a Ferrari 250 GTZ, criada pelo estúdio Zagato, em Milão, que teve cinco exemplares feitos entre 1957 e 1959.

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Embora cada um dos exemplares da 250 GTZ tivesse detalhes únicos, o perfil geral era o mesmo: três volumes bem definidos linhas arredondadas na dianteira e na traseira, grade oval e, claro, o motor V12 de três litros e 300 cv debaixo do capô. Seu elemento mais característico, porém, era a bolha dupla no teto, que é marca registrada de diversos projetos da Zagato.

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A inspiração é muito fácil de notar: para-lamas dianteiros e traseiros salientes, a grade oval, os faróis protegidos por lentes de acrílico transparentes perfeitamente alinhadas às formas da carroceria. Segundo consta (este tipo de informação geralmente é confidencial), Hayashi ficou com dois dos seis exemplares que a Zagato construiu em 2006 – um deles para dirigir e o outro, para ficar guardado em usa garagem, como único propósito de ser admirado como arte sobre rodas.

 

Ferrari P4/5 by Pininfarina e Ferrari 330 P4

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Um dos itens mais conhecidos (e mais incríveis) desta lista é a Pininfarina P4/5 de Jim Glickenhaus, ex-diretor de cinema e dono de uma das coleções mais refinadas de todos os tempos. Ela não é a mais numerosa, mas certamente traz uma das seleções mais bem feitas de automóveis icônicos do passado. Um deles é a Ferrari 330 P4, protótipo que venceu as 24 Horas de Daytona de 1967, com Chris Amon e Lorenzo Bandini revezando ao volante. Conhecida como “a resposta italiana ao Ford GT40”, ela tinha um V12 de três litros com injeção mecânica de combustível e 450 cv e uma carroceria belíssima, com uma enorme área envidraçada, linhas limpas e suaves, com para-lamas elevados e proporções irretocáveis.

Foi a própria Pininfarina quem procurou Jim Glickenhaus, em março de 2005, para oferecer-lhe um carro exclusivo, feito sob medida. E ele sabia exatamente o que queria: um carro retrô inspirado na 330 P4, feito com base em sua Ferrari Enzo – a antecessora da LaFerrari, dotada de um V12 de seis litros e 660 cv, câmbio manual eletro-hidráulico de seis marchas e capacidade de acelerar de zero a 100 km/h em 3,14 segundos (π segundos!), com máxima de 355 km/h. Detalhe: Glickenhaus foi o cara que comprou a última Enzo que ainda não havia sido vendida.

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As influências são visíveis em todos os cantos da P4/5: a silhueta vista de lado, a limpeza das linhas, a área envidraçada, os respiros nos para-lamas traseiros, a traseira tomada por saídas de ar. É o tipo de design retrô favorito da Ferrari: as referências ao passado estão ali, mas não na sua cara. Em relação à Enzo, as modificações mecânicas foram mínimas: foi instalado de um sistema de escape feito sob medida (com as saídas voltadas para cima) e uma nova barra estabilizadora na dianteira. A P4/5 é capaz de chegar aos 100 km/h em três segundos cravados (0,14 segundo mais veloz que a Enzo) e chega aos 375 km/h.

Dito isto, em tese a P4/5, teoricamente, deixou de ser uma Ferrari para tornar-se um carro by Pininfarina. Acontece que, ao ver o carro pessoalmente, o então presidente da Ferrari Luca di Montezemolo o achou simplesmente muito bonito para não receber o emblema do cavallino rampante. Assim, o nome oficial do carro é Ferrari P4/5 by Pininfarina.

 

Ferrari SP12 EC e Ferrari 512BB

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Sir Eric Clapton já se diz fã da Ferrari desde o fim da década de 1970 e, de acordo com o próprio, possui uma pequena coleção que inclui uma 250 Lusso e uma 365 GTB. Seu maior orgulho, porém, deve ser a Ferrari SP12 EC, que tem suas iniciais e foi criada exclusivamente para o deus absoluto da guitarra. A ideia: usar a Ferrari 458 Italia para homenagera a 512 BB (de Berlinetta Boxer, embora o motor não fosse de fato um boxer), fazendo a SP12 EC o único item desta lista que não é uma homenagem a um modelo dos anos 1950 ou 1960.

Em vez disso, a Ferrari de Eric Clapton homenageia o modelo topo-de-linha da marca entre 1976 e 1981, movida por um flat-12 de 4,9 litros (geralmente arredondados para cima) e 365 cv.

A 512 BB é bastante rara, com 929 exemplares fabricados em cinco anos, e possui um visual bastante característico: carroceria bicolor, com a parte inferior sempre em cinza fosco, e as setas abrigadas sob nada discretas lentes laranja.

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A 458 usada como base para a SP12 EC ganhou uma carroceria totalmente nova, projetada pela Pininfarina, com formas que remetem claramente à 512: ela ficou mais retilínea e limpa, com faróis menores e uma grade muito parecida com da Berlinetta Boxer original.

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Ferrari Rossa e Ferrari Testa Rossa

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No Salão de Paris de 2000 a Pininfarina apresentou um conceito especial para celebrar seus 70 anos: a Ferrari Rossa. Ela usava como base a Ferrari 550 Maranello, grand tourer fabricado entre 1996 e 2001 que tinha um V12 de 5,5 litros e 485 cv na dianteira e foi transformado em um roadster com ares de barchetta, faróis afilados e lanternas traseiras que previam as peças que seriam usadas mais tarde na Enzo.

O projetista da Ferrari Rossa foi o designer Ken Okuyama, que pegou inspiração na Ferrari Testa Rossa de 1958. É só reparar no formato da grade tripla, no modo como os para-lamas se destacavam da carroceria e no santo-antônio da traseira. Entre suas conquitas, a Testa Rossa tem tem as edições de 1958, 1960, e 1961 das 24 Horas de Le Mans.

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A Pininfarina não tinha a intenção de colocar a Ferrari Rosso nas ruas – embora tudo indique que ela fosse funcional, o carro jamais passou de um exercício de design. Dito isto, você deve lembrar que em 2016 o próprio Okuyama apresentou o Kode57, barchetta retrô que feita sobre estrutura de alumínio da Ferrari 599 e que também aproveitava o seu motor V12 de seis litros. Originalmente com 620 cv e 62 mkgf de torque, no Kode57 o motor foi preparado para render 700 cv a 7.600 rpm e 65,3 mkgf a 5.600 rpm com a ajuda da Novitec Rosso, que forneceu um novo módulo de controle para o motor. A transmissão é a mesma caixa semi-automática “F1” usada na 599, que também cedeu o arranjo de suspensão com braços sobrepostos nos quatro cantos.

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O carro é bem parecido com a Ferrari Rossa, porém obviamente com linhas mais atuais. Na época da apresentação, durante o Concours d’Elegance Pebble Beach, Okuyama declarou que seriam feitas cinco unidades e que diversos elementos, como a calibragem do motor e os detalhes de acabamento, seriam escolhidos pelos proprietários. Dito isto, porém, não houve mais notícias a respeito do carro.