FlatOut!
Image default
FlatOut Classics & Street

Sergio e seus dois SP2| FlatOut Classics

O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
Clique aqui para acessar o índice com todas as matérias do quadro.

OK, é estranho a VW ter em sua linha em T-Cross e um Nivus, aparentemente concorrendo entre si, e isso sem falar na inevitável canibalização que ambos provocam nas vendas do Polo e do Virtus. Mas é inevitável: uma vez que se descobre que as pessoas estão dispostas a pagar mais por carros que custam o mesmo (ou menos) que suas ofertas “normais” para produzir, cifrões aparecem nos olhos dos chefes, e todo mundo começa correr de um lado para o outro esbaforido, até que este mercado fique saturado e acabe. É só o natural, o normal, desde tempos imemoriais.

Acha que não? Pense no ano de 1973; a VW, usando o chassi-plataforma de motor refrigerado a ar derivada do fusca, tinha nada menos que três carros esporte em sua linha: o Karmann-Ghia, o Karmann-Ghia TC, e o VW SP2. Se contarmos o natimorto SP1, eram quatro. Tudo bem: o Karmann-Ghia original estava no fim de seus dias, mas mesmo assim, dois SUV na mesma plataforma já não parecem tão estranhos, né?

O SP2 nasce da mente de uma pessoa: Rudolf Leiding. Sua importância estaria assegurada na história do automóvel mesmo antes de chegar no Brasil: foi o chefe da Audi durante o desenvolvimento do Audi 100 original de 1968; o importantíssimo carro que é o protótipo de todo Audi como conhecemos. Aqui no Brasil não ficou muito tempo; de 1968 até 1971. Voltou para assumir a liderança da empresa mundialmente; foi ele que cancelou o projeto AE266 da Porsche, um carro de motor refrigerado a água central-traseiro para substituir o Fusca, em favor do Golf: além de definir o futuro da Audi, definiu também o futuro de toda VW.

Como não poderia deixar de ser, deixou sua marca aqui no Brasil também. O SP é certamente uma delas. Ao ver as boas vendas dos Puma e outros usando a mecânica da VW, Leiding pensou que podia fazer melhor. Um carro profissional e com a qualidade que só pode vir de um grande conglomerado e seu batalhão de engenheiros e técnicos; um carro esporte não só baseado no VW, mas projetado e construído pela VW. Um Puma feito corretamente, deve ter dito, com a infalível lógica e empáfia técnica alemã.

As divisões brasileiras dos fabricantes aqui instalados eram muito mais independentes então. Leiding, com o apoio e entusiasmo de sua esposa, resolve iniciar o projeto. Forma um time e cria o projeto com o nome de “X”, sigla de algo experimental e não lá muito oficial desde tempos imemoriais. O grupo era liderado pelo engenheiro Schiemann, e o desenho do carro ficou a cargo do prolífico desenhista da Brasília, o grande Marcio Piancasteli.

Na feira da indústria alemã em São Paulo, em março de 1971, era apresentado um protótipo do carro. Era um cupê de dois lugares (como o Puma, e não 2+2 como os Karmann-Ghia) com a frente longa, e cabine recuada; proporções belíssimas e desenho altamente contemporâneo, moderno e original. Eram proporções de carro de motor dianteiro, mas alcançaram o objetivo: todo mundo achou aquilo lindo.

Ajudava bastante o interior: um desenho avançado de painel plástico envolvente (aqui, PU expandido), com vários instrumentos e voltado ao motorista, e bancos altos reclináveis e individuais. O volante Walrod com fundo baixo, parecido com os usados no Ford Maverick GT, também chamava atenção.

O carro tinha a plataforma da Variant, o que significava o motor de ventoinha baixa para grande espaço de carga atrás, e 1600cm3 com dupla carburação. O nome seria SP; talvez São Paulo, talvez Special Project ou Sport Prototype, nunca soubemos a verdade. Mas o brasileiro sendo o que é, logo descobriu a grande desvantagem deste carro em relação aos Puma, e não perdoou: por décadas era conhecido como o “Sem Potência”.

Tudo por alguns motivos claros: pesava ao redor dos 900kg, enquanto o Puma ficava na casa dos 700. E enquanto todo Puma tinha alguma pimenta ou modificação para fazer seu motor bravo, ou pelo menos com respostas mais entusiasmantes ao dirigir, o SP tinha escapamento de Variant e desempenho de Variant. Ninguém reclamou na época, mas dirigir um hoje mostra outro problema no uso esportivo: a distribuição de peso é fortemente traseira com os ocupantes lá atrás.

Foi por isso que o SP1, com motor 1600 inalterado, foi quase que imediatamente descontinuado depois de 88 unidades produzidas. Sobrou o SP2, com o diâmetro de pistão aumentado para 88mm (de 85,5mm no 1600) para que com curso de 69mm desse um total de 1678cm3. Usando a mesma taxa de 7,5:1, a VW declarava mais 10cv que o 1600: eram agora 75cv SAE brutos, o que seria algo em torno de 65cv atuais. Era mais rápido que os VW normais, mas ainda assim, longe de ter um desempenho estonteante. Mas eventualmente chegava a mais de 160 km/h, o que não era pouco.

Sua fama de lento porém, foi seu problema, além do preço alto. Acaba por sair de linha em 1976, com pouco mais de dez mil unidades fabricadas. Mas de qualquer forma, essa fama e raridade não explicavam o que era este carro nos anos 1970. Ao ver qualquer um chegar em algo tão baixo, e com um painel de instrumentos tão exótico, era realmente especial. Ver um SP2 ao vivo é entendê-lo, até hoje. Não só bonito, é um carro com uma presença, e uma óbvia aura exótica, que impressionam até hoje.

Quase imediatamente depois de ser descontinuado, começou a ser procurado por colecionadores e entusiastas, obviamente cientes de que um carro especial, único no mundo, sempre terá valor. Hoje é reconhecido internacionalmente até; um carro de valor, desejado e cultuado pelos amantes da VW mundo afora. Exemplares continuam a ser exportados e a acabarem em museus dedicados à marca. Um reconhecimento tardio, mas reconhecimento de qualquer forma. Melhor que nada!

 

Sergio e seus SP2

Nos anos 1970, Sergio Campos era uma criança que ia a pé para a escola. Era apaixonado por carros, mas mais que isso: era apaixonado por design, e as incríveis criações italianas de Giugiaro e Gandini o maravilhavam nas revistas especializadas. No caminho para escola, passava por bancas de jornal; naquela época os jornaleiros colocavam as novas edições à mostra fora da banca, as vezes abertas nas principais reportagens.

Sergio lembra de ver em uma dessas bancas o lançamento do SP, provavelmente uma reportagem em 1971 sobre a feira onde o protótipo apareceu pela primeira vez. Ficou completamente pasmo com ele, como só a paixão jovem consegue ser. Assim que pudesse teria um, decidiu ali mesmo em frente a banca de jornais em 1971.

Muito tempo passaria até esse sonho se tornar realidade, mas aconteceu. Na década de 1980, Sergio consegue folga financeira suficiente para comprar carros que não fossem de uso: o primeiro deles é um SP2, logicamente. Na época nem era antigo; era apenas um carro já velhinho, mas de óbvio interesse especial, desejável, e certamente colecionável. Acaba por ter uma série deles, durante os anos, nunca mais ficando sem um, praticamente. Mas os que considera realmente especiais são os que tem hoje, e são objetos do ensaio desta reportagem.

O primeiro é o carro na cor “Violeta Pop”, ano 1974. Sergio sempre admirou esta rara cor, que simbolizava tão bem o fim dos anos 1960 e o início dos 1970, época de muita cor, motivos psicodélicos, e viagens psicodélicas também. É um tom metálico que além de bonito até hoje traz mais da época do SP2 e sua mística especial. Já conhecia o carro de fotos e fama: era um carro de Curitiba que estava no Nordeste. Foi de dois professores universitários, e um deles, ao ser transferido para o Recife, foi com o carro até lá dirigindo. Lá, foi restaurado nos anos 1990. Obviamente a cor exigiu estudo: conseguiram o tom correto com o fornecedor original, a Glasurit. Quando o carro foi posto a venda em 2019, Sergio imediatamente o arrematou e trouxe a São Paulo.

Para Sergio é um prazer: um SP2 numa rara, belíssima e interessante cor original de fábrica. Como é um colecionador que gosta mesmo é de usar os seus carros, o SP2 Violeta é visão normal em São Paulo, sempre levando alegria e um pouco de sua época para a cidade hoje tão cinza. Quase uma máquina do tempo ambulante.

Neste carros estão um item raríssimo: as rodas de liga do protótipo de 1971! Elas infelizmente não entraram em produção, mas o Sergio conseguiu um jogo Italmagnésio delas para o SP2 Violeta.

O outro carro é um SP2 1975, na cor verde-água metálica. Um carro que ele namorava à bastante tempo já. Acaba por achar um interesse em comum: um fusca “oval-window” de 1954 que era conhecido da cena paulista, que era do Sergio, mas era cobiçado pelo dono do SP2 verde. Muita conversa e negociação depois, os dois estavam com carros novos.

É um sobrevivente de época, nunca restaurado. Seu hodômetro marcava 22 mil km originais (hoje 24 mil). Além disso, é um carro que, por causa de seus acessórios originais, é único. É um carro vendido pela famosa concessionária Dacon de São Paulo, famosa por ser concessionária Porsche também, e modificar carros da VW, além de depois, virar uma marca de carros especiais. A pintura deste SP2 por exemplo, foi feita na Dacon e é exclusiva. Os vidros também são Ray-Ban, instalados na Dacon. Além disso, mais dois acessórios de época: um teto solar Slideway instalado também na Dacon, e rodas de liga da Italmagnésio que o Sergio conseguiu para ele. Um carro belíssimo sem dúvida.

Uma dupla de SP2 realmente especial e diferente, que foge do padrão, mas que estão perfeitamente localizados em seu tempo e lugar. Carros que eram futuristas então, mas hoje são nostálgicos; uma pequena amostra de um tempo que não volta mais. Hoje parecem ainda mais exóticos e raros que na época que eram novos, um carro que certamente vale muito mais do que foi imaginado em sua criação. E cores! Trazem para os dias de hoje, tão cinza, preto e branco, um mundo muito mais colorido, alegre e menos sério. Onde ninguém tinha medo de uma certa pitada de loucura psicodélica, em todos os sentidos possíveis. Saudade!