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FlatOut Classics & Street

Ricardo e seu Alfa Romeo 145 Quadrifoglio | FlatOut Classics


O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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De volta às raízes

Se você quer que seu filho desenvolva o gosto por carros, coloque ele no banco do passageiro e leve-o para dar uma volta. Faça com que algumas das melhores lembranças da infância dele sejam, de alguma forma, relacionadas aos carros. Surpreenda-o com um carro novo. Compartilhe com ele o sonho de comprar um determinado carro. Tudo acontecerá de forma natural. Foi assim comigo e foi assim com Ricardo Stachevksi, proprietário deste Alfa Romeo 145 Quadrifoglio 1997 Rosso Alfa.

Nem poderia ser diferente: quando criança, a garagem de casa sempre tinha novidades de todos os tipos. Dos (um tanto impopulares) modelos coreanos da época a clássicos nacionais, dos importados dos anos 1990 a modelos mais convencionais. Saindo da garagem e entrando em casa, a relação com os carros continuava na telinha: Gran Turismo 2 e filmes sobre rodas, uma dupla que influenciou toda uma geração de entusiastas.

Um dos momentos que marcaram o pequeno Ricardo foi uma noite de 2005, em que seu pai voltou para casa com um hatchback vermelho, apesar de ter saído pela manhã com uma picape S-10. Era um carro diferente de tudo o que Ricardo havia visto até então. Diferente no visual, diferente no ronco, diferente no logotipo, no interior, nas laterais, por todos os lados. Diferente, mas fascinante. Que carro era aquele, afinal?

Era um Alfa Romeo 145 Elegant 2.0  1996. “Alguns classificariam minha reação como amor à primeira vista. Foi um divisor de águas na minha vida”, explica. Ricardo conta que, com a ingenuidade de todo menino de dez anos, pediu ao seu pai que jamais vendesse aquele carro. A promessa durou um ano, mas deixou o vírus italiano no garoto. Ao completar 18 anos, Ricardo ganhou um Apollo GL, mas logo o trocou por um Alfa Romeo 145. Nada mau começar a vida sobre rodas. A menos que ele fosse…

 

O Alfa Romeo errado

Aos 19 anos, depois de rodar um ano com seu Apollo GL, Ricardo foi atrás de seu carro dos sonhos e o encontrou em Foz do Iguaçu/PR. Era um 145 Elegant 2.0 Nero Luxor 1996. Foi um sonho breve: durante o inesquecível massacre alemão sobre a seleção brasileira, já desiludido com a partida, Ricardo decidiu aproveitar as ruas curitibanas esvaziadas. Durante o passeio o Twin Spark, talvez desolado pela eliminação italiana, não aguentou a pressão daquela terça-feira e disse adeus ao seu proprietário brasileiro. A alegria durou três meses.

A inexperiência na hora da compra desviou da atenção de Ricardo algumas adaptações no sistema de arrefecimento que denunciavam um problema de superaquecimento anterior. Combinado a limalhas metálicas no cárter e uma bomba de óleo defeituosa, resultaram no fim do motor italiano. Com um orçamento equivalente a 150% do valor do carro, Ricardo decidiu fazer as coisas do jeito certo.

 

La Quadrifoglio

Em 1993 o Alfa Romeo 33 completava dez anos de mercado. Embora hoje tenha seu charme oitentista, na época ele era um carro claramente ultrapassado quando comparado a rivais como o Volkswagen Golf e o Ford Escort, e com os próprios primos corporativos, o Fiat Tipo e o Lancia Delta de segunda geração. Um novo carro precisava ser feito — e logo.

O novo carro apareceu somente em 1994, quando todos os outros hatches médios do mercado já haviam sido atualizados, mas a demora foi justificada. O carro era ousado e, ao mesmo tempo, sedutor. Não havia versão quatro-portas — ela só viria em 1994 na forma de um “notchback” batizado 146. Ele era um hatchback com a traseira quase reta, vincos marcantes e cheios de personalidade nas laterais, uma curva elegante na linha de cintura ao se aproximar dos retrovisores dianteiros, e uma frente incisiva, como seu coração espetado sobre o para-choques dianteiro. As colunas C e D (sim, o hatchback tinha coluna D) eram escurecidas, reforçando a modernidade e sofisticação das superfícies da carroceria. Poucos hatches tiveram tanta personalidade quanto o Alfa 145 — antes e depois dele.

E por falar em personalidade, em vez de um motor de quatro cilindros em linha, como qualquer carro do segmento na época, ele tinha um boxer refrigerado a água. Dois cilindros de um lado, dois do outro. Um cabeçote pra lá e outro pra cá, com uma semi-aracnídea admissão por cima de tudo. Os motores tinham 1,35 litro e 90 cv na versão de entrada, 1,6 litro e 103 cv na versão intermediária, e um interessantíssimo 1.7 16v de 129 cv na versão de topo.

A aguardada versão Quadrifoglio deu as caras somente em outubro de 1995, estreando o primeiro dos novos motores quatro-em-linha Twin Spark, com duas velas e quatro válvulas por cilindro. Era um 2.0 16v de  150 cv para pouco mais de 1.200 kg — uma boa relação de 8 kg/cv que fazia jus ao legado do trevo-de-quatro-folhas e o permitia acelerar de zero a 100 km/h na casa dos 8,5 segundos.

O 145 Quadrifoglio desembarcou no Brasil no início de 1996 com quatro pacotes opcionais que se diferenciavam apenas pela quantidade de airbags (sem airbags, airbag simples ou duplo), pelo teto solar e pelos bancos dianteiros básicos, Recaro ou Momo. Todos vieram com ABS, faróis de neblina, rodas de liga leve, ar-condicionado, freios a disco nas quatro rodas e, claro, vidros e travas elétricas. O carro de Ricardo é um dos básicos, porém com alguns upgrades que veremos a seguir — e que o tornam especial.

 

O Alfa Romeo certo

Cicatrizado das feridas do primeiro 145, Ricardo soube que um amigo alfista colocara alguns de seus carros a venda. Entre eles, um 145 Quadrifoglio Verde Rosso Alfa em ótimo estado, com histórico de manutenção e tudo o que se deve levar em consideração na hora de escolher um Alfa Romeo antigo. Era um carro três vezes mais caro que o primeiro, mas que não iria surpreendê-lo como fizera o time alemão na Copa do Mundo.

O carro tinha poucas coisas a serem acertadas. Entre elas, os bancos Recaro, que não eram parte do pacote original do carro, estavam revestidos com um tecido diferente do padrão original. Bastou encontrar um jogo de bancos usados para substituir aqueles modificados. A caixa de fusíveis também não estava nos melhores dias, mas suportou até 2017, quando foi trocada. Desde então, tudo o que Ricardo precisou fazer foi a manutenção rotineira. Era mesmo o Alfa Romeo certo. Tão certo, que inspirou alguns aperfeiçoamentos.

Ocasionalmente, ele encontrou uma revenda de peças Alfa Romeo na Europa que tinha alguns acessórios originais novos, de estoque antigo. Foi quando encontrou o suporte de guarda-chuvas para as portas e, pasmem, o rádio toca-fitas original, que nunca foi oferecido no Brasil.

A melhor parte, contudo, veio em 2018, quando um amigo em viagem pela Inglaterra, decidiu visitar a Autodelta e se ofereceu para trazer alguns componentes para Ricardo. Foi como o 145 QV recebeu um chip de potência EN127 e um filtro de ar EN254 para o Twin Spark.

O conjunto promete um ganho de 8 a 10 cv e o limite de rotações elevado de 7.000 rpm para 7.500 rpm (o que significa que o 145 agora tem cerca de 160 cv). “Na prática se observa mais uma melhor entrega de torque em baixas rotações, o que deixou o carro mais interessante em uso urbano”, explica Ricardo.

 

Coração esportivo

Desde então, Ricardo manteve o carro como se vê nas fotos, com uso regular que inclui viagens anuais de 1.500 km percorridos nas idas e vindas de Curitiba até o Alfa Romeo Brasil em Caxambu/MG. O envolvimento com a marca entusiasmou Ricardo de forma que, em 2015, ele iniciou um levantamento nacional do Alfa Romeo 145, visando registrar o máximo de informações sobre os 1.713 exemplares do modelo importados oficialmente para o Brasil entre 1996 e 1999. Até o momento já foram registradas 662 unidades — quase 40% do total importado, um número expressivo considerando que nem todos os exemplares foram preservados.

A união dos fãs da marca também levou Ricardo além das fronteiras do Brasil. Graças aos amigos da Europa, ele pôde conhecer pessoalmente o chefe de projeto do 146, o signore Carlo Fugazza, na sede da Zagato (onde, de quebra, conheceu o próprio Andrea Zagato) além de outros dois engenheiros e designers que trabalharam no projeto Tipo 930 (código interno do 145 e do 146): Zbigniew Maurer e Mario Favilla, que  prepararam uma aula exclusiva no Centro Politecnico de Milão só para explicar sobre a história de desenvolvimento da 145 e fatos sobre a então recente união da Fiat com a Alfa Romeo.

Carlo Fugazza e Andrea Zagato, aulas no Centro Politecnico de Milão. Um dos melhores hot hatches da história na garagem de casa. Isso, prezados FlatOuters, é o que acontece quando se ensina as crianças a gostarem de carros. Lembre-se disso na próxima vez que seu filho pedir para passear.

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