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Car Culture História

Piloto quebra seu próprio recorde de velocidade… 36 anos depois de morto!

A data é 26 de agosto de 1967. O já famoso motociclista Burt Munro vai até as planícies de sal de Bonneville com sua Indian e estabelece um recorde mundial de velocidade para motos abaixo dos 1.000 cm³. Este recorde permaneceu em pé até o começo deste mês de agosto, quando foi quebrado pelo próprio Burt Munro — 36 anos depois de sua morte. Ele era um cara incrível assim? Sim.

Herbert James “Burt” Munro nasceu em 1899 na cidade de Invercargill, Nova Zelândia, e tinha uma irmã gêmea que morreu no parto. Os médicos deram aos pais de Burt a expectativa de dois anos de vida… o que obviamente não se confirmou — e felizmente, pois o homem se tornou um dos caras que mais acumularam conquistas sobre duas rodas no século 20.

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A história começou cedo: Munro comprou sua primeira moto aos 15 anos — uma Clyno com sidecar que lhe custou £50. Em 1920 ele foi até uma loja que importava motos dos EUA e ficou encantado por uma Indian Scout, seu motor V-twin de 606 cm³ e sua pintura vermelha, e a levou para casa. A Scout, considerada a segunda moto mais importante da história da Indian, havia acabado de ser lançada, e a moto de Burt era a 627ª a sair da linha de montagem nos EUA.

Burt talvez não soubesse, mas ele e sua Indian acabariam por entrar para a história.

O processo de desenvolvimento da Indian Scout começou em 1912 quando os primeiros esboços foram feitos pelo designer Charles B. Franklin. O motor, de dois cilindros em V com ângulo de 42° e válvulas laterais, era acoplado a uma transmissão de três marchas com alavanca manual e embreagem a pedal (o contrário do padrão atual), suspensão com feixes de molas na dianteira e traseira rígida — “rabo-duro”, no linguajar motociclístico. Era uma moto avançada para sua época e permaneceu em produção até 1931 com o projeto virtualmente inalterado.

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Mas Burt era um entusiasta e, em 1926, começou a modificar sua Scout para torná-la mais rápida do que os 89 km/h declarados pela Indian como sua velocidade máxima. Ele era vendedor de motos, trabalhava muito e não ganhava tanto, o que o forçou a adotar um modo de modificação pouco ortodoxo. Burt improvisava ferramentas e componentes com metal que iria para o lixo e, muitas vezes, chegava do trabalho à noite, ia para a garagem fuçar na moto e passava a madrugada toda, voltando para o trabalho no outro dia sem dormir. Ele fabricava carenagens, bielas e pistões, e chegou até mesmo a projetar cabeçotes com comandos de válvulas duplos sozinho.

Foi esta moto que Burt modificou ao longo de mais de meio século, conquistando vários recordes de velocidade pelo caminho, na Nova Zelândia, na Austrália e no Reino Unido. Mas foi na década de 60, quando já era avô, que Burt Munro e sua Indian Scout ficaram famosos a nível mundial — e em um lugar mais do que apropriado: as planícies de sal de Bonneville.

Como você deve saber — especialmente se leu nosso especial sobre o deserto de sal (parte 1 e parte 2) —, nos anos de 60 Bonneville já era um templo da velocidade havia boas três décadas, e todos anos recebia centenas de hot rods e carros a jato, e Burt decidiu se juntar a eles em 1962 — com sua Indian, claro. Foram dez visitas e três recordes mundiais em menos de dez anos.

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O primeiro recorde foi estabelecido logo em 1962: 178,971 mph (288 km/h) — na classe abaixo de 883 cm³, com o motor deslocando 850 cm³. Em 1966, outro recorde — desta vez, para a classe abaixo de 1.000 cm³, chegando aos 270,476 km/h. O motor deslocava 920 cm³.

Por fim, em 1967, ele estabeleceu o recorde definitivo que, até esta semana, ainda estava em vigor: com cilindrada ampliada para 950 cm³, a Indian Scout de Burt Munro chegou aos 295,453 km/h em uma milha. E este é o recorde oficial — para a classificação, a moto chegou aos 305,89 km/h, a maior velocidade já atingida por uma Indian. E tem mais: a velocidade não-oficial é de 331 km/h. A saga de Burt Munro rendeu-lhe até mesmo um filme — “Desafiando os limites” (The Worlds Fastest Indian, 2005), no qual Burt é interpretado por Anthony Hopkins.

Agora, começamos este post dizendo que Burt conseguiu quebrar seu próprio recorde 36 anos depois de morrer. Como isto é possível?

Segundo o site Motorcycle USA, o filho de Burt, John Munro, notou um erro de cálculo nos registros oficiais da AMA (American Motorcyclist Association, organizadora das medições)De acordo com o documento, no dia 26 de agosto de 1927, Burt Munro atingiu uma média de 183,586 mph (295,453 km/h) em duas medições — uma  de 184,710 mph (297,261 km/h) e uma de 183,463 mph (295,255 km/h).

Somando as duas velocidades medidas e as dividindo por dois, temos 183,586 mph (295,453 km/h), certo?

Errado. Segundo John, os oficiais da AMA não usavam calculadoras na época — algo que ele fez há alguns meses depois de olhar para o certificado oficial emitido pela organização e pensar “isso não está certo.” Ele fez as contas e chegou à média de 184,087 mph (296,259 km/h) — a velocidade correta — 47 anos depois. Ele conta como conseguiu que o recorde fosse revisto:

Liguei para a AMA e falei com o cara e ele disse “bem, a gente não comete erros”. Então mandei para ele uma cópia porque tenho o certificado original em casa. Escaneei e mandei para ele e disse “agora faça as contas”. E assim, dois dias atrás, recebi isto.

“Isto” é um novo certificado da AMA, com o novo recorde de velocidade de Burt Munro, que morreu há 36 anos — e finalmente pode descansar em paz, onde quer que esteja.

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