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“Pilotos de teclado”: como estes seres azedam o meio dos entusiastas


Certamente estamos vivendo a época mais rica da história para quem gosta de carros. Nunca houve tantos nichos: pense em quantas subdivisões internas existem apenas dentro dos movimentos de muscle cars e de JDM. Nunca a indústria de peças aftermarket foi tão complexa e diversificada. Nunca foi tão fácil acessar catálogos e comprar componentes de todo o mundo (bem, ignore a escalada estratosférica do dólar nos últimos meses). Nunca foi tão fácil ter acessos a manuais de oficina, livros de preparação, ou mais do que isso, encontrar pessoas de qualquer ponto do globo que já escalaram a montanha que você hoje, olha de baixo, e que podem te ajudar mesmo sem te conhecer.

A evolução das ferramentas e processos permitiu coisas que antes eram coisas para equipes de corrida, como fabricar um comando de válvulas sob medida ou fazer um mapeamento de injeção e ignição exclusivo e poder alterá-lo a hora que quiser. Com mais dinheiro, dá até pra fabricar um jogo de rodas com o desenho que quiser, torneadas a partir de um bloco sólido de liga de alumínio!

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É verdade que o excesso de demanda deixou os clássicos de todas as épocas caros, que existe uma pressão social que acaba vilanizando o automóvel como o novo cigarro e que existe carro demais no mundo, entupindo ruas e avenidas. Mesmo assim, o sabor dos dias de hoje é inegavelmente delicioso: num track day você corre o sério risco de topar com um Ford Maverick rosnando a quase 8.000 rpm seguido de um Honda Civic Si fazendo mágica ao combinar o Vtec ao turbo, ou de um BMW M3 modificado ao melhor estilo Touristenfahrten testemunhando uma dupla de Subaru WRX e Lancer Evo disputando o bom e velho Ken x Ryu do mundo automotivo. Isso falando apenas do topo da cadeia alimentar, mas quase sempre a paixão mais pura e inabalável está nos projetos mais humildes. Essa mistura de todas as épocas, culturas, estilos e divisões socioeconômicas é o melhor fruto da globalização no nosso meio.

Ao mesmo tempo, há algo que, sem percebermos, está corroendo todos estes nichos de dentro para fora. Um tipo de comportamento venenoso, vaidoso e por muitas vezes invejoso, que pode vir de gente que orbita por fora do meio como também de dentro, muitas vezes recebendo uma cortina de fumaça de brincadeira ou de direito a opinião própria para disfarçar uma pedrada mal-intencionada. São os famosos keyboard warriors, quase perfeitamente traduzido como “pilotos de teclado” em muitos meios. O “quase” é porque o termo confunde com os pilotos de automobilismo virtual (simuladores), meio onde tem muita gente bacana.

 

O clássico keyboard warrior

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Você sabe bem. É o cara que despreza acidamente determinado carro porque “170 cv não é potência digna de um esportivo” ou porque “ele é X segundos mais lento que o carro Z no Nordschleife ou na volta do Top Gear ou do Acelerados”, que apedreja intelectualmente certo projeto porque não está com aquela roda que ele botaria caso fosse seu, que desce o malho no determinado vídeo de track day de um sujeito, apontando do alto de sua profunda experiência com Gran Turismo tudo o que o cara está fazendo de errado. Elogiar é difícil, é mais fácil inverter e dizer que o cabra ou o carro não é ruim, MAS que ele deveria fazer isso e aquilo pra ser digno do elogio absoluto do Papa anônimo.

Os pilotos de teclado são clássicos cagadores de regras e julgadores do alheio, impondo padrões e regras não apenas sobre o que é bom e ruim, mas sim sobre o que você pode e não pode fazer.

Tendo como referência apenas a nata de projetos gringos, games, simuladores e filmes; o resultado é que, para eles, carro bom é somente aquele com câmbio manual, tração traseira e nenhuma assistência eletrônica. Preparação? Só com tudo forjado e ao menos 200% de potência sobre o original. Tração integral? De WRX STI para cima. Curiosamente, são estas mesmas pessoas que geralmente reclamam do preço de tudo, tentam precificar e comparar o que é dos outros a todo instante e, não raramente, são as primeiras a botarem peças chinesas ou do Ali Express em seus carros, especialmente rodas “réplica” e volantes. Não que contrariar essa média dê créditos para justificar um comportamento destes.

Porque a verdade é apenas uma: a regra imposta por eles para o que é incontestavelmente bom é tão implacável que fica impossível de ser realizado por ninguém que não seja AAA socioeconomicamente. E por uma questão quantitativa, quase nenhum deles pertence a esta classe (alguns sequer possuem um carro…), embora a maior parte conviva com estas pessoas, seja em fóruns, seja em encontros de posto, passeios e eventos de pista.

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Da mesma forma que os aviões permitiram que pessoas chegassem rapidamente ao outro lado do mundo ao mesmo tempo em que permitiram destruição em massa em guerras jamais vista, a internet possibilitou o primeiro parágrafo deste texto ao mesmo tempo em que forneceu as armas e o cenário estimulante para estes sujeitos. Ela traz a perigosa combinação de isolamento físico, anonimato individual e palco público, ao mesmo tempo em que possibilita estas pessoas de transitar em locais que seriam bastante restritivos caso existissem no mundo físico, como fóruns e sites de nicho (olá). Com tantas respostas ao alcance de uma pergunta ao Google, é fácil criar a imagem de um connaisseur. E isolado atrás de um monitor, ser um Toretto não é difícil. E o mais doido, chega uma hora que o cara realmente acredita ser um.

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Certamente você já ouviu falar dos millenials – a geração nascida próxima aos anos 2000 – e em todas as delicadas questões comportamentais que afetam parte significativa dela. Se boa parte deles odeia este rótulo, por outro lado muitos reconhecem a tríade “ganancioso”, “cínico” e “ensimesmado” (voltado a si) em si mesmos (leia a respeito neste artigo do Daily Mail) e não faltam estudos e artigos sobre a tendência à depressão desta geração, em geral dependente mais de uma imagem projetada nas redes sociais do que a vivência de fato, acostumados a dar pouca atenção individual para uma larga cobertura de tarefas simultâneas, e que cresceu acreditando que era mais especial e importante que os outros e que a culpa de seus fracassos estava sempre nos outros.

Embora os traços comportamentais dos pilotos de teclado sejam dos millenials e da geração X (que não fica muito longe), não se engane: tem muita gente com (bem) mais de 30 anos nas costas se comportando exatamente assim – em todo tipo de site, seja de conteúdo ou de rede social. E este comportamento cínico tende a ser contaminoso de tal forma que muita gente bacana ficou babaca e não percebeu. Felizmente, aqui no FlatOut temos uma enorme comunidade e em sua maior parte unida, mas não estamos imunes a estas manifestações nada saudáveis que, sim, acontecem ocasionalmente (infelizmente, em boa parte das vezes no Project Cars).

Uma bela síntese de como tudo isso está afetando a cena dos entusiastas está neste sensacional artigo de Paddy McGraph, do inspirador Speedhunters, ao qual atribuo também os créditos da ideia deste post.

Quando você cresce achando que apenas a sua opinião importa, você imediatamente remove todas as oportunidades de aprender de sua vida. Inúmeras vezes topei com comentários ásperos e de pouquíssimas palavras que agridem o trabalho duro de alguém sem justificativas ou mesmo sem a decência de qualificar o seu ponto de vista. Ou pior. Em vez de apreciar o belo resultado final de um projeto, eles imediatamente o invertem para aquilo que eles fariam para deixá-lo “melhor”. Este último caso exemplifica o nível crescente de narcisismo presente em um monte dos Millenials (a geração nascida próxima aos anos 2000), sendo que a maior parte deles nunca fez nada para mostrar que eles são remotamente capazes de criar algo por conta própria em primeiro lugar. Em vez disso, eles acreditam que o resto de nós, meros mortais, deveríamos ser gratos pelo fato de eles compartilharem seu virtuoso julgamento conosco.

Educadamente, eles podem ir se fo*er.

São estas pessoas que criaram um mundo de hostilidade dentro da nossa comunidade; uma comunidade que é estruturada em liberdade e curtição (…) O fato de que você ou eu podemos ir em qualquer lugar do mundo e encontrar um sujeito que pensa exatamente como nós, podendo falar de forma apaixonada sobre automóveis, é uma sensação incrível. Em um mundo cada vez mais paranóico e com diferentes países tentando se destruir uns aos outros, sinto que somos um dos últimos bastiões de sensibilidade.

No fim das contas, eu não quero que potenciais novos membros desta nossa família se sintam intimidados pela hostilidade destes poucos que se julgam tão importantes. Não quero que este se torne um mundo no qual as pessoas possuem medo de fazer o que elas sentem vontade de fazer com os seus carros. Se você não pode se expressar, então não há ponto em fazer o que nós fazemos.”

Paddy McGrath

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O que fazer com tudo isso?

É fácil – e tão tipicamente millenial – pegar tudo o que foi dito aqui até agora, amassar numa enorme e raivosa bolota de papel intelectual e jogar de volta na nossa cara, temperada com termos do tipo “que puta mundo chato”, “não podemos falar o que penso?”, “ah então só pode elogiar?”. Porque reações histéricas, infantis e reducionistas são típicas, ao mesmo tempo em que sabemos que quase nenhuma destas pessoas é agressiva assim pessoalmente, muito pelo contrário: introversão costuma ser o padrão.

Só que o ponto é o seguinte. A rua, o mundo real, continua impondo respeito como regra básica de sobrevivência. E as pessoas possuem memória. O computador ou o smartphone criam uma frágil imagem de proteção ao anonimato e de efemeridade (falei hoje, amanhã ninguém lembra mais), mas muitas pessoas se conhecem e se falam. Se você é do meio, sua atitude cheia de si pode estar sendo comentada por outros sem você saber. Se você não é do meio, certamente pretende ser algum dia. E alguém vai se lembrar daquele seu comentário cagador de regra, e torça para que isso não seja usado contra você na hora em que falarem do seu carro. Ou que a vítima do seu ácido virtual não esteja na sua frente um dia. Porque o apelido de fórum não te esconde: pelo contrário, você mesmo vai revelá-lo para se apresentar. E junto vem o seu histórico… que você esqueceu.

Ninguém é inatingível (intelectualmente ou fisicamente) – é por isso que o respeito existe no mundo físico. O erro é achar que o virtual nunca vai se transpor no real, porque você está criticando carros e pessoas de verdade, meu amigo. Tanto bate-e-corre em teclado pode te fazer um cara mal comentado no meio.

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Não somos obrigados a gostar de tudo e temos o direito a dar nossa opinião, seja positiva ou negativa, e a fazer brincadeiras sim – mas vá num espírito bem leve com quem você não conhece. Você não pensa com os dedos, portanto, não precisa teclar tudo o que pensa no Facebook, em fóruns e em caixas de comentários – até porque quem fala tudo o que pensa são crianças, não adultos. Eu sinto que a maior parte dos pilotos de teclado não são maus sujeitos, mas ao mesmo tempo, dão chutes na canela mal-intencionados e não fazem a menor ideia de que estão se tornando pessoas indesejadas e impopulares ao tentarem conquistar moral julgando os outros com todo o seu conhecimento, seja ele factível ou de Wikipedia.

Para o bem de um meio que só tende a encolher a cada nova geração (carro? que coisa antiquada!), tente não ser um babaca. Tanto ao falar do carro de R$ 300 mil investidos quanto no de R$ 20 mil – porque é o mesmo combustível que move a paixão, independentemente das limitações de grana de cada um. Pensando antes de escrever, quando você se der conta, já virou outro cara, muito mais bacana, atrás do teclado. E sua presença no mundo real vai ficar muito mais azeitada.

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