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Car Culture História

Sir Stirling Moss, 90 anos: o melhor piloto do mundo que nunca foi campeão

Sir Stirling Moss completa hoje 90 anos de idade. Ele nasceu em 17 de setembro de 1929, em Londres, no Reino Unido. Para te situar: na época, as corridas de Grand Prix ainda eram novidade – o Campeonato Europeu estava em sua quinta edição, e ainda faltava mais de duas décadas para que fosse inaugurada a Fórmula 1. Os carros que competiam eram os Auto Union, Mercedes-Benz, Bugatti, Maserati e Alfa Romeo. Sim, faz muito tempo.

No ano passado, antes de completar 89 anos, Stirling Moss anunciou sua aposentadoria da vida pública – ele deixaria de visitar eventos, dar discursos, participar do lançamento de novos modelos, e outros tipos de aparições que fazem parte da rotina de uma lenda viva do automobilismo. A notícia veio em um pronunciamento da família de Moss em seu site oficial. E nós entendemos: depois de tantos anos vividos, a maioria deles de forma intensa, todo homem merece descanso. Ainda mais Sir Stirling Moss, considerado um dos melhores pilotos de toda a história. Mesmo sem jamais ter conquistado um título na Fórmula 1.

Stirling Moss cresceu próximo ao automobilismo – seu pai era Alfred Moss, dentista e piloto amador, tendo participado até mesmo das 500 Milhas de Indianápolis em 1924. Assim que aprendeu a dirigir, começou a treinar e, em pouco tempo, estava participando de subidas de montanha. Em 1948, antes mesmo de completar 20 anos, Moss já estava competindo a sério. No entanto, ele ainda não ganhava a vida assim: sua principal ocupação era andar a cavalo. Moss era um excelente jóquei, e conseguiu financiar seu ingresso nas pistas com os prêmios que ganhou no hipismo.

O primeiro carro com o qual Stirling Moss competiu profissionalmente foi o Frazer Nash de seu pai. No entanto, logo ele o trocou por um Cooper 500 – na verdade, um dos primeiros Cooper fabricados. Depois das subidas de montanha, Moss migrou para a Fórmula 3 e, rapidamente, conseguiu migrar para a Fórmula 1. Ao longo de sua carreira, que durou até 1962 (com aparições esporádicas nas décadas seguintes), Moss pilotou carros de pelo menos 84 fabricantes diferentes, incluindo medalhões como Ferrari, Jaguar, Mercedes-Benz, Maserati, Lotus e Aston Martin; e marcas mais insiders como Lister, Vanwal e a própria Cooper. Extremamente prolífico, em suas temporadas mais agitadas, Moss participava de mais de 60 corridas. Em um único ano!

A primeira grande vitória internacional de Moss veio no dia 16 de setembro de 1950, na véspera de seu aniversário de 21 anos. Com um Jaguar XK120 emprestado, ele venceu o RAC Tourist Trophy, corrida realizada no circuito de Dundrod, na Irlanda do Norte – que ele venceu outras seis vezes entre 1951 e 1961.

Nos anos seguintes, Moss seguiu participando de quantas provas conseguisse – incluindo, por exemplo, o Rally Monte Carlo de 1952, onde terminou em segundo lugar com um Sunbeam-Talbot 90. Em 1954, Moss tornou-se o primeiro não-americano a conquistar as 12 Horas de Sebring, revezando o volante de um O.S.C.A. MT4 com Bill Lloyd (este sim nascido nos Estados Unidos).

Stirling Moss em Monte Carlo

Paralelamente, Moss também quebrou alguns recordes de velocidade – em 1950, no oval de Montlhéry, na França, Moss foi um dos três pilotos que conduziram um Jaguar XK120 por 24 horas, a uma velocidade média de 172,94 km/h. Dois anos depois, desta vez como parte de uma equipe de quatro pilotos que, usando outro XK120, dirigiram em Montlhéry por sete dias e sete noites, a uma velocidade média de 161,43 km/h, quebrando quatro recordes mundiais e cinco recordes internacionais de velocidade e resistência.

Depois, em 1957, Moss foi ao deserto de sal de Bonneville, nos EUA, para quebrar mais cinco recordes em linha reta ao volante do protótipo MG EX181. O carro com motor supercharged chegou aos 245,64 km/h no quilômetro lançado. Sim, quando dizemos que Stirling Moss sempre foi muito prolífico.

No entanto, é certo dizer que a parte mais importante da trajetória de Stirling Moss foram seus anos como piloto de Grand Prix. Entre 1951 e 1962, ele participou de 66 corridas, das quais venceu 16 delas.

A primeira participação de Stirling Moss em um Grand Prix – já no início da Fórmula 1 – foi no GP da Suíça, em 1951, com um Hersham and Walton Motors (HWM), que o piloto terminou na 8ª posição depois de largar na 14ª. E foi só o começo. Nos anos seguintes, correndo com o Maserati 250F e o Lister Knobbly, Moss conseguiu ótimos resultados, subindo ao pódio frequentemente nos anos seguintes. Seu desempenho chamou a atenção de Alfred Neubauer, que na época era chefe da equipe da Mercedes-Benz e, em 1955, decidiu dar ao jovem piloto uma oportunidade.

Ele não se arrependeu: já naquele ano Moss conquistou sua primeira vitória no Grande Prêmio da Grã-Bretanha – sendo, ironicamente, o primeiro piloto britânico a fazê-lo. Mais do que isto: Moss liderou uma vitória quádrupla da Mercedes naquela corrida, ficando à frente do colega de equipe, amigo e mentor Juan Manuel Fangio. Na época, o próprio Moss suspeitou que Fangio o tivesse deixado vencer em sua terra natal, mas o argentino sempre negou, dizendo “você apenas foi melhor do que eu naquele dia”.

Ainda naquela temporada, Stirling Moss venceu o RAC Tourist Trophy, a Targa Florio e a Mille Miglia, esta última, ao volante do lendário Mercedes-Benz 300 SLR – que, com seu oito-em-linha de três litros e 310 cv, beliscava os 300 km/h. Em 1956 e 1957, vitórias de destaque aconteceram no GP de Nassau e na Speed Week de Bahamas. Além disso, em 1957 Moss foi o vencedor do Grande Prêmio de Pescara, o maior circuito a receber uma corrida de Fórmula 1, com 25 km de extensão. A corrida durou três horas, e Stirling Moss mais uma vez bateu Fangio, por uma diferença de três minutos.

Juan Manuel Fangio e Stirling Moss

No ano seguinte, Moss quase conquistou seu primeiro título – e este “quase” é atribuído ao próprio piloto. Isto porque, no GP de Portugal, o rival Mike Hawthorn foi acusado de engatar a marcha a ré durante uma manobra após sair da pista. Moss (que vencia a corrida) defendeu Hawthorn (que vinha em segundo), dizendo que ele simplesmente estava tentando fazer o carro pegar no tranco, o que evitou a desclassificação de Hawthorn e lhe concedeu os seis pontos que lhe eram de direito. No fim da temporada, Moss foi o segundo na classificação geral, ficando apenas um ponto atrás de Hawthorn. Caso ele tivesse ficado quieto, seria o campeão de 1958.

De todo modo, Moss ainda arranjou tempo para participar de provas de longa duração naquele ano, vencendo novamente o Tourist Trophy, as 12 Horas de Sebring, a Mille Miglia e os 1.000 Km de Nürburgring – sendo que esta última ele também venceu em 1959 e 1960. Nas duas primeiras vezes, ele correu com um Aston Martin, enquanto na terceira o carro era o famoso Maserati Birdcage que Moss dividiu com Dan Gurney.

Na temporada de 1960, novas vitórias: o GP de Mônaco e o GP dos EUA, ambos com o Lotus 18. Já em 1961, embora o carro britânico fosse mais fraco que as recém-lançadas Ferrari 156 com motor V6, Moss ainda conseguiu vencer o Grande Prêmio da Alemanha por uma diferença de 3,6 segundos.

O ano de 1962 marcou o fim da carreira de Moss: durante o Glover Trophy, disputado em Goodwood no dia 23 de abril, ele perdeu o controle do carro sobre a pista molhada. Com o impacto, Moss ficou desacordado e entrou em coma, permanecendo internado por um mês. Nos seis meses seguintes, o lado esquerdo do seu corpo ficou parcialmente paralisado e, após recuperar-se, Moss realizou uma sessão de testes com o Lotus 19. No entanto, ao ficar décimos de segundo atrás do que costumava fazer antes do acidente, o piloto chegou à conclusão de que seu controle sobre o carro estava comprometido, e por isso decidiu abandonar as competições profissionais.

Ainda naquele ano, Stirling Moss começou a atuar como comentarista automobilístico no programa Wide World of Sports, da rede ABC, onde ficou até 1980. No entanto, ele acabou voltando às pistas ocasionalmente, participando, por exemplo, do rali Londres-Saara-Munique de 1974 com um Mercedes0Benz. Dois anos depois, em 1976, Moss foi até a Austrália para particiar da Bathurst 1000 com um Holden Torana, que dividiu com o também lendário Jack Brabham. E, em 1979, ele correu ao lado de Denny Hulme Golf GTI nas 500 Milhas de Pukehoke, na Nova Zelândia.

Em 1980, Moss retornou brevemente a competir de forma regular, participando do British Saloon Car Championship (a categoria que deu origem ao atual BTCC) com um Audi 80. Foi sua última participação em um campeonato, fora as corridas históricas das quais Moss participou até o começo desta década.

Em 2009, Stirling Moss comemorou seu aniversário de 80 anos no Goodwood Revival – em cada um dos três dias de evento aconteceu um desfile de 80 carros. Moss participou dos três, dirigindo um Mercedes-Benz W196 Monoposto, um Lotus 18 (o carro que ele pilotou no GP de Mônaco em 1961) e um Aston Martin DBR3.

Foto: growler2ndrow/Flickr

Moss sempre disse que no dia em que sentisse medo ao volante de um carro de corridas, ele deixaria de correr. Foi o que aconteceu em 9 de junho de 2011, durante uma a edição da Le Mans Legends, corrida histórica para clássicos que correram nas 24 Horas de Le Mans. Stirling Moss, que correu com o Porsche 718 Spyder RS61, anunciou no rádio durante os treinos de classificação que, pela primeira vez sentiu medo na pista e cumpriu sua “promessa”. Foi sua última prova.

Depois disto, Stirling Moss seguiu comparecendo a cerimônias e outras formalidades. No entanto, sua saúde andou prejudicada recentemente. O anúncio de sua aposentadoria veio após uma infecção no tórax, diagnosticada em 2016. Moss passou um longo período se recuperando, e tomou a decisão de deixar a vida pública – e, enfim, descansar ao lado de sua família.