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Pensatas

Ouro de tolo: desejos da classe média, hoje esquecidos

“O homem é um cadáver, adiado.” – Fernando Pessoa

Acho incrível até hoje a procura incessante de uma parcela da população em aumentar sua própria importância. Em acreditar que está aqui no mundo para ser grande, lembrado, importante. Sim, existem pessoas com mais responsabilidades que outras, com mais destinos e vidas sob sua responsabilidade; mas isso não é uma coisa boa para elas. É apenas o pesado fardo que este alguém precisa carregar em sua passagem por aqui.

Muita gente iguala esta responsabilidade, este fardo, como algo necessário para trazer a felicidade pessoal, que vem na forma de dinheiro. Mas dinheiro traz felicidade? De novo, me espanto que mais pessoas não saibam que esta questão, a de se o dinheiro traz ou não felicidade, já foi resolvida por estudos científicos comprovados. Não é mais campo para achismos, a resposta é fato conhecido. A ciência tem muito menos fatos conhecidos do que gostaríamos, apenas muitas teorias que desavisados tomam como fato, mas nesse caso, não há dúvida. É assim: de zero renda, até U$70.000 dólares anuais, toda vez que alguém ganha mais dinheiro a felicidade aumenta. Daí em diante, estabiliza; não adianta ganhar mais, que não fica mais feliz. Este estudo prova que ricos são mais felizes que os pobres, fato. Mas não são mais felizes que gente estabilizada financeiramente, muito abaixo da renda deles.

É por isso que alguns estudos (esses ainda não comprovados, apenas teorias) agora tentam ligar o aumento da depressão em países ricos a isso: acostumado a sempre ficar mais feliz com mais dinheiro, quando a fórmula não funciona, a pessoa passa a pensar que há algo errado com ela! “Estou cada vez melhor de vida, por que diabos não me sinto melhor?” Uma vez que as necessidades básicas, e uma certa medida de conforto, é alcançado, é necessário se entender realmente como pessoa e nosso lugar no mundo; caso contrário a infelicidade vai imperar mesmo. Dinheiro nenhum vai resolver seu problema.

Mesmo por que somos, no frigir dos ovos, animais insignificantes, e nenhuma quantidade de dinheiro ou poder mudará isso. Pessoas que sabem ser pequenas, mesmo com grandes responsabilidades, crescem, e quem se acha grande está fadado a não aprender mais nada, de novo receita para infelicidade. Um filósofo disse que “Você é um indivíduo em meio a outros sete bilhões de outros indivíduos de uma única espécie, em meio a outras três milhões de espécies já classificadas, que vive em um planetinha que gira em torno de uma estrelinha, uma entre outras 100 bilhões de estrelas que compõe sua galáxia, que é apenas uma entre outros 200 bilhões de galáxias, em um dos universos possíveis, universo este que no futuro vai desaparecer.” Coloca as coisas em perspectiva, não?

Ainda assim, gente se preocupa em estar melhor de vida, em parecer externamente bem-sucedido, em ostentar. E como este aqui é um site de carro, o assunto é esse mesmo: ter o carro da moda, o invejado e desejado pelo povão em um determinado ponto do tempo. O automóvel ainda é um símbolo visível de seu lugar no mundo e uma imagem que passamos ao exterior. Muita gente quer parecer diferente, audaz, excêntrico. Outros querem parecer apenas cidadãos comuns. Mas tem gente que quer parecer rico, e antenado aos itens mais desejados de consumo de sua época. Um cara cool, ele deseja ser.

O engraçado é que, normalmente, esses carros, passado seu minuto de fama e glória, raramente são lembrados com carinho. Nós, os entusiastas do automóvel, sabemos isso bem; o carro mais popular e mais desejado raramente é o que bate com nosso gosto. Às vezes, até temos um deles e usamos, claro; um carro de uso comum novinho, confiável, e de fácil venda quando se enche dele, é uma coisa boa, se nos isolarmos dessa ostentação boba. Quem conhece carro, na verdade, raramente fica impressionado com o objeto de ostentação, e julga o carro por méritos seus apenas. Já quem compra algo para estar no esperado para alguém de sua posição social, corre o risco de se passar por bobo: quem já não deu um sorriso amarelo a um conhecido que vem todo feliz lhe mostrar o caríssimo carro novo que comprou e você despreza?

Raul Seixas, o astro do proto-rock nacional, sempre sofreu de depressão justamente por mergulhar nesses dramas existenciais. E ao misturá-los com drogas de todos os tipos, entrou numa espiral forte de autodestruição, com resultados totalmente previsíveis para sua vida pessoal. Mas esta introspecção nos deixou pérolas como a música “Ouro de tolo”, onde justamente conta sobre o sentimento agora entendido como fato científico: se continuo progredindo, por que não estou ficando mais feliz? Nesta música, ele declara exatamente isso: como não estou feliz, se comprei um Corcel 1973? Um sentimento até hoje inconfessável para muita gente, mesmo depois de comprar seu Nivus Highline 2022.

Daqui a vinte ou trinta anos, quem vai ligar para um Nivus? Além de se tornar um item de coleção, como qualquer coisa antiga preservada, vai ser lembrado com carinho? Alguém vai declarar amor por ele como para Fuscas e Chevettes, Porsches e Jaguar? Provavelmente não. Quando um carro fica “velho”, quem continua a prestar atenção neles é o entusiasta, e então, os carros que a maioria dos entusiastas gostam começam a ganhar valor. A dualidade é clara: no mercado de novos o Sandero R.S. é desprezado e o Nivus tem sucesso; alguém chuta qual dos dois será um clássico cobiçado no futuro? Até Up TSI subiu de preço ao ser descontinuado, e vendia mal novo.

O que mostra como o valor das coisas muda, e o luxo de hoje é o lixo de amanhã; que o tempo é o único juiz real de valor. Que o sentimento de que um produto qualquer em evidência é necessário para nossa felicidade, é um caminho perigoso. É nesse espírito que resolvi rever a história desses carros abaixo: quatro carros que, em algum ponto, foram o sonho da classe média no Brasil. E como a história os tratou, passado seu momento de glória.

 

Aero-Willys

No início dos anos 1960, éramos pessoas muito sérias e formais. Cabelos curtos, esposas em casa cuidando de filhos, e íamos todo dia de manhã ao trabalho de terno e gravata. Tatuagens nem pensar, era coisa de estivadores, marinheiros e presidiários, e não gente séria que compunha o importante quadro social da nação. Sim, os anos 1960 aconteceram há muito, mas muito tempo atrás.

Não é a toa que o carro desejado por esse senhor de família, que na maioria das vezes tinha um Fusca usado, era também algo sério e formal: o Aero-Willys. Um carro quadrado, lerdo, mas confiável e mais importante: o maior símbolo de que alguém atingiu a estabilidade financeira nos anos 1960, aqui no Brasil.

Existiam poucas opções aqui, mas os entusiastas tendiam a preferir o Simca V8, principalmente quando virou “Tufão” de dois carburadores, e Emi-Sul com válvulas no cabeçote. Não se tem notícia de Aero nas pistas, mas Simca eram comuns, por exemplo. Mas o Simca era um carro bem menos confiável que o Aero: numa época que carro novo não era sinônimo de cabeça despreocupada, os Simca eram famosos por superaquecer a qualquer provocação. Não chegaram a ser quieridinhos dos entusiastas, mas os Simca, pelo menos, andavam bem melhor. Quando andavam…

Quem tinha mais dinheiro tinha outra opção: o Alfa-Romeo 2000 fabricado aqui sob licença na estatal carioca FNM. Este sim um carro de entusiasta, até hoje uma grande experiência ao volante, e com preços no mercado de clássicos condizente. Já o Aero-Willys, era conhecido como o “anti-carro”: a piada entre donos de carros esporte era que se ele tocasse um carro de verdade, uma reação em cadeia acabaria com o universo conhecido.

O Aero era um carro honesto, que muitos adoram e tem uma ligação, claro; mas era um automóvel totalmente sem qualidades apaixonantes. O motor era somente suficiente, um seis em linha pequeno e ultrapassado mesmo quando novo, que com 2,6 ou 3 litros, andava menos que o futuro Opala 4 cilindros, mas bebia mais que o Opala de seis. Era o “jipe de fraque”, um meio de transporte apenas. Mas, nos anos 1960, se você tinha um, era “alguém”.

 

Ford Corcel

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou o dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73

Raul Seixas disse tudo em sua música “Ouro de tolo”. Quando a Ford lançou a versão do Renault 12 que a Willys estava preparando para o Brasil com o nome de Corcel, acertou em cheio os desejos da classe média de então. Era um carro obviamente mais avançado e bonito (para os olhos da época) que o onipresente Fusca, o carro que todo mundo tinha. Mas não era tão caro quanto os Opala, Galaxie e Dodge que ficavam cada vez mais longe deles. Em 1973, um face-lift e a adoção dos motores 1.4 litros em todas as versões o tornou grande sucesso, e desejo de todos, como explicado por Raul.

Mas hoje? É o mesmo caso do Aero-Willys. Em 1974 apareceria o VW Passat, um carro que imediatamente fez ele parecer uma antiguidade dos anos 1960 ao rodar, o que era efetivamente verdade.  Não entendam mal: particularmente gosto muito dos Corcel desta época, e me lembro com carinho do carro de meu avô, um cupê 1975. Também lembro que um amigo, respeitado e experiente jornalista automotivo, adorava eles e comprou um para uso diário em 2008. Mas gosto pessoal e lembrança carinhosa não fazem um clássico: um Fusca era muito mais barato que um Corcel quando ambos eram zero km em 1973, mas hoje o inverso é verdadeiro. Ouro de tolo, indeed.

 

Chevrolet Monza

Nos anos 1980, a faixa de mercado criada pelo Corcel era ocupada pelo seu sucessor de luxo Del-Rey e o VW Passat, ambos carros antigos progressivamente atualizados em detalhes apenas. A GM traz então um carro no topo da tecnologia de então, igual ao que vendia nos EUA e na Europa: nossa versão do J-car, aqui chamado de Chevrolet Monza.

De novo, um carro honestíssimo, extremamente competitivo no mercado, bem equipado e acessoriado, e muito confortável e bem-acabado. Um facelift no meio de 1985 (o infame “MY 85 e meio”) fez ele acertar na veia os anseios da população: foi o carro mais vendido do país três anos seguidos, na frente de carros baratos como o Fusca e o Chevette. Um desejo enorme de todo pai de família nos anos 1980.

De novo, não me entendam mal. Já tive Monza, e tenho boas lembranças dele. E em sua época era um excelente carro, e extremamente moderno. Mas um clássico ele não é; hoje tanto o Chevette quanto o Opala são mais procurados e desejados no mercado clássico. O Monza recebe carinho apenas por lembranças pessoais diversas, e mais nada. Pessoalmente acho a suspensão dianteira “solta”, sem precisão, e o câmbio idem. De resto um bom sedã familiar apenas.

Existe até um ditado espalhado entre entusiastas, que é maldoso, mas engraçado e repetido demais para ficar de fora: “Hoje estou que nem colecionador de Monza: dando valor a quem nunca valeu nada!”

 

Toyota Corolla

O herdeiro dessa tradição de desejo da classe média é o Toyota Corolla: efetivamente substituiu nos anos 2000 os Monza/Vectra no coração do povo brasileiro. O Corolla é um carro muito bom, principalmente quando podia ser equipado com câmbio manual; mas é com o automático que fez estrondoso e duradouro sucesso.

Mas de novo é visto pelo que é hoje: um confiável, muito bem-feito e agradável meio de transporte para a família. Alguém deve estar colecionando Corollas, claro, mas como os outros, é gosto pessoal: a maioria da gente não tem lá muitas saudades deles. Hoje nem os novos provocam desejo, apesar de serem carros, olhando pragmaticamente, ótimos: todo mundo quer HR-V, Renegade, Nivus.

Uma prova de que todo rei um dia perde a coroa; que nada é para sempre. E que no fim das contas, ninguém liga de verdade para você e sua vida: é melhor vive-la de acordo com o seu gosto, e não o desejo da turba. Um grande sábio já disse: todo mundo quer mudar o mundo, mas ninguém quer mudar a si mesmo. Onde acrescento: e é mudando a si mesmo que o mundo, realmente, muda. Pelo menos para você mesmo, muda.