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Técnica

Por que se remove a carroceria dos Land Rover? Como se faz isso?


A imagem acima é forte: um carro moderno, robusto e muito caro (ao menos quando novo), dividido em duas partes, como um Haas de Fórmula 1 depois de umas voltas com Grosjean, Mazepin ou Schumacher.

Esse tipo de cena, de carros desmontados em partes, hoje é quase limitada aos boxes da Fórmula 1 ou de Le Mans, ou então em fotografias em tons de cinza do passado — até o início dos anos 1990 ainda se via carros de 25 ou 30 anos separados em peças nas oficinas; eu mesmo lembro quando descobri que a carroceria do Fusca podia ser separada de seu chassi rolante, um dia ao pedir uns pontos de solda na mesa da minha Monark BMX Acrobike.

Mas o carro da foto é um Land Rover Discovery. Um carro que atravessa até 90 cm de alagamentos enquanto transmite “Galinha Pintadinha” para as crianças no banco de trás e massageia as costas cansadas da sua esposa. Ele é sólido, tecnológico, robusto, magnânimo. Como ele pode estar nessa situação tão embaraçosa?

Esse, claro, é o ponto de vista romantizado sobre um Land Rover com o chassi separado da carroceria em um elevador de oficina. O ponto de vista mais pessimista, aquele que normalmente reverbera nas redes sociais e na Associação Intergaláctica de Pilotos de Teclado, é que o Land Rover Discovery é um carro tão problemático, de manutenção tão complicada (e por isso insanamente cara), que você precisa remover a carroceria do chassi para resolver problemas simples. E por isso o carro é uma máquina de triturar dinheiro, que, além de te deixar pobre, vai te deixar a pé.

A verdade, como sempre, está perdida em algum lugar entre os dois extremos. E como eu já tinha uma pista sobre como encontrá-la, comecei a procurar e, depois de conversar com alguns membros do CTFO (Conselho Técnico do FlatOut), compartilho as respostas com vocês.

 

Por que se levanta a carroceria, afinal?

Você já tentou varrer o chão sob uma mesa sem tirar as cadeiras do lugar? Ou tirar o pó de uma estante apenas trocando os livros de posição? Então você sabe o que um mecânico encontra quando abre o cofre de um Land Rover Discovery e encontra motores enormes, caixas de filtros imensas, mangueiras e linhas hidráulicas por todos os lados, além dos acessórios do motor e outros sistemas. O cenário é o seguinte:

Ficou claro, não? Vamos em frente.

Alguns componentes podem ser acessados depois da remoção da capa do motor, de um ou outro reservatório, admissão ou filtro. Quando você vai trocar as velas, por exemplo, a capa do motor é removida e se acessa elas por ali. Quando se vai tirar o turbocompressor ou trabalhar no cabeçote do motor, é possível fazer tudo pelo cofre.

Mas há alguns reparos que exigem a remoção da carroceria devido à falta de espaço e acesso para montagem/desmontagem correta e posterior verificação dos itens trocados. A necessidade é semelhante à desmontagem do subchassi/agregado de um carro com construção em monobloco. Como o Land Rover não tem um monobloco, e sim um chassi sob a carroceria, você tira o chassi da carroceria. É apenas uma questão de perspectiva: você secou as mãos na toalha ou molhou a toalha com suas mãos?

Estes reparos são, quase sempre, a troca de correia, polias e tensionadores, reparos na linha hidráulica da barra estabilizadora e troca do sensor de rotação, na parte posterior do motor. Este último, a troca do sensor, pode ser feito com ferramentas especiais, daquelas que os mecânicos adaptam para facilitar o trabalho. E é aqui que a explicação começa.

Suponha que você tem uma Land Rover Discovery 4 que acabou de trocar o conjunto de polias, correia e tensionadores e revisou a linha hidráulica da barra estabilizadora. Então o sacana do sensor de rotação decidiu se aposentar dois meses depois de você fazer tudo isso. Como aquele é o único reparo a ser feito, os mecânicos com experiência, conseguem remover e trocar o sensor sem a remoção da carroceria — que é o processo normatizado da Land Rover para esse serviço. O esforço de acessar a peça, ainda que seja intenso, é menor que a remoção da carroceria.

Além disso o serviço será mais rápido para a oficina, que poderá atender mais um cliente no dia, e sairá mais barato para o proprietário do carro.

Agora, suponha que o carro precisa passar por uma revisão completa, na qual deve ser removido o turbocompressor, trocada a junta de cabeçote e as juntas dos coletores de escape. Teoricamente não é necessário levantar o carro, mas se é preciso fazer tudo isso em locais diferentes do cofre — e, como é um trabalho demorado — a remoção da carroceria pode ser uma opção de praticidade. O risco de danificar a carroceria ou algum componente adjacente é menor, têm-se acesso total ao motor e, como você verá mais adiante, o procedimento para remover a carroceria é relativamente rápido. Ou seja: em vez de ficar marcando as cadeiras com o cabo da vassoura, tentando driblar as pernas delas com a poeira, você simplesmente tira as cadeiras e a mesa, porque é mais prático, mais rápido e mais seguro.

 

Como se remove a carroceria?

O procedimento parece complicado, mas ele só precisa ser metódico porque estamos falando de peças de acabamento que podem ser danificadas sem o cuidado e sem a remoção na ordem correta. Como a Land Rover já prevê a remoção da carroceria para determinados serviços, alguns sistemas já foram projetados para facilitar este processo.

Para retirar a carroceria, é necessário remover os faróis, para-choques, protetores dos para-lamas, as capas do motor, as caixas de filtros, o estepe, soltar as linhas de freio (que já têm engates roscados na carroceria, justamente para facilitar a desconexão), desconectar as tomadas dos chicotes elétricos, a tomada do ar quente e remover os para-barros das caixas de roda.

Nessa etapa a carroceria estará presa ao chassi somente pelos parafusos. São 11 no total. Basta removê-los, colocar o carro no chão, reposicionar os braços do elevador para levantar apenas a carroceria e, finalmente removê-la.

Por incrível que pareça, o procedimento é relativamente rápido: um mecânico experiente pode fazer a separação em cerca de duas horas. O impacto de se ver uma carroceria moderna separada do seu chassi, e a quantidade de componentes envolvidos é que causa a impressão de ser algo complexo e custoso, mas para os profissionais experientes isso é um procedimento relativamente simples e corriqueiro — tanto que a própria Land Rover considerava um procedimento padrão em algumas manutenções.

 

A embreagem da Ferrari F50 e dos tratores

Outro carro que impacta na hora da manutenção é a Ferrari F50. Sua troca de embreagem exige a remoção da traseira do carro, literalmente partindo-o em dois. A razão dessa bipartição da F50 é diferente da Land Rover, mas o procedimento é muito parecido.

A Ferrari F50 é um carro com motor estrutural. Isso significa que a única estrutura que suporta a traseira é o próprio conjunto de motor e câmbio. Tudo fica apoiado sobre suportes na carcaça do câmbio em uma ponta, e preso à parte posterior do monocoque na outra.

Retirar o câmbio da F50 sem retirar sua porção traseira, seria como trocar um cabide sem tirar a camisa de cima dele. Como a estrutura está concentrada em um único ponto, contudo, isso é um trabalho mais fácil do que parece: o mecânico precisa, resumidamente, soltar apenas as linhas hidráulicas do câmbio e dos freios, os chicotes elétricos que ligam a porção final do carro, e parte do escape. Aí é só desaparafusar o câmbio do motor e afastar as duas partes.

É exatamente como se troca a embreagem dos tratores — que, aliás, foram a inspiração para os motores estruturais da Fórmula 1. Mas isso é história de outra matéria.

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