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Toyota Supra A80: as versões mais raras e extremas

Faz poucos dias que fizemos, aqui no FlatOut, uma lista dos Nissan Skyline mais raros e extremos que existem – ou existiram. Depois disto, era natural que escolhêssemos outro ícone do JDM para receber o mesmo tratamento. E a escolha lógica, bem, foi o Toyota Supra.

Assim como o Skyline, o Supra fez sucesso nas corridas em circuitos, nas arrancadas, e no aftermarket. A diferença é que, enquanto o Skyline GT-R nasceu para as pistas, o Supra A80 foi criado como um grand tourer que, graças ao mercado de preparação, ganhou força entre os entusiastas. Sua fama universal veio com os pegas de semáforo e nas disputas entre street racers, que aproveitavam o imenso potencial do motor 2JZ-GTE.

Antes disto, porém, o Supra já tinha força entre os adeptos da cultura JDM – já no começo dos anos 1990 ele apareceu no primeiro Need for Speed (o primeiro game, de 1994), ao lado de outros carros japoneses que invadiram os Estados Unidos, como o Mazda RX-7, o Mitsubishi 3000GT e o próprio Nissan Skyline. Depois, veio Gran Turismo, de 1997. E, por fim, o protagonismo em “Velozes e Furiosos”, de 2001. Foi quando o culto ao Supra explodiu de vez.

A seleção de carros neste post reflete tudo isto – há carros tunados dos anos 1990, bólidos de competição, projetos famosos e especiais da própria fabricante, cada um com suas características e sua história, porém todos eles indispensáveis para a reputação que o Supra tem hoje.

 

Top Secret Toyota Supra V12

Ora, você sabe que era inevitável: o Toyota Supra V12 de Kazuhiko “Smokey” Nagata – que não apenas é um dos Supra mais emblemáticos do planeta, como também um dos automóveis mais icônicos da cena tuning japonesa.

Smokey Nagata, como contamos neste post, era um dos membros do famoso Mid Night Club, a mais famosa gangue de pilotos de rua do Japão. E, como outros colegas, ele achou uma forma de transformar seu hobby, sua paixão, em um meio de ganhar a vida: usando a experiência que adquiriu modificando seu carro para corridas ilegais na Wangan – a via expressa que liga Tóquio a Yokohama e também é conhecida como Bayshore Route –, ele abriu sua própria oficina de preparação, batizada Top Secret. Em pouco tempo, seus serviços tornaram-se extremamente requisitados, e Smokey virou referência na preparação do Supra.

O carro do próprio Nagata já teve algumas configurações mecânicas diferentes. Em seus tempos de Mid Night Club, o carro tinha um 2JZ-GTE, o seis-em-linha clássico, preparado para atingir entre 600 e 700 cv. Foi com esta configuração que, em 1999, o carro chegou aos 318 km/h em uma via expressa do Reino Unido – e rendeu a Smokey uma restrição permanente naquele país. Detalhe: o feito foi todo registrado em vídeo e é motivo de orgulho para o preparador.

Em 2001, o Supra recebeu – pasme – um quatro-cilindros em linha 3S-GTE, o mesmo motor do Toyota Celica, preparado para render até 720 cv. O swap, na época, chocou o mundo, embora a própria Toyota já tenha corrido com um Supra de quatro cilindros (como veremos mais adiante). Era exatamente o que Nagata queria.

No entanto, com o passar dos anos, este tipo de cirurgia ficou relativamente comum – e Nagata precisava de uma nova forma de surpreender a todos. Foi assim que nasceu seu Toyota Supra com motor V12 biturbo. Que é um carro diferente, importante frisar: o original ainda está guardado na sede da Top Secret em Chiba, no Japão. É comum que se confunda os dois, até porque a cor da carroceria é a mesma.

O Toyota Supra com motor V12 é um projeto mais recente, e foi apresentado na edição de 2007 do Tokyo Auto Salon. De cara, não se pode ignorar o visual do cupê, que recebeu uma nova dianteira, mais baixa e longa, com faróis afilados feitos sob medida. Esta dianteira, aliás, é vendida pela Top Secret. Nem todo mundo consegue digerir seu visual, mas certamente ele é distinto.

O motor é o 1GZ-FE, de cinco litros, e o único V12 fabricado pela Toyota. É o motor do sedã Century da geração passada, o carro mais luxuoso da fabricante japonesa e o veículo oficial da família real do Japão. Originalmente, ele tem 310 cv e 49 kgfm de torque. Porém, nas mãos de Nagata, ele recebeu componentes internos forjados, todos desenvolvidos e fabricados pela Top Secret, e dois turbocompressores HKS GT2835, um ao lado de cada bancada, com um intercooler na dianteira.

Comandos de graduação mais agressiva foram instalados, e um cilindro de óxido nitroso foi colocado lá atrás para conseguir uma dose extra de potência ao toque de um botão. Por fim, as duas ECU originais (uma para cada bancada de cilindros) foram trocadas por duas HKS F-Con Vpri, com programação exclusiva, a fim de permitir que o motor trabalhe mais “no limite” e aproveite melhor seus recursos. O resultado: 943 cv a 7.300 rpm e 103 mkgf de torque à pressão máxima de 1,2 bar – nada de treskilimeiaqui, não. Com o jato de nitro, dependendo das condições, a força vai para algo entre 1.000 e 1.200 cv.

O carro ainda recebeu rodas Rays GTF de 19”, calçadas com pneus de medidas 245/35 na dianteira e 275/40 na traseira, abrigando discos de freio GReddy, ventilados e slotados, com 380 mm de diâmetro na dianteira e 350 mm na traseira e pinças de seis e quatro pistões, respectivamente. A suspensão usa amortecedores do tipo coilover, feitos sob medida pela Top Secret.

https://www.youtube.com/watch?v=jfDTLXHkMXg

No circuito de Nardò, na Itália, uma sessão de testes que durou duas horas, com o próprio Nagata ao volante, o Supra conseguiu chegar aos 358 km/h usando um câmbio manual de seis marchas da Getrag – e, depois disto, tornou-se um dos favoritos dos fãs em encontros de carros modificados dentro e fora do Japão. Mais recentemente, em janeiro de 2018 ele foi leiloado pela agência japonesa BH Auctions no dia 12 de janeiro de 2018.

 

O Toyota Supra de Max Orido

Como dissemos mais acima, o Toyota Supra Mk4 era um carro espetacular, mas sua fama realmente explodiu depois que as preparadoras colocaram as mãos nele – mais até do que seu desempenho nas pistas. Assim, o segundo carro desta lista também é um tuner. E não é qualquer um: trata-se do Supra de rua de Max Orido, piloto polivalente que conquistou títulos na Super GT em 1996 e 2009, e que também já correu no D1 GP, a Fórmula Drift japonesa. Ele ficou mais famoso, porém, graças a seu posto de apresentador nos vídeos da Best Motoring International e da Hot Version, ao lado de Keiichi Tsuchiya e Nobuteru Taniguchi. E também por seu Toyota Supra A80 vermelho.

Foto: Pasmag

Feito como uma espécie de vitrine para a companhia de acessórios de Orido, a Ridox, o Supra tem tudo o que se espera de um bom projeto de tuning japonês. Começando pelo body kit, visivelmente inspirado pelos carros de corridas japoneses – repare nos winglets nas extremidades do para-choque dianteiro e nas saias laterais. Ao mesmo tempo, os para-lamas traseiros presos por rebites são um aceno duplo para a cultura de rua japonesa e para os carros de turismo dos anos 70. Há alguns toques modernos, como o teto com fibra de carbono exposta, os faróis com projetores e máscara negra e as setas com lentes lisas.

Como mudam com frequência, as especificações técnicas do projeto não são muito precisas. Em 2013, o motor 2JZ de três litros (Orido nunca aumentou o deslocamento do motor) era sobrealimentado por duas turbinas Sard KKK 3470, e tinha coletores feitos sob medida pelo próprio Max, mas atualmente o motor respira com a ajuda de um par de turbos HKS GTIII. A potência foi aferida recentemente em 625 cv nas rodas traseiras, que recebem a força do motor através de um diferencial com deslizamento limitado.

Max Orido participa de diversos eventos de pista com seu Supra A80 – incluindo o recente encontro promovido pela própria Toyota no Japão, para celebrar a chegada da nova geração. A fabricante reuniu exemplares modificados, originais e de competição do Supra, e o carro de Orido estava em lugar de destaque.

 

Denso SARD Supra

A equipe SARD, como contamos neste post, foi fundada em 1973 como Sigma Automotive, e começou a competir em corridas de protótipos usando motores Mazda. Na verdade, eles foram os primeiros japoneses a disputar as 24 Horas de Le Mans – e os primeiros a usar o motor rotativo Wankel na prova.

Isto posto, foi só depois de assinar um contrato com a Toyota, em 1975, que a SARD engrenou de verdade. Ao longo das décadas de 1970 e 1980, diversos protótipos com mecânica Toyota foram utilizados pela SARD dentro do Japão, e em 1990 a equipe participou novamente das 24 Horas de Le Mans com o protótipo  Toyota 90C-V, movido por um V8 biturbo de 3,2 litros de mais de 800 cv. Naquele ano o vencedor foi o lendário Jaguar Silk Cut XJR-12, da Tom Walkinsharw Racing. O Toyota da SARD, classificado na 33ª posição, não conseguiu terminar a corrida.

Foi apenas em 1993, com a criação do JGTC, o Campeonato Japonês de Carros de Turismo, que a situação começou a melhorar. A SARD começou a participar da competição em 1993 com o Supra patrocinado pela Denso, fabricante de componentes elétricos e sistemas de alimentação. O detalhe é que os carros não utilizavam o famoso motor 2JZ-GTE dos carros de rua, mas sim motores de quatro cilindros das famílias 4T e 3S – empregados, respectivamente, pelos Toyota Celica e Corolla do WRC no fim da década de 1980 e no início da década de 1990, com potência entre 500 cv e 650 cv. Entendeu de onde Smokey Nagata tirou sua inspiração?

O Denso SARD Supra teve uma carreira longa, que avançou bastante nos anos 2000. Keiichi Tsuchiya e Max Orido já o pilotaram, e ele também deu origem ao primeiro carro híbrido a vencer uma corrida sancionada pela FIA – as 24 Horas de Tokachi, no Japão.

 

 

Castrol TOM’s Supra

O Denso SARD Supra não está sozinho, porém, entre os Supra de competição icônicos que ficaram famosos em Gran Turismo – o carro com a pintura branca, vermelha e verde da Castrol, que corria pela equipe de fábrica da Toyota.

Na vida real, ele foi montado pela TOM’S, que em 1975 foi reconhecida como preparadora autorizada pela Toyota. Foi o início de uma saudável relação que culminou na década de 1990, quando a TOM’S se tornou a equipe de fábrica da Toyota no Super GT.

https://www.youtube.com/watch?v=P2-xC6d-HuA

O carro era patrocinado pela Castrol, assim como o Toyota Corolla que competia no WRC mais ou menos na mesma época. Não por acaso, o motor não era o icônico seis-em-linha biturbo 2JZ, e sim o quatro-cilindros 3S-GTE usado pelo carro de rali. A preparação era muito semelhante, com  sim um quatro-cilindros de dois litros e 16 válvulas turbinado muito semelhante ao do Corolla WRC, porém com uma dose extra de pressão no turbo para render algo entre 480 cv e 500 cv. O motor do Corolla era plenamente capaz de atingir estes números mas, por força do regulamento, era amansado para entregar cerca de 300 cv.

O TOM’S Castrol Supra teve uma carreira razoavelmente bem sucedida. Sua primeira vitória veio na temporada de 1995 do JGTC, no circuito de Sendai Hi-Land Raceway. Mas foi em 1997, com refinamentos aerodiâmicos e uma nova caixa sequencial Hewland de seis marchas, que ele obteve seu melhor desempenho:

Com coração de carro de rali, o TOM’S Supra foi superior a todos os rivais e foi campeão da categoria GTC 500 no Super GT de 1997, com Pedro de la Rosa e Michael Krumm. Seu grande rival, que ficou em terceiro lugar (atrás do DENSO Sard Supra) era outro carro lendário: o Nissan Skyline GT-R R33 da Zexel, que estreou naquele ano.

O sucesso do Castrol Supra nas pistas refletiu-se em sua reputação nos games, aparecendo em todos os títulos da franquia Gran Turismo, e na vida real – entre as várias réplicas que já foram feitas do Castrol Supra, está uma montada pela própria TOM’S, que foi leiloada em 2015 pelo site Pistonheads.

 

Abflug S900

Abflug significa “decolagem” em alemão. Exceto se você for fã de nomes obscuros do tuning anos 90 – nesse caso, Abflug é o nome de uma preparadora japonesa conhecida por seus bodykits extremamente radicais, que na maioria das vezes só poupam o teto. O restante geralmente dá lugar a para-lamas muito mais largos, para-choques agressivos, muitas dobras e vincos grandes e numerosos, além de faróis “bravos” e, claro, suspensão retrabalhada. Tudo com uma execução caprichada, contrastando com o design que, para muitos, é meio indigesto.

Avistar um Toyota Supra da Abflug no mundo real é muito raro – é como encontrar um unicórnio selvagem. Dino Dalle Carbonare, do Speedhunters, flagrou um deles em 2017, e disse que foi a primeira vez em sua vida.

O carro usava o body kit Zefi:r (sim, a grafia é esta), que era inconfundível – novos para-choques, maiores e mais agressivos, para-lamas completamente redesenhados, com um enorme vinco em forma de “Z” percorrendo toda a lateral do cupê.

O Abflug S900, por sua vez, era uma variação bem mais picantes sobre o tema. Apresentado em 2001, ele lembrava bastante o Zefi:r em estética, mas incluía um motor 2JZ-GTE com deslocamento ampliado para 3,1 litros, turbocompressor HKS T51R Kai e ECU reprogramada – modificações suficientes para entregar 900 cv e 86,7 kgfm de torque.

O S900 era capaz de cumprir o quarto de milha em 10,4 segundos, e tinha velocidade máxima de 354 km/h.

É curioso como existem, contudo, pouquíssimas do Abflug S900 – algumas images de divulgação e flagras nas ruas. É mais fácil encontrar vídeos, como o que incluímos abaixo. A qualidade ruim, o fato de ter sido publicado em 2008 e o fato de ser apenas um flyby de poucos segundos ajudam a construir certa mítica em torno do carro.

E mais: ao que parece, a Abflug segue na ativa, desenvolvendo body kits não apenas para esportivos dos anos 1990, mas também para carros modernos, como o Nissan GT-R e o Mercedes-Benz SL R231.

 

TRD 3000GT

Nem só de carros tunados e bólidos de competição é feita esta lista. A própria Toyota pode não ter feito com o Supra o mesmo que a Nissan fez com o Skyline GT-R – ou seja, eles não investiram em muitas versões modificadas oficiais. Em vez disso, deixaram que o aftermarket fizesse seu trabalho.

Isto não quer dizer, porém, que não existiu nenhuma. O TRD 3000GT, criação da Toyota Racing Developments – a divisão de performance que ocupava o lugar da atual Gazoo Racing – é o melhor exemplo. Trata-se de uma edição especial do Supra, lançada em 1994 para comemorar o ingresso do Supra no JGTC.

A TRD recebeu a tarefa de criar um body kit relativamente discreto, que aproximasse o Supra de sua versão de corrida sem quebrar a harmonia das linhas originais. O resultado foi um conjunto de para-lamas ligeiramente mais largos; novos para-choques, saias laterais e asa traseira; e um conjunto de respiros triangulares no capô. No total, o carro é 5 cm mais largo que o original – apenas o suficiente para ressaltar as curvas da carroceria. Os carros eram montados à mão na oficina da TRD.

O TRD 3000GT é um carro raríssimo – foram feitos apenas 35 deles. O detalhe mais interessante: embora não tivessem modificações mecânicas, os carros tinham o número do chassi remarcado com um novo número e deixavam de ser exemplares do Toyota Supra. Oficialmente, o modelo era mesmo chamado TRD 3000GT.

A maioria dos carros está no Japão – sabe-se de três nos EUA, e apenas um punhado deles na Europa, importados de forma extra-oficial (e nem sempre totalmente de acordo com a lei) para o Reino Unido. E quase todos foram preparados de alguma forma.