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Automobilismo História

Silverstone: a história e a evolução do traçado da “casa do automobilismo britânico”

Neste final de semana a Fórmula 1 desembarca na Inglaterra para aproveitar um dos poucos períodos sem chuvas no país e disputar a 74ª edição do GP da Grã-Bretanha, no Circuito de Silverstone.

Embora seja autodenominado “a casa do automobilismo britânico”, Silverstone foi criado em 1943 para ser um campo de treinamento de pilotos da Royal Air Force e assim permaneceu até 1945, quando a Segunda Guerra Mundial terminou. Descomissionado, o campo acabou abandonado até que começou a ser utilizado por entusiastas da região para disputar corridas amadoras em 1947.

No ano seguinte, o Royal Automobile Club (RAC) decidiu voltar a organizar um Grand Prix no Reino Unido — eles já haviam realizado dois Grand Prix em 1926 e 1927, mas o evento não chegou à sua terceira edição. Como Brooklands já estava ocupado pela Vickers Armstrong, o único local apropriado para receber tal competição era o aeródromo de Silverstone, com suas pistas de pouso/decolagem e estradas de serviço.

Em 1950, Silverstone recebeu a primeira prova da nova categoria criada para englobar os Grand Prix, a Fórmula 1.

https://www.youtube.com/watch?v=2K0juK8tzVE

O Grande Prêmio foi realizado em Silverstone até 1954. A partir dali ele passou a alternar-se entre Silverstone e Aintree até 1963. De 1964 a 1986 a alternância anual foi entre Silverstone e Brands Hatch e, desde 1987, o GP é realizado somente em Silverstone.

Sendo um circuito de 71 anos, Silverstone evidentemente teve algumas mudanças em seu traçado, como veremos neste post da nossa série “A Evolução dos Circuitos”.

 

O traçado original

Na primeira edição do GP da Grã-Bretanha o RAC aproveitou a maior parte das pistas de decolagem/aterrissagem e as juntou às estradas de serviço para fazer um traçado criativo, em forma de borboleta, alternando curvas de alta, curvas de baixa, retas curtas e retas longas. É algo pouco usual para um circuito feito com base em ruas e pistas pré-existentes.

O traçado foi delimitado com barris de óleo e fardos de palha e o que “impedia” o público de invadir a pista — e os “protegia” dos carros — era apenas uma corda amarrada entre os barris e fardos. Além disso, ao entrar na Seagrave Straight, os pilotos mais lentos ficavam frente a frente com os pilotos que já estavam na Semana Straight. Isso significa que uma falha nos freios ou uma escapada na entrada do hairpin poderia causar uma colisão frontal. Para minimizar a tensão psicológica de se aproximar assim tão rapidamente de frente para outro carro, os organizadores estenderam painéis de lona para bloquear a visão. Era claro que aquilo precisava mudar.

 

O traçado de 40 anos e o nascimento da F1

Para a edição de 1949 um novo traçado foi formado em Silverstone, eliminando as retas sobre a antiga pistas de pouso/decolagem e usando apenas as estradas perimetrais, dando início ao layout mais duradouro de Silverstone, do qual deriva o traçado atual.

No primeiro ano a curva Club tinha uma chicane, mas em 1950 ela foi removida, aumentando a velocidade de contorno do trecho. O traçado sem a chicane do clube foi usado até 1974. Nesse período a única modificação no circuito foi o deslocamento da linha de chegada e dos pits da Farm para a reta entre a Woodcote e a Copse, em 1954. Em 1964 ocorreu a construção do pit wall para separar a pit lane da reta de largada/chegada.

Em 1973 um acidente ocasionaria a primeira revisão deste traçado: Jody Scheckter perdeu o controle de seu McLaren na Woodcote e bateu no pit wall. A batida do sul-africano resultou em um engavetamento que acabou se tornando o maior da história da F1 até então. Felizmente todos escaparam vivos e sem lesões graves. O maior prejudicado foi Andrea de Adamich, que fraturou o tornozelo e, devido às sequelas da fratura, não conseguiu mais pilotar profissionalmente.

O acidente, contudo, poderia ter sido uma tragédia caso os pedaços do carro tivessem atingido as arquibancadas. Por esta razão, em 1975 uma chicane foi construída na Woodcote para reduzir drasticamente a velocidade dos carros na entrada da reta final do traçado. Mas não por muito tempo.

Quando os carros turbo entraram em cena, a velocidade de contorno da Woodcote com chicane já era mais rápida que a dos carros na época anterior à chicane. Em 1985, Keke Rosberg fez uma volta de classificação com média de 257,5 km/h e outros três carros conseguiram médias superiores a 255 km/h. Estas médias elevadas levaram o RAC a modificar o traçado mais uma vez, antecipando-se a uma possível tragédia.

Assim, em 1987 a Woodcote foi modificada perdendo a chicane e sendo antecedida por uma nova curva em S chamada Luffield.

 

Um novo setor

Em 1990 Silverstone passou por novas mudanças: a área de escape da Copse foi aumentada com o redesenho da curva, que ficou mais fechada. A Becketts foi encurtada e formou uma sequência de esses de alta velocidade com a Maggotts e a Chapel Curve, uma mudança muito elogiada.

A Stowe também foi modificada com uma mudança em seu raio para dar acesso ao novo Vale, que termina em uma curva de 90 graus para a Club. Isso desacelerou o contorno da Abbey e a velocidade de entrada no novo setor criado entre ela e a Luffield.

Esse novo trecho era formado por uma curva de alta chamada Bridge, depois por uma curva à esquerda chamada Priory, seguida por uma curva idêntica chamada Brooklands, antes de voltar à Luffield.

 

Mudanças por segurança

O novo traçado durou pouco: em 1994, depois dos acidentes de Ayrton Senna e Roland Ratzenberger todos os circuitos do planeta revisaram seus traçados para evitar novas tragédias. Em Silverstone não foi diferente e a Copse foi novamente modificada para aumentar ainda mais sua área de escape, enquanto a Stowe ganhou um novo traçado para ficar mais lenta.

O mesmo foi feito na entrada da Club, que ficou mais fechada, e com a Abbey, que ganhou uma chicane. A Priory também foi modificada com a guinada antecipada e a Brooklands foi transformada em um hairpin.

Em 1996 a Stowe foi novamente modificada depois que o RAC encontrou uma solução melhor que a provisória utilizada nos dois anos anteriores. Adotando um raio variável para a curva, foi possível ampliar a área de escape e torná-la rápida novamente. No ano seguinte o miolo foi modificado mais uma vez, aumentando o raio da Priory e redesenhando a Brooklands para tornar o setor mais rápido.

Esse traçado foi utilizado até 2009, quando Bernie Ecclestone recomendou a construção de um novo paddock entre a Copse e a Abbey.

 

 

O novo miolo

Para atender as demandas de Ecclestone, um novo miolo foi construído entre a Abbey e a Luffield em 2010. Agora, a Abbey voltou a ser uma curva de alta, seguida pela curva Farm, também de alta, que leva à Village, esta uma curva de pouco mais de 90 graus que antecede o hairpin Loop.

Dali o traçado segue para a Aintree, para a reta Wellington e Brooklands, que volta a ser uma curva longa, assim como a Luffield. Com a conclusão do novo paddock, desde 2011 a largada/chegada passou a ser o trecho entre a Club e a Abbey.

 

Bonus track – a origem dos nomes das curvas de Silverstone

  • Abbey e Luffield –  refere-se à abadia de Luffield (Luffield Abbey), cujas ruínas foram descobertas na região
  • Becketts e Chapel Curve – refere-se às ruínas da Capela de Thomas Becket (Chapel of Thomas Becket)
  • Stowe – batizada em referência à Stowe School, que fica a cerca de 3 km da curva
  • Maggotts – Maggots Moor é um ponto de referência da região
  • Copse – é o nome do bosque que fica ao lado da curva
  • Club Corner – homenageia o clube de automobilismo (RAC)
  • Woodcote – homenageia o clube de campo Woodcote Park em Surrey
  • Hangar Straight – é a reta onde ficavam os dois hangares dos aviões de treinamento
  • Village – homenageia a vila de Silverstone (Silverstone Village)
  • Ireland – Ireland é o nome inglês da Irlanda, mas a homenagem aqui é a Innes Ireland, piloto de F1 que presidiu o clube de pilotos britânicos
  • Wellington Straight – homenagem aos bombardeiros Vickers Wellington, que eram usados no campo aéreo de Silverstone
  • Brooklands – homenagem ao primeiro autódromo da história
  • The Loop – “a volta”. Refere-se ao formato da curva.

 

Perdeu os capítulos anteriores? 

1 – Circuito da Catalunha
2 – Zandvoort
3 – Circuito de Mônaco
4 – Circuit Gilles Villeneuve
5 – Circuit de La Sarthe
6 — Circuit Paul Ricard
7 — Red Bull Ring