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Por dentro da coleção secreta de carros de corrida da Toyota Motorsports GmbH

Recentemente diversas fabricantes de automóveis decidiram abrir as portas para as câmeras e deixar que filmassem seus acervos secretos de conceitos, protótipos e carros de competição que raramente (quando muito) vêem asfalto livre ou a luz do dia. Não foi diferente com a Toyota, que mantém nos subúrbios de Koln, na Alemanha, um galpão secreto onde estão alguns de seus maiores tesouros sobre rodas.

O endereço não é revelado, apenas o pessoal autorizado conhece o local. Entre este pessoal está John Day, que já trabalha com a Toyota há décadas e é o cara responsável por manter todos os carros do museu secreto limpos, impecáveis e, em alguns casos, em perfeitas condições de acelerar.

Day trabalha na TMG, ou Toyota Motorsports GmbH. Ele contou ao pessoal do canal XCAR que as raízes da TMG estão em uma equipe chamada Andersson Motor Sports, fundada por Ove Andersson, piloto de rali sueco que fez história ao conquistar os primeiros resultados expressivos da Toyota no Mundial de Rali, ao volante de um Toyota Celica, ainda em 1973.

222d (6)

Não demorou para que a Andersson Motor Sports se transformasse na Toyota Team Europe, a equipe de fábrica responsável pelos esforços da fabricante japonesa no WRC. Uma das razões para sediar a equipe na Suécia (decisão do próprio Andersson) foi o fato de que os carros sempre sofriam danos durante o transporte do Japão ao Velho Continente para as competições.

1980-OveAndersson-ToyotaCelica

Depois de se transformar em Toyota Team Europe, a equipe se mudou da Suécia para a Bélgica, e continuou preparando o Celica e o Corolla para competições – especialmente os ralis. Na verdade, todos os carros que a Toyota colocou para competir no WRC – incluindo o Celica Turbo 4WD e o Corolla WRC, vencedores dos títulos de pilotos em 1993 e 1994 (Celica) e 1999 (Corolla) – foram totalmente concebidos, desenvolvidos e produzidos pela Toyota Team Europe, que se tornou Toyota Motorsports GmbH em 1993, 14 anos depois de transferir sua sede de Bruxelas, na Bélgica, para Koln, na Alemanha.

Entre as máquinas mais emblemáticas que a TMG criou enquanto se focou nos ralis, está também o protótipo perdido da Toyota para o Grupo B estão o Celica TCT (Twincam Turbo), lançado em 1982 para a categoria mais insana da história do Mundial de Rali, e o 222D, protótipo que foi desenvolvido para correr no Grupo S – a categoria que iria substituir o Grupo B, mas foi cancelada por ser perigosa demais. Já falamos do Grupo S aqui.

O primeiro é um Celica de terceira geração equipado com um quatro-cilindros com comando duplo no cabeçote, duas velas de ignição por cilindro, turbocompressor e 320 cv na versão de competição. O carro nunca conquistou um título, mas era extremamente rápido e, com pilotos como Björn Waldegaarde e Juha Kankkunen no comando, conquistou seis vitórias nos quatro anos em que competiu (1983-1986).

222d (3)

O 222D seria o sucessor do Celica TCT se não fossem as tragédias de 1986 (que já comentamos algumas vezes na nossa série sobre as Lendas do WRC). O carro tinha como base o esportivo de motor central-traseiro MR2, porém retrabalhado para ficar mais curto, ágil e leve, e recebeu um motor de origem nobre.

O quatro-cilindros turbo de 2,2 litros vinha dos carros que a Toyota criou para competir no Grupo C de endurance em meados dos anos 80, como o 88C de 1988. Com a ajuda de um turbocompressor, o motor podia entregar de 350 a 1.000 cv dependendo da calibragem (em Le Mans, eram cerca de 600 cv), e foram feitos cerca de dez exemplares do 222D para testes.

“O problema destes carros é que não existia tecnologia suficiente na época para controlá-los”, comenta Day. “O turbo lag era gigantesco, de mais de três segundos, e quando a turbina finalmente entrava em ação era de uma vez só. Não dava para saber se o carro iria sair de traseira, sair de frente, ou qualquer outra coisa.”

Day diz ser uma das únicas pessoas no planeta que já dirigiu este carro em público, que é “bem divertido, mas perigoso”, e nós acreditamos nele.

Agora, falando em Le Mans, a TMG também foi responsável pela volta da Toyota às corridas de endurance nos anos 90. Se você joga Gran Turismo, vai gostar de saber que não um, mas dois Toyota TS020 estão no museu em Koln. Se você não sabe do que estamos falando, então deve conhecer o carro como GT-One.

toyota_gt-one_race_version_2

Sim, o protótipo que a Toyota fez para a categoria GT1 (para competir contra caras como o Porsche 911 GT1 e o Mercedes-Benz CLK GTR) mas, depois que as regras mudaram, foi levado para correr em Le Mans. Apenas dois carros de rua foram feitos para homologação. Um deles está em um museu no Japão e o outro, nesta garagem secreta – que também abriga um dos carros de competição.

“Teoricamente nós podemos fazer tudo aqui”, conta Day. “Podemos projetar, desenvolver, construir e produzir qualquer carro e colocá-lo nas ruas ou nas pistas. Não importa o que seja: motor, plataforma, não importa o que você queira, nós conseguimos fazer”.

Esta convicção não é infundada, e uma prova disso é que, entre os cerca de 25 carros que estão guardados ali, estão alguns conceitos únicos feitos nas horas vagas. Um deles é um pequeno Toyota iQ – o city car que a Toyota lançou em 2008 e também foi vendido como Aston Martin Cygnet por alguma razão – com um compressor mecânico em seu motor 1.0 de três cilindros, que agora entrega 142 cv e é capaz de superar os 200 km/h.

O outro é algo chamado TS-650. Trata-se de um Lexus IS que recebeu um tratamento especial para, de acordo com Day, ser capaz de encarar qualquer Mercedes-Benz AMG. Para isto, o V8 de cinco litros recebeu dois turbocompressores e teve sua potência elevada de 417 para 650 cv, daí seu nome. Aliás, de acordo com o curador, o motor certamente poderia entregar 750 cv tranquilamente.

“Nós poderiamos facilmente ser a AMG da Toyota, sem problema nenhum”, ele arremata. A gente não duvida.

 

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