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Project Cars Project Cars #405

Project Cars #405: a história dos três Fiat Brava HGT 2.4 – e a restauração de um deles

Boa tarde, Flatouters! Vamos à continuação da história do 003, mas antes de tudo, vamos conhecer a história desses carros, os mitos, verdades e situações.

Primeiramente foram fabricados três carros com motor 2.4 20 válvulas cinco-cilindros (Fivetech): um branco que deu PT e dois cinza Steel. Não houve nenhuma versão com o motor turbo de fábrica.

A segunda coisa que sempre escutei desde que o carro foi colocado a venda aqui no FlatOut pela primeira vez: “Se eu pegar um Brava, um Fivetech e montar fica igual a esse”. Aí eu entro e falo com algum conhecimento de causa devido à montagem do Brava branco 2.4: você pode até conseguir um carro funcional, mas sempre vai ter um porém. Para montar o Brava branco eu comprei uma sucata completa de Marea justamente para ter tudo que precisasse pra fazer o carro ser original.

A parte mecânica é bem simples e não tem mudança alguma, então, de fato, é só colocar e fica igual. Porém a parte elétrica complica bastante as coisas, uma vez que Marea tem coisas diferentes do Brava, como por exemplo conectores de lanternas traseiras, se o Marea for sedan não tem limpador traseiro, se for Weekend tem, mas não tem os terminais da tampa do porta malas que fazem acender o break light. Enfim, sempre tem alguma coisa que terá que ser modificada, e isso implica em gerar problemas para o perfeito funcionamento do carro. Fora a trabalheira do cão de ter que desmontar o carro totalmente para troca completa do chicote interno. Portanto repito: é possível? É. Mas não é simples tampouco 100% funcional por várias razões.

Falam muito sobre swap não ser caro, mas independente do swap surgem centenas de detalhes, sejam abraçadeiras, parafusos, suportes, sensores e tudo isso faz o valor passar bastante do que se imagina para uma montagem dessa. Por isso o fato de ter sido feito pela Fiat ajuda bastante. Vejam a quantidade de chicotes e demais periféricos que precisam ser trocados.

Terceiro fato e bem importante de dizer é que esses carros não eram só três Bravas HGT com motor 2.4. Os carros saíram com uma série de diferenciais que muitos dos “entendidos” da história deles não sabem. Então vamos lá: esses carros nasceram como Brava 1.8 originais. Se pegarmos o histórico deles na fábrica como peguei o do 003, veremos que já houve um motor 1.8 cadastrado nele, portanto os carros saíram da linha de montagem como HGT normais e depois foi feito todo o processo de montagem dos carros com o 2.4 e as alterações necessárias.

Alguns outros detalhes interessantes a serem ressaltados: eles saiam com capô, pedaleiras, painel de instrumentos, rodas, freios a disco nas quatro rodas e suspensão de Marea turbo, além de terem ABS, retrovisor fotocrômico, alerta de limite de velocidade, lavadores de farol, air bag duplo + side bag, bancos elétricos, banco traseiro bi-partido, controle de som no volante, console central de Marea com saída de ar condicionado para o banco traseiro, emblema Bravo (com “o”) na traseira e, no caso do 002, teto solar de fábrica. E nesse ponto vem um outro alvo de intensas críticas ao 003, o teto solar Webasto.

Esse é um ponto um pouco conflitante até pra mim. Creio que a maioria saiba que a Webasto é a maior fornecedora de teto solar para as montadoras mundo afora, portanto é um produto de qualidade garantida, no entanto eu não gosto tanto do acabamento que o teto tem internamente, e nesse carro eu realmente queria fazer o mais original possível, mas o teto funciona extremamente bem, não tem infiltração nem faz barulho, então apesar de não me agradar tanto ele entrega bem o que propõe. Gostaria muito de por um teto original no lugar, mas a folha do teto do Marea e Brava são diferentes, no Brava ela é mais larga na parte final, e a Fiat não fornece mais a folha do Brava. Portanto de maneira geral só seria possível se eu achasse um Brava com teto original desmontado, o que é uma tarefa quase impossível.

Mecanicamente não há grandes diferenças entre ele e um Marea, exceto por algumas curiosidades.Primeira delas liguei um scanner no carro (agradecimento especial ao amigo Escondino do Clube do Marea) para verificar se havia algum tipo de erro gravado na central de injeção. Como era esperado não havia nenhum tipo de erro, tudo estava funcionando exatamente como deveria, porém o scanner trouxe uma informação interessante, mostrando que foi feita uma reprogramação na central de injeção no final dos anos 2000, portanto algo feito na fábrica pela própria Fiat. Ainda pretendo passar o carro em dinamômetro para ter uma noção de que tipo de ganho essa reprogramação trouxe ao carro.

Segunda curiosidade é que ele não usa câmbio de Marea 2.4 que é um câmbio mais longo, na viagem de MG pra Brasília pude perceber que o carro era mais ágil e que o câmbio era visivelmente mais curto do que o câmbio de um Marea 2.4,  com isso acabei descobrindo que ele usa um câmbio de Marea 2.0 que tem relações de fato mais curtas e deixam o carro com uma tocada extremamente mais arisca do que em um 2.4 normal, com essa configuração não há buracos de torque entre uma marcha e outra, o carro responde incrivelmente bem em qualquer situação, acho que o conjunto ficou muito bom no carro, ele não tem velocidade final como os 2.4, mas responde muito mais rápido as acelerações sem perder a sede por velocidades mais elevadas.

Por fim o tanque de combustível é ligeiramente maior que os tanque de Brava que originalmente é de 50 litros, já no 003 o tanque é de 65 litros proveniente das versões a diesel europeias segundo o part number dele, o que faz sentido uma vez que o tanque dos Mareas (Sedan ou Weekend) tem dimensões diferente e não servem no Brava.

Por se tratar de um carro que nasceu 1.8 e foi montado 2.4 dentro da fábrica, e mais ainda por não ser um carro com unidades suficientes para ser homologado como versão oficial, a documentação dele não tem lá tantas diferenças, pois ele é um Brava HGT “normal” no documento, apenas com o número do motor 2.4 cadastrado, além disso, apenas a nota fiscal e uma carta assinada e reconhecida em cartório pelo engenheiro responsável pelo projeto  o senhor F.S.AGUIAR, além claro das placas dos dois que são conhecidas pelos que acompanham a história dos carros.

Seguem as fotos dos diferenciais do carro:

Ultima questão muito criticada nesse carro que irei comentar: “Esse carro já bateu em Deus e todo mundo, deu PT, caiu no rio, é só a massa, todo detonado”. Pois bem, vamos lá de novo: fui pra Minas buscar ele sem muita preocupação sobre o real estado dele, sempre ouvi todos esses comentários, que o carro não era bom e tudo mais, bem eu o compraria de qualquer forma, então não dei muita bola pra isso ainda mais com a emoção do momento.

 

Mas após chegar a Brasília, com calma paciência e cuidado pude perceber que não é tudo isso, o carro foi sim maltratado e sofreu uma batida mais forte em BH por volta de 2007, essa era uma coisa que me preocupava, porém estruturalmente as longarinas do carro estão em perfeito estado, somente o para-lama do lado do passageiro que realmente tem massa e será trocado em uma futura lanternagem, mas os maiores problemas dele são acabamentos e detalhes que são facilmente substituíveis, portanto no final das contas ele me surpreendeu bastante também nesse quesito e fico muito feliz em dizer que o carro não é o carro ruim que dizem, e podem ter certeza que o farei ficar ainda melhor.

Dito isso vamos a outra parte da história, inclusive com uma parte bem curiosa, certo dia eu estava a convite a Fiat em um teste de um Bravo T-Jet que estava sendo feito aqui no autódromo de Brasília, e fui para esse teste com o Brava branco 2.4, lá chegando parei no box ao lado de onde estavam os mecânicos da Fiat que estavam mexendo no Bravo, e então um deles se aproxima de mim e pergunta se meu carro era cinco cilindros. Prontamente respondi que sim, era um 2.4 e eu mesmo havia feito, então esse senhor me fala que ele participou da montagem dos três Bravas feitos pela Fiat.

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Como na época eu já conhecia a história, conversamos por muito tempo sobre toda a montagem dos carros e inclusive sobre o triste fim da primeira unidade que era branca, o carro estava sendo utilizado por um dos engenheiros responsáveis e não tinha sequer finalizado a montagem, estava com o interior todo desmontado e capotou devido a uma falha mecânica que fez uma das rodas travar. Outro fato bem curioso é esses carros são 2000 porém só chegaram nas mãos dos primeiros proprietários fora da Fiat em 2002 onde começaram a ser testados por Roberto Nasser, que foi o primeiro proprietário do 002 e por Boris Feldman que foi o primeiro proprietário do 003, vários ajustes ainda foram feitos após essa data pela própria Fiat.

Bom creio que com todo esse relato consegui resumir bem sobre a história e características dos carros, então vamos de volta ao 003. Mudanças, planos e intenções, como já comentei aqui, não planejo nada tão audacioso para o carro, apenas trazer ele ao máximo possível de volta ao seu estado original. Otempo não tem me permitido fazer tanta coisa nele, nem tampouco andar muito no carro mas algumas mudanças já foram feitas, dando os primeiros passos para voltar ele a originalidade.

Vamos por partes, algumas coisas me incomodaram desde o começo e são todas pequenas portanto foi possível fazer as mudanças de forma rápida. Primeira coisa feita foi tirar as rodas 17, elas me agradavam bastante, caíram muito bem no carro mas a intenção é tirar do documento as alterações que o carro tem e fazer com que ele seja o mais original possível, então voltaram as rodas aro 15 originais de Marea turbo, removi o engate e os emblemas Abarth e 2.4 20V da tampa traseira, tirei o forro interno do capô que estava todo solto e rasgado e geralmente tampa a admissão de ar do motor que fica bem na grade.

Um forro novo já está sendo providenciado na Fiat, coloquei as calhas internas do capô que ele não tinha, foi feita também a troca completa do fluido de freio, que tinha criado uma gosma dentro do reservatório fazendo com que o carro ficasse com a frenagem muito comprometida. Nesse meio tempo troquei a moldura do painel de instrumentos que estava quebrada, solta e com a parte das indicações de regulagens de altura e iluminação totalmente apagados.

Também foram trocados os repetidores de seta que eram alaranjados e entraram os brancos que são os que saíram originais nele. Comprei um para-choque traseiro para poder remover totalmente a câmera de ré e o sensor de estacionamento do carro. Consegui com meu amigo Cleiton os lavadores de farol que são bem raros e eu faço questão de fazer ele voltar a ter.

Com as peças na mão me restava pintar elas para poder instalar, nesse momento num dos incríveis bate papo com o Alexandre Garcia, da Garagem Alfa Romeo, ele falou pra eu levar as peças que ele da um jeito de pintar pra mim, dito e feito, em uma semana já estava tudo pintado (AG tu é foda meu velho, obrigado mesmo) e pronto pra instalar. Nesse ponto fica meu agradecimento sem tamanho também ao amigo Cleiton, que tá sempre presente e fez tudo comigo nesse meio tempo.

Por fim removi também dois tweeters que foram colados em cima do painel ao invés de trocar os twiters originais, que estão ligados e funcionando perfeitamente, removi também o sensor de estacionamento por completo do carro, tudo arrematado pela instalação do parachoque traseiro.

Com os lavadores de farol na mão também removemos o parachoque dianteiro, pequei um para-choque velho que eu tinha guardado e tinha os furos originais dos lavadores, usei como base e pronto, lavadores instalados no carro e funcionando. Como o carro já teve lavadores de farol originais, o sistema em si estava todo instalado, foi preciso apenas fazer as mangueiras e botar pra funcionar.

Aproveitando a remoção do parachoque removemos o xenônio que estava instalado nos faróis de neblina, uma das instalações mais porcas que já vi na vida. Cortaram o chicote das milhas originais pra fazer a ligação do xenônio, usaram fio rígido de parede e isolaram com fita crepe. Pois bem, tudo foi retirado, providenciei um chicote original de milha, coloquei no lugar pronto. Trocamos também um dos faróis de neblina que estava com lente quebrada, e já que estávamos nessa de mexer em iluminação e chicote, removemos todos os leds do carro, que estavam presentes da luz de placa a iluminação do parta luvas, agora está tudo de volta com a iluminação original.

Nesse meio tempo o Cleiton se dedicou a remover fio, central de alarme e demais componentes que não eram parte do chicote original do carro, nas fotos abaixo vocês irão ver a quantidade de fios e demais coisas que foram retiradas. Havia muito resquício de instalação de som deixado no carro, tinha fio positivo desencapado solto por trás do painel, e a cada minuto eu ouvia o Cleiton falar  “esse carro não pegou fogo porque não era hora”.

Conforme prevíamos, a central do alarme só servia mesmo pra fazer os vidros subirem, porque após a remoção de todo o sistema de alarme os vidros continuaram funcionando normalmente, bem como as funções originais deles de um toque nos quatro vidros e sistema de descompressão ao abrir as portas. Junto com essa remoção sairam também os chicotes de ligação do engate e da câmera de ré, foi um trabalho do cão, mas agora fica um sossego sem tamanho de saber que todas aquelas gambiarras foram desfeitas.

Para finalizar os trabalhos desse post, comprei um reservatório de expansão do radiador novo, e líquido para o arrefecimento. Após uma limpeza do sistema troquei o reservatório, coloquei o aditivo e tudo ficou em perfeita ordem, seguem as fotos de tudo que foi feito no carro, tanto o que foi colocado quanto o que foi removido. Vejam a quantidade de fio removido, a sujeira saindo da sangria do radiador e mais detalhes sobre a instalação das peças.

O teto solar é um caso a parte, pois como já falei o acabamento interno dele não me agrada. Porém achar uma folha de teto original de Brava é uma tarefa quase impossível, então por hora não está nos meus planos remover ele, apesar de me incomodar o fato de não ser original ele funciona, não dá dor de cabeça e é um acessório muito legal de se ter, fato que jamais encerrarei as buscas por um original e quando achar será trocado.

Mas antes disso muita coisa irá acontecer:instalar o acionamento interno da tampa do tanque de combustível que também tenho guardado, repintar a grade frontal que foi pintada porcamente de cinza na tentativa de imitar a original do HGT (porém ele saiu com grade de Marea 2.4) arrumar o couro dos bancos dianteiros que estão bem ruins trocar os tapetes internos do carro que não me agradam nenhum pouco e fazer uma boa revisão mecânica para deixar ele 100%, mas isso é coisa para uma próxima publicação.

Enquanto isso ficam algumas fotos tiradas pelo amigo Thiago Carvalho que é fotógrafo e me presenteou com essa seção de fotos maravilhosas do carro. Caso queiram ver mais trabalhos dele basta segui-lo no instagram  thiagoqcarvalho ou no facebook thiagocarvalhophotography​.

Nos vemos no próximo post, pessoal!

Por Gustavo Veras, Project Cars #405

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