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Car Culture

Os quatro costumes do mau motorista que se acha bom de braço

Já faz sete ou oito horas que chove sem parar. Além da janela a visibilidade não deve passar dos 100 metros, mas o som das entre gotas pesadas e o ruído da chuva constante na calçada, ouço o som de pneus rasgando a fina camada de água sobre o asfalto, em velocidades claramente inadequadas para as condições.

É o panorama desta sexta-feira, mas poderia ser o de qualquer outro dia de chuva em qualquer rodovia do Brasil. Por alguma razão, a chuva não parece ser um fator adverso para muitos motoristas. É como se, para eles, dirigir rápido na chuva fosse um certificado de pilotagem emitido, reconhecido e concedido ele próprio em algum lugar do córtex cerebral. Você sabe de quem estou falando; é um estereótipo: “o mau motorista que se acha bom de braço”.

Pelo jeito esta não é uma impressão pessoal minha. Conversando com os FlatOuters no grupo secreto, percebi que essa é uma percepção de mais gente, e pensando a respeito, concluí que os maus motoristas que se acham bons de braço passam por alguns estágios de evolução e adquirem hábitos comuns, que nos ajudam a identificá-los de longe.

O primeiro estágio da formação do mau motorista que se acha bom de braço é a descoberta da velocidade. Quando ele perde o receio de encontrar alguma variável imprevisível pela frente e adquire o hábito de dirigir rápido em qualquer lugar, bem acima da velocidade da maioria dos motoristas que estão ao seu redor. Este motorista, além de aparecer imprevisível por qualquer lado do seu carro, geralmente espera que o trânsito se abra para ele como as águas do Mar Vermelho se abriram para Moisés e o povo hebreu. A explicação é lógica: ele é o escolhido por deus para ser o melhor motorista do pedaço.

Depois disso, o mau motorista que se acha bom de braço já consegue dirigir rápido e avança para o segundo estágio quando começa a descobrir que também pode fazer curvas rapidamente. A maioria dos motoristas experientes na estrada também sabe, mas ele é o escolhido, lembra? Então, no reino encantado de si mesmo, fazer curvas em velocidades mais elevadas que o normal o diferencia dos motoristas utilitários e dos domingueiros — que é o jeito que ele chama todos os motoristas que não são ele mesmo.

Para ele, motorista bom é bom de curva. Então para mostrar que ele manja, ele adota dois costumes: nas estradas de pista simples, ele faz as curvas colado no carro da frente ou dançando atrás dele para mostrar que poderia ser mais rápido sem seu “rival” impedindo a passagem. Nas curvas de 90 graus ele tem um outro comportamento: a tangência de caminhão. Você sabe: um toque para o lado oposto seguido pela guinada rápida. O tipo de movimento que inicia o scandinavian flick, porém executado por um cara que: 1) não quer fazer o flick; 2) não tem habilidade para controlar o flick.

Agora que sabe dirigir rápido nas retas e fazer curvas como ninguém — literalmente: ninguém dirige tão mal nas curvas como ele — o mau motorista que se acha bom de braço parte para o terceiro estágio: dirigir rápido debaixo de chuva. Enquanto todos reduzem a velocidade e redobram a atenção, o mau motorista que se acha bom de braço enxerga qualquer rua ou rodovia como o circuito de Donington Park no GP da Europa de 1993. Ele, claro, é Ayrton Senna. Senna era bom de chuva e se diferenciava dos seus rivais debaixo de chuva. Então dirigir bem, para o mau motorista que se acha bom de braço, é dirigir rápido na chuva.

Não importa que a aderência seja drasticamente reduzida, que a visibilidade seja a mesma do espelho após o banho e que até as faixas da sinalização representem um risco para ele. Como Senna, ele afunda o pé e deixa todos comendo poeira. Ou melhor: tomando água. Note que quanto mais o mau motorista que se acha bom de braço evoluiu em sua escala esquizofrênica de habilidade pessoal, mais perigoso o negócio fica.

Até ele chegar ao último nível de sua escala evolutiva, o quarto estágio: “ninguém me ultrapassa”. Como ele é o mais rápido nas retas, nas curvas e debaixo de chuva, ele é o cara mais rápido do pedaço. Ninguém o ultrapassa porque ninguém tem o seu talento. Se ele está na faixa da esquerda, ninguém deve passá-lo porque ele é o mais rápido. Se ele está sendo ultrapassado, acelera porque aquele motorista certamente irá atrapalhá-lo na próxima curva. Ninguém é bom como ele.

Curiosamente, o mau motorista que se acha bom de braço recebe sinais de que ele não é tão bom quanto pensa o tempo inteiro. Seu carro bebe mais que o dos outros, os pneus duram bem menos, assim como os freios, mas… adivinhe só: o problema é a “alcoolina” brasileira, a marca dos pneus, as pastilhas que não duram nada. O mau motorista que se acha bom de braço é um gênio incompreendido mesmo.

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