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História Zero a 300

Team Pace: a história da única equipe brasileira que competiu nas 24 Horas de Le Mans

Enquanto os fãs de futebol precisam esperar quatro anos para uma nova edição da copa do mundo, os fãs de automobilismo podem curtir todos os anos as 24 Horas de Le Mans. Claro, sabemos que é bem possível ser fã das duas coisas, mas somos um site de carros. Para preparar o clima para as 24 Horas de Le Mans de 2018, que começam neste sábado (16), vamos contar em detalhes a história da primeira e única equipe brasileira a participar da mais importante e mais antiga prova de resistência do esporte a motor. Foi na edição de 1978 – exatos 40 anos atrás. Nos parece uma boa hora, então.

Mas primeiro, precisamos fazer um breve comentário sobre a situação do automobilismo no Brasil no fim dos anos 70.

 

Um pouco de contexto

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Em 1978 o segundo título de Emerson Fittipaldi na Fórmula 1 completava quatro anos e Nelson Piquet fazia sua estréia na maior categoria do automobilismo com um carro alugado. Ayrton Senna tinha seus dezoito anos de idade e disputava pela primeira vez o Campeonato Mundial de Kart, que ainda disputaria outras quatro vezes antes de quase desistir do automobilismo por pressão de seus pais, que queriam que ele assumisse os negócios da família. Piquet só conquistaria seu primeiro título em 1981, e Senna só se tornaria piloto profissional de Fórmula 1 em 1984, quando assinou um contrato com a Toleman.

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Ayrton Senna era um moleque franzino em 1978; Nelson Piquet começava sua carreira na Fórmula 1 com um carro alugado no GP de Hockenheim

Emerson Fittipaldi estava às voltas com a Copersucar, sua equipe de Fórmula 1 que competiu entre 1975 e 1982. Mas não estava sendo fácil: apesar de conseguir resultados expressivos e até mesmo um pódio em 1978, a Copersucar sofria com a pressão do público leigo, que começou a cobrar um desempenho impossível em um prazo curto, como se construir do zero um monoposto competitivo fosse algo simples. Para piorar, este comportamento era estimulado por uma grande imprensa igualmente leiga no assunto, que não dava atenção a nada que não fosse uma vitória ou um título de um brasileiro na Fórmula 1.

Corrida da Divisão 3 em 1980

Mas isto não quer dizer que não havia automobilismo. Nos anos 70 foram disputadas incontáveis corridas de turismo e categorias de monopostos como a Fórmula Vee, que usava mecânica Volkswagen. E era desta cena que vinham os personagens desta história: Alfredo Guaraná Menezes, Marinho Amaral e Paulo Gomes.

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Alfredo Guaraná Menezes de Fórmula Super Vê

Alfredo Guaraná Menezes era piloto da Divisão 3 de Turismo, que contava com carros modificados até a tampa – de Fusca e Gol a Opala e Maverick; e em 1974 passou para os monopostos da Fórmula Super Vê, rivalizando com Nelson Piquet. Mario “Marinho” Amaral era piloto da Divisão 1. Paulo Gomes, conhecido como Paulão, também, e um grande amigo de José Carlos Pace, participava na época do Campeonato Brasileiro de Turismo no Grupo 1.

O nome de José Carlos Pace só apareceu agora, mas não quer dizer que não tenha importância. Contemporâneo dos irmãos Fittipaldi, Pace começou a competir no início dos anos 60, pilotando carros de turismo da Equipe Willys. Em 1970, na Inglaterra, Pace foi campeão de Fórmula 3. No ano seguinte, já na Fórmula 2, Pace venceu o Grande Prêmio de Imola. A vitória lhe rendeu um convite da Scuderia Ferrari para integrar sua equipe de protótipos no ano seguinte. Assim, em 1973, José Carlos Pace correu nas 24 Horas de Le Mans ao lado do italiano Arturo Merzario ao volante da Ferrari 312PB, equipada com um motor flat-12 de três litros. A dupla conseguiu o segundo lugar na classificação geral, melhor resultado obtido por um brasileiro na prova até então.

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Paralelamente, José Carlos Pace conseguiu ingressar na Fórmula 1 em 1972 pela equipe Williams, que corria com carros da britânica March. Em 1973 Pace migrou para a Surtees e, em 1974 passou para a Brabham. E foi com um Brabham que ele conquistou sua primeira e única vitória na Fórmula 1 – por um feliz coincidência, o Grande Prêmio do Brasil de 1975, realizado no Autódromo de Interlagos, em uma dobradinha com Fittipaldi — a primeira do Brasil na F1. Também em 1975 Pace correu no Brasileiro de Turismo, sagrando-se campeão, e também venceu as 25 Horas de Interlagos.

Em 1977 ele finalmente tinha um Brabham competitivo e uma temporada promissora pela frente, mas um trágico acidente de avião interrompeu sua vida aos 32 anos de idade.

 

Formando a equipe

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Foi por iniciativa de Alfredo Guaraná que ele, Paulão Gomes e Marinho Amaral alugaram, ainda em 1977, um Porsche 935 da equipe francesa Team ASA Cachia. O carro ainda era novidade – era uma versão extrema do Porsche 911 turbo 930, preparado de acordo com o regulamento do Grupo 5 da FIA, que permitia modificações extensas ao projeto incluindo carroceria extremamente alargada, motor turbo e alívio extremo de peso. O  bico em forma de cunha, marca registrada do Porche 935, era possibilitado pela ausência de especificações para a altura dos faróis e proporcionava mais eficiência aerodinâmica.

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O motor, no caso deste carro, era um flat-six de três litros com potência que variava entre 560 a 700 cv graças à então recente tecnologia da turbocompressão. Havia versões ainda mais potentes – o carro da equipe de fábrica da Porsche tinha dois turbos e passava do 900 cv – mas os brasileiros se contentaram com o que tinham.

A ideia de criar uma equipe brasileira para correr em Le Mans foi bem recebida pelo então presidente da Confederação Brasileira de Automobilismo, Charles Naccache, e não foi tão difícil encontrar patrocinadores para a empreitada: além da marca de jeans Gledson, que já havia patrocinado os pilotos nas provas de turismo, Coca-Cola, Center Fabril e Grupo Mondelo tiveram seus nomes estampados sobre as cores amarelo e vermelho. Como cereja do bolo, para aquela corrida em especial a equipe Cachia foi rebatizada como Cachia Team Pace. A ideia da homenagem partiu de Paulo Gomes, e foi aceita sem objeções. Era só carimbar os passaportes e partir rumo à França.

 

A corrida

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Foto: Motorsport.com

A 24 Horas de Le Mans de 1978 aconteceu entre os dias 10 e 11 de junho. A Porsche levou pelo menos quatro carros com sua equipe de fábrica, e mais um punhado de equipes independentes corriam com carros da marca alemã. Nos treinos Paulo Gomes conseguiu classificar o 935 da Team Pace com 3:59,5, colocando o carro na 23ª posição. Para se ter ideia, a pole position ficou Jacky Ickx, da Martini Racing Porsche (a equipe oficial da fabricante), com o protótipo 936 do Grupo 6, cujo motor flat-six arrefecido a ar deslocava 2,1 litros para entregar 540 cv e tinha como vantagem o peso bem mais baixo – apenas 740 kg, contra cerca de 900 kg do Porsche 935. Seu tempo foi de 3:27,6. Em sua classe, o Grupo 5, o Porsche dos brasileiros ficou com a sexta posição.

Apostando na regularidade, e não na velocidade bruta — como pede uma prova como Le Mans —, a Team Pace conseguiu uma excelente posição na corrida, recebendo a bandeira quadriculada com 329 voltas completadas, na sétima posição. Na corrida, a volta mais rápida da equipe brasileira foi um tempo de 4:03,6. A ordem era manter um ritmo constante e sem atropelos, conseguindo assim levar o carro até o final da corrida. A velocidade máxima atingida na reta Hunaudières foi de 307 km/h, com Paulo Gomes ao volante.

Aquela foi uma das poucas edições das 24 Horas de Le Mans nos anos 1970 que não foram vencidas pela Porsche. O vencedor foi o Renault Alpine A442B de Didier Pironi e France Jean-Pierre Jaussaud, com 369 voltas completadas. Por outro lado, os Porsche ficaram com a segunda, a terceira, a quinta, a sexta e a oitava posições – os outros, incluindo o carro de Jacky Ickx, não chegaram a terminar a corrida. Mais do que isto: o 935 dos brasileiros ficou à frente de um dos bólidos da equipe de fábrica, que era mais moderno, mais potente e contava com apoio direto dos engenheiros de Stuttgart.

O trio voltou ao Brasil com 5 mil francos no bolso, porém não jamais o reconhecimento merecido pelo grande público. Suas aventuras em Le Mans costumam ser celebradas por quem viveu aquela época e por admiradores do automobilismo brasileiro clássico.