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Project Cars Project Cars #249

Project Cars #249: um Fiat Coupé 16v para usar no dia-a-dia

“Meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear”. É assim que meu pai canta quando me vê na garagem mexendo no carro. Pra ele, carro é apenas um meio de transporte, e se tiver alguém pra dirigir pra melhor ainda! Mas ele sabe que comigo é diferente. Meu nome é Jaime Muniz, tenho 32 anos, moro em São Luís/MA e tenho essa coisa de paixão por carros, motos, aviões, helicópteros, lanchas, karts e afins.

Desde criança que qualquer coisa que tenha um motor chamava minha atenção. E isso acaba moldando a nossa personalidade e formação profissional. Hoje sou formado em engenharia mecânica e, apesar do meu curso ser muito mais voltado para o setor industrial, essa curiosidade nata de engenheiro acaba me ajudando no desenvolvimento desses projetos. A partir de hoje, contarei a vocês a história e a restauração/personalização do meu Fiat Coupé 16v, o Project Cars #269.

Quando comprei o carro ainda não conhecia o FlatOut e não imaginava um dia ter a oportunidade de contar a história dele numa seção como o Project Cars. Mas como já tinha costume de fazer relatórios de todas as manutenções das máquinas da empresa onde trabalhava, sempre estava fotografando as etapas da restauração do carro.

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Não sei nem se restauração seria o termo mais indicado para o que tenho feito com ele, pois desde o começo sabia que não teria condições de fazer um serviço daqueles de deixar o carro parecendo que saiu da fábrica ontem, e 100% de originalidade nunca me atraiu a ponto de tentar ter um placa preta na garagem. Queria apenas um carro confiável para uso no dia-a-dia e que aguentasse pequenas viagens com a certeza que posso ir e voltar sem dores de cabeça. E claro, com alguns toques personalizados, que para os mais detalhistas nunca passam despercebidos.

Para a apresentação deste Project Car escolhi separar as postagens por sistemas e não em ordem cronológica dos acontecimentos. Pois como deve acontecer com os outros PC também, um trabalho como esse sempre é cheio de idas e vindas… faz a parte elétrica, leva pra mecânica, revisa a parte elétrica! Pinta o cofre do motor, monta a mecânica, volta pra pintura! Tá em casa de bobeira entre um serviço e outro, esperando a vaga na oficina, aproveito e faço uma melhoria de acabamento… e assim foi no projeto todo.

 

A compra

Como comentei na inscrição do projeto, disse que sempre compro os meus carros usando mais o lado emotivo que o racional. Afinal hoje em dia com tantas opções e facilidades para se comprar um carro zero com toda a confiabilidade que a evolução tecnológica nos trouxe quem é que escolhe um carro importado com 20 anos de uso precisando refazer o carro quase todo? Sabendo que algumas peças seriam difíceis de achar e que não é qualquer profissional que consegue mexer num carro desses, só quem usa o lado emotivo e é apaixonado por essas coisas de ficar mexendo no carro mesmo! Assim fui eu quando comprei o Coupé, quando comprei o meu antigo Vectra GSI, quando comprei o meu Astra duas-portas, minha Kawasaki Ninja…

Acho engraçado como uma coisa vai levando a outra! No meu carro geralmente ando 70% do tempo sozinho e o resto do tempo no máximo com mais uma pessoa no carro. Por isso o fato do Astra ser duas-portas nunca foi algo que incomodasse. Se já era raro alguém andar no banco de trás… imagine eu andar no banco de trás! Mas um certo dia numa viagem, já estava com sono e entreguei a direção pra um amigo e fui lá pra trás. E lá tive uma surpresa: O revestimento do forro lateral se soltando! No primeiro momento fiquei até com vergonha e percebi o sinal do tempo mostrando que meu carro já não estava mais tão novinho assim.

Quando cheguei fui logo procurar um tapeceiro para consertar isto pra mim. E pra meu espanto o cara me cobrou um valor absurdo! Disse que não encontra o mesmo tecido, que teria que trocar dos bancos também, ficou procurando defeitos e desgastes no carro todo e que seria mais vantagem colocar logo couro no carro todo! Aí um simples reparo de forro lateral pula pra quase R$ 1.500.

Saí de lá chateado e pensando que realmente tava chegando a hora de trocar o Astronave! Na primeira loja que parei vi logo um 307 CC! Aí já é apelação! Esse com certeza seria meu se o dono da loja soubesse negociar de forma honesta com o cliente oferecendo um valor justo no meu. Depois de quase dois anos, vendi o Astra por quase o dobro do valor que o cara da loja me ofereceu na troca pelo Peugeot na época.

Saí de lá decidido a vender o Astra e voltar com a grana pra negociar, mas enquanto pesquisava na internet para saber quanto realmente estava valendo o meu, achei nos comentários de outro anúncio que tinha um Fiat Coupé vermelho numa loja. Fui lá mais na curiosidade do que realmente decidido a comprar. Quando cheguei lá, avistei ele no fundo da loja todo empoeirado. Pedi pra dar uma olhada, mas tinha tanto carro ao redor que não conseguia nem chegar perto. Marquei então pra eles botarem o carro pra frente que voltaria no sábado. E no dia marcado quando chego naquela ansiedade de ver o carro, ele simplesmente continuava do mesmo jeito.

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O vendedor me pediu desculpas e disse que sempre aparece gente lá que só quer olhar o carro por curiosidade… que não teve tempo… blá, blá, blá… e pra esperar que ele ia botar o carro pra frente agora mesmo. Depois de manobrar uns 15 carros e conseguir abrir a porta, quando giro a chave… não liga nada! Nem sequer uma luzinha de teto. Abrimos o capô e vimos que estava sem bateria. Ele providencia outra e eu já estava até desanimado, quando na primeira tentativa (com bateria) o carro funciona com um ronco alto (sem abafador) mas liso, segurando a lenta, sem fumar. Aí vem aquele diabinho do lado emotivo e diz: Compra logo! Depois desse tempão parado pega sem nem arrastar o motor arranque. E acertada a parte burocrática e financeira fiquei com o carro.

 

 

A primeira revisão

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Já tirei o carro da loja sabendo que teria um monte de serviços pra fazer, mas sabendo que o carro estava há bastante tempo parado, era necessário a troca imediata dos itens que considero revisão de compra num carro usado. Óleo, filtro, vela, correia e sistema de freio… Mesmo que o vendedor diga que foi tudo revisado, sempre é bom fazer e garantir que está ok. Sempre faço isso. Chegando em casa, foi só esperar o final de semana chegar pra começar a mexer! Ver o que eu mesmo conseguia resolver e fazer uma lista de itens que precisaria de uma visita na oficina.

Começando com uma lavagem reforçada, passei a dar uma atenção ao interior do carro. Tirei os bancos, o console, as forrações laterais, e o carpete. Arranquei o tecido fonoabsorvente que já estava cheio de mofo e é um dos principais causadores de mau cheiro no carro (aquele cheiro de carro velho).

Coloquei manta nova, lavei o carpete, aproveitei pra passar a fiação do sistema de som instalar alto-falantes novos, (falarei com mais detalhes do som no capitulo de acabamento e personalizações) hidratei o couro dos bancos e fixei umas peças que estavam soltas/mal encaixadas. Troquei algumas lâmpadas queimadas e montei o console, tomando o cuidado de colocar parafusos que estavam faltando e refazer alguns suportes que estavam quebrados. (pode parecer que não, mas essas peças mal fixadas são as fontes de muitos ruídos internos e que acabam irritando qualquer um que ande no carro).

 

A instalação elétrica

Quando peguei o carro, durante a minha lavagem reforçada, fui logo me preocupando em identificar o que simplesmente não estava funcionando: Pisca, buzina, limpador de para-brisa, retrovisores… e fui conversar com o eletricista. Mas aí começaram as surpresas. Digamos que uma metade não funcionava e a outra metade funcionava errado. Exemplo: As trilhas metálicas da placa de comando do A/C estavam quebradas e pra funcionar o ar, simplesmente fizeram uma ligação direta do ventilador no compressor. E o ar condicionado passou a ter somente dois modos: Ou calor infernal ou velocidade 4 no frio! Central de relés já não existia mais… Tudo ligado no compressor!

Preparei a lista de serviços a serem feitos e deixei o carro com o eletricista  e sem prazo de entrega! Com a certeza de que essa lista só iria aumentar à medida que fosse sendo feitos os serviços e descobrindo as novas aberrações. A parte elétrica foi toda feita pelo Ligeirinho, eletricista que conheci durante o conserto de uma batida que sofri no Astra.

Foram tantos serviços feitos no Coupé que ele já se tornou amigo também! Já sabia até o horário do cafezinho com pão daqui de casa e estrategicamente chegava nesse horário pra gente conversar sobre os serviços do carro. Numa dessas conversas descobri, que no primeiro serviço (o do Astra) ele simplesmente não foi com a minha  cara e ainda cobrou mais caro! Que era pra ver se eu procurava outra pessoa pra fazer o serviço… Mas que depois mudou de opinião! Hoje somos amigos e independente do Coupé, sempre estamos um ajudando ao outro.

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A essa altura já tinha achado na internet o manual de manutenções que era utilizado nas concessionárias para treinar os funcionários das oficinas. E nele tem praticamente tudo que se precisa de informações técnicas sobre o carro. Tudo separado por sistemas (mecânica, elétrica, hidráulica, suspensão, transmissão, acabamento interno, acessórios…) — o manual fala desde o torque dos parafusos até a cor de cada fio do chicote elétrico.

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Deixei os três volumes impressos com ele e me concentrei em procurar as peças que precisavam ser substituídas. Aí comecei a descobrir que a mecânica do Coupé não é tão igual à do Tempra. Acredito que o processo de tropicalização dos dois carros foi um pouco distinta. Peças que externamente são idênticas, na realidade são diferentes por dentro. E só tendo o esquema  de ligações em mãos para descobrir isso.

Após procurar sem sucesso nas lojas, e encontrar somente no mercado livre (usado! Sem garantia de que iria realmente funcionar), resolvi dar uma volta nos sucatões procurando restos de Tempra para ver o que conseguia aproveitar. Achei a central de relés do ar condicionado em aparente bom estado, com todos os cinco relés e um preço razoável… levei! Mas na hora de montar…

As ligações entre os relés eram completamente diferentes!! Foi preciso refazer todo o circuito elétrico dentro da central. Pode parecer estranho, mas desse jeito funcionou tudo do sistema de ar condicionado como deve ser em um original: o controle de velocidade, acionamento do compressor, recirculador de ar, controle de temperatura, controle dos difusores, acionamento da ventoinha do condensador… simplesmente tudo!

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E assim fomos trabalhando em cada sistema: a buzina só faltava um relé, os retrovisores foi só trocar os motores de acionamento, o pisca era só fio partido (sem continuidade)… apesar de serem coisas simples, até descobrir que era somente isso foi levando tempo e mais tempo. O alternador foi utilizado um do Bravo com pequena adaptação.

As vezes precisamos contar com a sorte também. Durante a revisão elétrica, identificamos o rolamento do alternador roncando. Decidi trocar logo, pois era apenas mais um componente que iria me dar trabalho lá na frente. Quando abrimos o alternador, já estava ruim o rolamento, a placa de diodos e a placa reguladora de voltagem! Ou seja, eu tinha somente a carcaça de um alternador! Fui com ele na mão para procurar um novo. Além dos preços serem bem altos, não achei nenhum que desse montagem.

Continuei procurando… comecei a apelar para os sucatões (aqui este tipo de loja geralmente é bastante desorganizado! Não sabem nem o que tem no estoque e não tem nenhuma preocupação em tratar de forma cordial os seus clientes). Geralmente eu pedia licença e ia pessoalmente ajudar a procurar a peça.

Nisso achei um alternador do Bravo jogado no chão e escrito “com defeito”. Peguei mais com a intenção de verificar a compatibilidade, mas com ele na mão, comecei a inspecionar  e vi que ele estava com um aspecto muito novo. Aí pensei: “Poxa, o meu tá todo detonado por isso não compensa trocar todas as peças que ficaria o preço de um novo… Mas e este?”

Acho impossível ele ter todos os mesmos defeitos do meu. No máximo um! Se o cara fizer um preço camarada, talvez compense! Expliquei pro vendedor e ele se mostrou resistente a fazer a venda.

Depois de eu insistir, ele disse que venderia, mas sem direito a troca! Todo o risco por minha própria conta! Se não desse certo… eu que arcasse com o prejuízo, pois ele tinha avisado que estava com defeito… que ele não gosta de vender produto pra dar problemas pro cliente… blá, blá, blá…

Peguei assim mesmo!! E quando fui testar… pra minha surpresa, funcionou perfeitamente! Sem nenhum defeito! Gerando a corrente na tensão certinha… E tudo isso por míseros R$ 90! Esse serviu como uma injeção de ânimo bem naqueles momentos em que a gente olha pro carro todo ainda por fazer e se pergunta: Pra que eu fui inventar de pegar um carro assim pra mexer tanto?

O mais trabalhoso mesmo foi a caixa de fusíveis que fica embaixo do painel. Ela é montada com quatro camadas de um plástico flexível com trilhas de cobre. Sendo soldadas nos pinos de conexão dos relés e fusíveis uma por cima da outra. E se soldasse errado dava curto circuito e deixava de funcionar algum sistema. (Esse serviço precisou ser refeito umas quatro vezes!)

E depois de uns três meses, consegui tirar o carro da elétrica! Serviços a serem feitos, ainda tem muitos… mas aí já é assunto pros próximos posts! Até lá!

Por Jaime Muniz, Project Cars #249

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