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Automobilismo História

Silverstone 1950: como foi a primeira corrida do Mundial de Fórmula 1?

No próximo domingo (14), a Fórmula 1 irá realizar o milésimo Grande Prêmio de sua história em um lugar pouco tradicional. Um lugar onde os primeiros pilotos da categoria jamais imaginariam correr um dia: a China.

A celebração de um marco histórico para a F1 em um país com praticamente nenhuma tradição na categoria é emblemática e reforça o quanto a Fórmula 1 mudou em suas 70 temporadas — e fica mais evidente se voltarmos até o dia 13 de maio de 1950, quando foi realizado o primeiro GP da Fórmula 1 em Silverstone.

Aliás, o dia 13 de maio de 1950 foi um sábado, e não um domingo — as diferenças começam logo no dia da realização da prova, que foi batizada oficialmente como The Royal Automobile Club Grand Prix d’Europe Incorporating The British Grand Prix, o que levou a corrida a ser chamada por dois nomes: Grand Prix d’Europe e British Grand Prix, seu nome atual.

A média de idade dos pilotos também era significativamente diferente. No primeiro GP a média de idade era 39 anos. O mais novo era o britânico Geoffrey Crossley, de 29 anos, e os mais velhos eram Luigi Fagioli, com 51 anos; Louis Chiron, com 50 anos, e Philippe Etancelin, com 53 anos. No milésimo GP a média de idade será 26 anos — a menor desde 1950. O mais novo do grid é Lando Norris, de 19 anos, enquanto o mais velho é Kimi Raikkonen, de 39 anos.

A variedade de nacionalidades de pilotos também é algo notável nos últimos anos. Na primeira corrida da F1, dos 26 pilotos que disputaram o GP, dez eram britânicos, quatro eram franceses, três eram italianos, um argentino, um suíço, um belga, um monegasco e um tailandês.

Atualmente, dos 20 pilotos que irão disputar o GP da China, também teremos um tailandês, um monegasco, um franco-suíço, três britânicos, dois alemães, um espanhol, um mexicano, um italiano, um australiano, um dinamarquês, um canadense, um holandês, um russo, um polonês, um francês e dois finlandeses.

O regulamento era absurdamente simples: não havia limite de peso, não havia requisitos de segurança de layout mecânico ou equipamento pessoal. Nem mesmo capacetes eram exigidos, embora a maioria dos pilotos já usasse algum tipo de proteção na cabeça. Você só precisava ter um carro monoposto com motor aspirado de até 4.500 cm³ ou sobrealimentado de até 1.500 cm³. A maioria usava optou pelo supercharger. Pensando bem, “maioria” é modo de dizer: somente seis modelos de cinco fabricantes foram inscritos pelos competidores. E ao contrário do que muitos podem imaginar, a Ferrari não estava presente.

Os fabricantes eram Alfa Romeo, Alta, ERA, Maserati e Talbot-Lago, mas apenas a Alfa Romeo, a Maserati e a Talbot-Darracq tinham equipes de fábrica. O restante eram equipes ou pilotos independentes.

Alfa e Talbot eram as grandes potências, com quatro carros cada. Os italianos tinham o 158 (acima), equipado com um oito-em-linha de 1,5 litro com supercharger. Os franceses levaram o T26C, que era equipado com um seis-em-linha de 4,5 litros. Havia ainda um quinto Talbot, inscrito pelo trompetista belga de jazz Johnny Claes. E pensar que hoje há uma discussão interminável sobre a superlicença…

A Maserati levou oficialmente apenas um carro, que foi pilotado por Louis Chiron, mas seu 4CL com motor 1.5 supercharged foi o modelo predominante naquele sábado, com nada menos que sete exemplares — além do modelo da equipe de fábrica, a Scuderia Ambrosiana levou dois exemplares, a Scuderia Enrico Platé levou mais dois, a Scuderia Milano levou um, e o piloto britânico Joe Fry inscreveu o sétimo.

Os ERA e os Alta foram usados por pilotos independentes. O ERA foi usado em duas versões: D Type e E Type, ambos equipados com motor 1.5 supercharged de seis cilindros em linha. Os Alta eram iguais: modelo GP, equipado com motor 1.5 supercharged de quatro cilindros em linha.

Dos 26 inscritos, somente 21 se classificaram para a prova de 70 voltas ao redor de Silverstone. O traçado, aliás, foi um pouco diferente do tradicional, usado entre 1952 e 2011, que tinha a largada logo antes da Copse. No traçado de 1950, a extensão total era de 4.649 metros, e a largada acontecia na reta anterior, a Bridge, tendo como primeira curva a Woodcote. A sequência era Copse, Maggots, Becketts, Chapel, Stowe, Club e Abbey.

Neste ano, o GP da Grã-Bretanha será realizado com o mesmo layout usado desde 2011, com 18 curvas e 5.891 metros. A largada é logo após a Club, passando pela Abbey, Farm, Village, Loop, Aintree, Wellington, Brooklands, Luffield, Woodcote, Copse, Maggots, Becketts, Chapel, reta do Hangar, Stowe, Vale e Club.

 

A corrida

Depois dos treinos de qualificação, cinco pilotos ficaram fora da prova e 21 alinharam em linhas de quatro carros alternadas com linhas de três carros. Os favoritos eram Juan Manuel Fangio, Giuseppe Farina e Luigi Fagioli (ou FaFaFa), todos da Alfa Romeo, que tinha também o piloto britânico Reg Parnell no quarto carro.

Farina ficou com a pole position e largou ao lado dos outros três Alfa na primeira fila. A segunda fila tinha o Príncipe B. Bira da Tailândia em seu Maserati da Scuderia Enrico Platé ao lado de dois Talbot da equipe de fábrica, um com Yves-Giraud Cabantous, outro com Eugène Martin. Na terceira fila ficaram o suíço Toulo de Graffenried com um Maserati, o francês Louis Rosier com um Talbot, Peter Walker com um ERA e Louis Chiron com o Maserati da fábrica.

Na quarta fila estavam os britânicos Leslie Johnson e Bob Gerard com seus respectivos ERA, ao lado do francês Philippe Étancelin com o último Talbot lago da equipe de fábrica. Na quinta fileira largaram os britânicos Cuth Harrison (ERA), David Hampshire (Maserati), Geoffrey Crossley (Alta) e David Murray (Maserati). Fechando o grid estavam o irlandês Joe Kelly com seu Alta, o britânico Joe Fry com um Maserati e o jazzista Johnny Claes com seu Talbot.

George VI, Fangio, Farina e Fagioli

Foi com esse arranjo que, diante de 200.000 pessoas, da família real e seus convidados de honra que a Fórmula 1 largou pela primeira vez.

O “camarote” real…
… e parte da multidão que foi conhecer “a tal F1”

Logo no início da prova Farina assumiu a ponta e foi seguido por Fagioli e Fangio. Fagioli chegou a assumir a liderança na volta 10, mas Farina a recuperou na volta 16 para ficar na frente até a volta 38, quando Fangio o ultrapassou e assumiu a liderança.

Durou pouco: Fangio abandonou a prova com uma mangueira de óleo estourada, devolvendo a posição a Farina, que se manteve em primeiro até receber a bandeira quadriculada 2,5 segundos anates de Fagioli. Na terceira posição ficou Reg Parnell, que não teve chances de alcancá-los por ter atropelado uma lebre. Sim, a fauna de Silverstone não se importava muito com os carros em seu território.

Dos 21 que largaram, 11 terminaram a prova. Fagioli e Parnell foram os únicos na mesma volta do líder. O quarto colocado foi Giraud-Cabantous, que estava duas voltas atrás, seguido por Louis Rosier, também com duas voltas a menos que os líderes. Em sexto e sétimo, com três voltas a menos, ficaram Bob Gerard e Cuth Harrison, seguidos por Philippe Étancelin, com cinco voltas atrás dos líderes, David Hampshire, Joe Fry e o trompetista Johnny Claes, em nono, décimo e décimo-primeiro, respectivamente.

Pelo sistema da época somente os cinco primeiros pontuavam — 8 pontos para o primeiro, 6 para o segundo, 4 para o terceiro, 3 para o quarto e 2 para o quinto. Quem fizesse a volta mais rápida ainda levaria um ponto extra. Na primeira prova foi Farina quem conseguiu a volta mais rápida, cravando 1:50,6 logo no segundo giro — o que significa uma velocidade média de 151,308 km/h. Apenas como curiosidade (visto que traçados diferentes são incomparáveis), em 2018 Sebastian Vettel fez a volta mais rápida no giro 47, marcando 1:30,696 — uma média de 233,820.

 

O que veio depois

A vitória de Farina foi a primeira das três que ele conquistaria naquela temporada. As outras duas foram no GP da Suíça e no GP da Itália. Fangio também venceria três vezes na temporada, faturando o caneco em Mônaco, na Bélgica e na França. Como o sistema de pontuação contava apenas os quatro melhores resultados da sete etapas e Fangio abandonou as provas que não ganhou, Farina conseguiu uma vantagem de 3 pontos sobre o argentino e se tornou o primeiro campeão da Fórmula 1. Na época o campeonato de construtores ainda não existia. O título de Farina foi o antepenúltimo de um piloto italiano: depois dele somente Alberto Ascari venceu o mundial (em 1952 e 1953).

A Ferrari, que se orgulha de estar na Fórmula 1 desde sua primeira temporada, só deu as caras no GP de Mônaco, a segunda etapa do campeonato. Eles correram com quatro carros diferentes, todos com motor V12 aspirado, exceto a 125 F1, que tinha um 1.5 supercharged.

Na época a terceira etapa do mundial de F1 era a 500 Milhas de Indianápolis, mas nenhum piloto europeu se preocupava em atravessar o Atlântico para disputar a prova. Isso dava uma bagunçada na tabela de pontos e causava uma distorção que colocava o vencedor da Indy 500 à frente de um pontuador regular, como o Príncipe B. Bira da Tailândia, que pontuou em Mônaco e na Suíça, mas ficou atrás dos americanos Johnny Parsons e Bill Holland, vencedor e segundo colocado na Indy, respectivamente, que só disputaram uma prova do mundial. Isso só foi mudar em 1961 com as mudanças no regulamento e a inclusão do GP dos EUA em Watkins Glenn.

A centésima corrida de F1 foi o GP da Alemanha de 1961. A 200ª corrida aconteceu exatamente 10 anos mais tarde, o GP de Mônaco de 1971. A partir dali as coisas começaram a acelerar: o GP número 300 aconteceu logo em 1978, na África do Sul. O 400º em 1984 (GP da Áustria) e o 500º foi o GP da Austrália em 1990. O 600º GP foi o GP da Argentina de 1997, o 700º foi o GP do Brasil de 2003. Depois disso a F1 entrou em lugares exóticos: o 800º foi o GP de Singapura, o 900º foi realizado no Bahrein e agora o milésimo será chinês.