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Precisamos falar sobre o “recorde” do supercarro chinês NIO EP9 em Nürburgring

Se você acessou a internet entre ontem e hoje (o que é óbvio, pois você está aqui!), provavelmente viu que um dos assuntos do momento é o recorde do Nio EP9, o supercarro elétrico que percorreu os mais de 20 km de Nürburgring Nordschleife em 6:45,90. Seis minutos e quarenta e cinco segundos, cara – definitivamente, um tempo impressionante, e a chinesa NextEV, equipe de corrida responsável pelo Nio EP9, merece todo o crédito por construir um carro elétrico capaz disto.

Só que há algumas questões importantes que aparentemente ninguém deu muita bola nesta história. E, pode ter certeza, o fato de ser um carro elétrico é só um detalhe.

O Nio EP9 foi sete segundos mais veloz que o polêmico Lamborghini Huracán Performante e seus 6:52. Este, por sua vez, superou o Porsche 918 Spyder por cinco segundos – o tempo do hipercarro alemão foi 6:57. Um supercarro puramente elétrico, um com motor a combustão e um híbrido são, portanto, os três carros mais rápidos no Inferno Verde. Mas… está certo comparar seus tempos de volta?

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Não, não é implicância com os elétricos. O NIO EP9 é um carro impressionante por si só: um superesportivo com quatro motores elétricos de 340 cv e quatro transmissões individuais resultando em um total de 1.360 cv (ou 1 megawatt). Como já dissemos, o conjunto também gera 150,55 mkgf no motor e 644,7 mkgf nas rodas de zero a 7.500 rpm. Não é à toa que o futuro dos automóveis aponta para a eletricidade, e nada mais justo que dar a um elétrico a chance de provar sua capacidade.

O recorde foi anunciado há dois dias, e na tarde de ontem o vídeo com a volta foi divulgado. Vamos dar uma olhada:

Sem dúvida é muito rápido, e o som de nave espacial produzido pelo conjunto elétrico torna as coisas até interessantes. E fica ainda mais impressionante se levarmos em conta que o Nio EP9 baixou 19 segundos em relação ao tempo anterior, de 7:05 – já bastante baixo –, conseguido no fim de 2016.

A questão que estamos levantando é a seguinte: um recorde, por sua natureza, é a superação de um limite em condições de paridade. No caso do Lamborghini Huracán Performante, o limite superado foi tempo de 6:58 do Porsche 918 Spyder ao redor de Nürburgring. A condição de paridade era que ambos são carros produzidos em série, com permissão legal para rodar nas ruas de todo o mundo.

Comparado com essa dupla, contudo, o Nio EP9 não está em paridade: ele é um protótipo que usa pneus slick (como veremos mais adiante), e isso já seria suficiente para questionar essa aclamação generalizada.

Então que recorde ele quebrou?

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Você pode estar pensando nos modelos exclusivos de pista. E nesse caso ele também superou o atual recordista, o Pagani Zonda R que completou sua volta em 6:47,50 — 2,4 segundos mais lento que o NIO. Mas novamente o NIO tem sua vantagem em relação ao Zonda: o supercarro italiano usa um motor produzido em série (o mesmo V12 M120 da AMG que equipa o Zonda e, em versões amansadas, os Mercedes SL600/65/73, CL600/65 e S600/65/70) e o mesmo monocoque do Zonda convencional. Diante disso, podemos compará-lo diretamente com o Zonda R?

A comparação com carros de corrida também seria descabida por dois motivos: carros de corrida são pareados entre si por um regulamento vigente; e a distância da volta é diferente do traçado usado para os recordes de carros de rua/pista.

 

 

Protótipo ou carro de série?

O NIO EP9 infelizmente parece estar em um limbo automotivo: por usar motor e chassi exclusivos (ao menos neste momento) ainda não podemos considerá-lo um modelo produzido em série porque, bem, ele não é produzido em série — a NextEV diz que já fez sete carros (que ninguém viu, mas estamos acreditando nisso) e pretende construir outras dez unidades. Isso nos leva a uma outra questão: todos os NIO EP9 são capazes de completar Nürburgring Norsdschleife em 6:45 ou apenas este protótipo? Os modelos de série serão exatamente iguais a este? Ou será preciso fazer modificações para torná-lo confiável para uso constante em longo prazo?

Diante disso perguntamos: o carro que foi levado para Nürburgring pode ser considerado um carro de produção? Nós achamos que não e vamos explicar o porquê.

No vídeo da volta de 6:45,9 a NextEV deixou evidente que a suspensão do NIO foi recalibrada para o recorde: o carro quase não rola, e sacoleja como um carro de corrida. A altura de rodagem está tão baixa que o piloto evita o Karousel para não bater o fundo do carro. E tem mais: de acordo com a própria apresentação do carro, o Nio EP9 teve sua suspensão dimensionada para usar os pneus feitos sob medida para esta tentativa de recorde.

Some isso à declaração da NextEV, sobre o EP9 ter sido projetado com pneus slick em mente. É seguro afirmar que os pneus usados no “recorde” de Nürbugring são slicks, de modo que o Nio EP9 não está em pé de igualdade com os rivais que, segundo a imprensa estrangeira, foram deixados para trás.

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Isto faz muita diferença porque, no fim das contas, aerodinâmica, pneus e suspensão são muito mais importantes que potência bruta na hora de encarar o Inferno Verde e tentar conseguir um bom tempo de volta. Não é à toa que protótipos GT3, com potência entre 500 e 600 cv (menos da metade do que tem o Nio EP9), conseguem virar tempos na casa dos 6:30 regularmente.

Na ocasião da polêmica sobre o recorde do Lamborghini Huracán Performante, Jim Glickenhaus (dono da Scuderia Cameron-Glickenhaus) disse que a versão de corrida de seu supercarro SCG 003 é capaz de completar o Nordschleife na casa dos 6:20, mas que o uso de pneus de rua o tornaria cerca de 30 segundos mais lento por volta. Isso significa que a mera substituição dos pneus de rua por pneus slick torna o carro quase meio minuto mais rápido no circuito.

 

 

Eu vi o futuro, baby

É claro que, como já dissemos, nada disto invalida o feito da NextEV com o NIO EP9. Fazer um carro elétrico conseguir um sub-seven em Nürburgring é uma tarefa dificílima: as baterias são pesadas e, por isso afetam o momento polar de inércia do carro, tornando-o menos ágil. O conjunto elétrico — incluindo as baterias — esquenta excessivamente em uso extremo e adoraríamos conhecer a tecnologia empregada pela NIO para contornar estes problemas (algo que a Tesla ainda não conseguiu).

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Além disso o projeto aerodinâmico do carro  foi muito bem trabalhado, de forma que a downforce, de acordo com a NextEV, é maior que em um carro de Fórmula 1 (a empresa fala em 24.000 N, enquanto um F1 chega a 17.000 N), e a aceleração lateral nas curvas pode chegar aos 3,3 g.

O Nio EP9, mesmo que não seja um recordista de fato (mais por falta de parâmetros de comparação que por sua competência), conseguiu algo impressionante, e é um presságio do que a eletricidade poderá fazer pelos carros de alto desempenho em um futuro não tão distante. E ainda temos a caminho o Aston Martin Valkyrie e o Mercedes-AMG Project One, ambos híbridos, ambos com projetos radicais de aerodinâmica. Vai ser interessante de acompanhar.

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