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Um Ford Fairlane de família | FlatOut Classics


O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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As voltas do mundo… em um Fairlane 500

O carro que parece escolher seu proprietário é um clichê recorrente no universo entusiasta. Os clichês, contudo, só se tornam clichês porque são verdadeiros, e se há um caso que corrobora esta regra, é a história do Ford Fairlane 1966 do Manoel e de seu pai, também chamado Manoel.

É uma história que começa em 1966, quando Manoel, o pai, tinha dezoito anos e foi à agência Ford Sonnervig na avenida Ipiranga, em São Paulo, para conhecer os lançamentos do ano. Entre as novidades, estava um reluzente Ford Fairlane cupê zero-quilômetro, com pintura azul “Arcadian Blue” e bancos de vinil azul escuro. Era um carro apaixonante para um jovem de 18 anos — ainda que o Mustang fosse a sensação do momento.

Manoel não tinha a intenção de comprá-lo. O Fairlane era um modelo importado em tempos de sobretaxação dos importados, caro demais para alguém tão jovem. Era o tipo de coisa que fantasiamos por instantes e logo guardamos em um cantinho da memória. Foi o que fez Manoel: imaginou como seria ter aquele carro, mas logo esqueceu e seguiu em frente, com o DKW que tinha na época.

Passados mais de 15 anos daquele dia, agora casado e pai de família, Manoel reencontra o Fairlane 500 em 1982… quando seu sogro, o Dr. Alfredo, apareceu com aquele velho Ford azul claro.

Manoel reconheceu o carro e contou ao sogro que conhecera o Fairlane em 1966, quando foi ver os lançamentos com o pai na agência Ford. O mesmo carro, com pintura azul, bancos escuros, motor 289 com carburador de corpo duplo, câmbio manual de três marchas, ar-condicionado de fábrica e carroceria hardtop.

 

O Ford Fairlane

O nome Fairlane se refere a dois modelos distintos na linha Ford. O primeiro, lançado em 1955, era a linha “full-size” da marca, que substituiu o clássico Crestline e durou até 1961 após uma terceira geração que serviu mais como uma transição suave para o novo Galaxie. 

No ano seguinte, 1962, o Fairlane se tornou um novo carro, agora posicionado no nascente segmento intermediário, ou “mid-size”, até então inexistente no mercado americano. O que havia era apenas os carros pequenos, em sua maioria vindos da Europa, os compactos, que eram pouco maiores, e os modelos full-size em diferentes níveis de acabamento, desde versões mais espartanas até modelos de luxo. 

Quando a AMC lançou o Rambler Six em 1956, com um porte significativamente menor que o dos full-size, mas ainda muito maior que os importados europeus, ela criou um novo segmento que logo foi preenchido pelos rivais. Foi quando surgiram os Dodge Dart e Polara, os Plymouth Belvedere e Sattelite, o Chevrolet Chevelle, o Oldsmobile Cutlass, os Buick Special e Skylark e, claro o Ford Fairlane.

O Fairlane é mais conhecido pelo público entusiasta por sua versão mais destemperada, o Thunderbolt. Era um projeto especial da própria fábrica para corridas de arrancada, desenvolvido em 1963. Para fazê-lo, a Ford deixou de lado o 289 e instalou o recém-lançado 427 com carburador de corpo quádruplo, admissão do tipo ram-air, e coletor de escape simétrico. Além do motor, o carro tinha sua massa redistribuída pela adoção de painéis de fibra de vidro (capô, portas, para-lamas e para-choques dianteiro), janelas de acrílico e remoção dos carpetes, rádio, estepe e ferramentas, quebra-sol, e até mesmo o braço do limpador do lado do passageiro. Foram feitos pouco mais de 100 destes, que entregavam 680 cv a 7.500 rpm.

Com um modelo desses para inspirar o público, o Fairlane foi um sucesso de vendas e ganhou uma nova geração em 1966, que foi fortemente inspirada pela terceira geração do Galaxie (a mesma fabricada no Brasil), com faróis empilhados e grade dupla — o que também o leva a ser confundido com o irmão maior, especialmente nas carrocerias menos conhecidas por aqui, como este cupê que está na família de Manoel desde 1982.

 

O presente

O Dr. Alfredo, infelizmente, curtiu pouco seu Fairlane. Em 1991, menos de dez anos depois de comprar o Fairlane, o Dr. Alfredo partiu, mas, ciente da reação do genro ao conhecer o carro em 1966, providenciou que o carro fosse deixado para ele após sua partida.

Desde então o carro pertence a Manoel, que o submeteu a uma restauração gerenciada pelo Nelinho da Premium Garage em meados dos anos 2000. Na ocasião, a pintura foi renovada pelo Batistinha com uma variação metálica da pintura original e os bancos refeitos com couro em uma tonalidade azul escura no lugar do vinil azul mais claro original. Mecanicamente, contudo, o carro continua com o mesmo 289, carburador de corpo duplo, diferencial 3,85:1 e câmbio de três marchas.

Agora, imaginem vocês: seu avô era um entusiasta antes de ser legal ser entusiasta. Além do Fairlane, o Dr. Alfredo também tinha um Opel Rekord, um Oldsmobile F85, um Chevrolet BelAir 1956 entre outros. E foi ele o principal responsável por desenvolver a paixão por carros em seu neto Manoel (o filho do outro Manoel).  “Ele tinha paciência de me ensinar os nomes dos carrinhos que eu brincava, ele quem me deu vários livros. Ele tinha como melhor amigo um mecânico, e passava mais tempo lá do que na própria casa”, conta Manoel.

É com ele que o Fairlane mais roda atualmente. Foi com ele que o Fairlane passou por sua última revisão geral, que o mantém sempre pronto para ser usado. “Desde a restauração mantivemos ele sempre em ordem. Na revisão, feita neste ano, o carro ficou zero bala. Está perfeito. Fui pra Santos no Muscle Tour e o carro é um relógio. Pegou chuva, neblina, sol e calor, trânsito etc. Nem se abalou. Arrisco dizer que é nosso melhor carro atualmente“, conta Manoel, o filho, comparando-o aos outros clássicos que mantém na garagem.

A garagem, aliás, conta parte da história da família, guardando também o Opel e o Oldsmobile do Dr. Alfredo, além de um Escort XR3 comprado zero-quilômetro e um par de Fuscas 1973/74 branco Lótus, entre outros carros comprados posteriormente, sem este histórico familiar.

Quanto ao Fairlane, ele é usado regularmente por Manoel — tanto o pai quanto o filho, em um esquema de rodízio organizado para que todos os carros sejam usados. Isso significa que o carro sai ao menos uma vez por mês da garagem. “Todo fim de semana saio com dois ou três, então ele acaba saindo uma vez por mês, pelo menos”, explica Manoel, o filho. “O Fairlane é um carro que eu aprendi a gostar depois de mais velho. Aprendi sobre a história do carro no automobilismo, descobri que ele é muito raro no Brasil e aprendi a apreciar melhor”, completa.

Agora… Manoel, o pai, não tem certeza de que este Fairlane é mesmo aquele que viu novo em 1966. Mas, lembrando o que disse Manoel, o filho, o Fairlane é um carro extremamente raro no Brasil. Quantos Fairlane azuis com bancos de vinil azul foram trazidos para São Paulo em 1966? É um mistério que jamais será resolvido, mas considerando a teoria fantástica de que alguns carros escolhem seus donos, quem apostaria no contrário?

 

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