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Car Culture

Uma viagem na chuva – e dois tipos de motoristas

Todo mundo sabe que dirigir, caminhar, tomar banho e abrir a geladeira são práticas que nos levam a refletir sobre a realidade. Quem nunca foi dar uma volta de carro para dar uma “arejada nas ideias” e encontrou a solução para um dilema pessoal? Como eu havia prometido a mim mesmo no fim de 2021, comecei a dirigir bem mais em 2022 e estou repetindo a prática em 2023 — o que significa que também venho pensando mais sobre as coisas.

Terça-feira passada foi um desses dias em que eu dirigi muito e pensei sobre o que estava à minha frente. Dirigi pouco mais de 370 quilômetros — metade deles sob uma tempestade de verão das boas. E foi aí que comecei a pensar de verdade.

Veja só: o Waze me avisava a cada quinze minutos sobre um radar reportado à frente. Considerando quatro horas de estrada, estamos falando de 16 radares — o que significa que, a cada 25 km, minha velocidade era monitorada para garantir a segurança rodoviária.

Desde que as regras da fiscalização de velocidade mudaram, entre 2021 e 2022, eu não tenho muito o que reclamar dos radares. Eles agora precisam ser visíveis, bem sinalizados, os radares móveis e portáteis não podem ser ocultos, precisam de coordenadas GPS. Ficou mais fácil para o cidadão de proteger contra um eventual abuso das autoridades. E quando o motorista respeita o radar, chegamos mais perto da desejada segurança no trânsito.

O que me provocou uma reflexão, no fim das contas, não foram todos estes radares a cada 15 minutos, mas as condições da viagem de volta, sob chuva. À medida em que o Waze avisava os radares e eu reduzia a distância até a garagem, comecei a observar padrões de comportamentos de parte dos motoristas —  dois comportamentos que isoladamente já seriam perigosos, mas que se complementaram de uma forma indesejável quando a chuva forte começou a cair sobre nossas cabeças.

Os quatro costumes do mau motorista que se acha bom de braço

O primeiro tipo é o mau motorista que se acha bom de braço. Você sabe do que estou falando: já o conhecemos há alguns anos aqui mesmo no FlatOut. Sob chuva, ele pratica os dois últimos estágios que o caracterizam desse jeito: dirigir rápido sob chuva e ser “inultrapassável”. Caso você não lembre, aqui vai a descrição:

Enquanto todos reduzem a velocidade e redobram a atenção, o mau motorista que se acha bom de braço enxerga qualquer rua ou rodovia como o circuito de Donington Park no GP da Europa de 1993. Ele, claro, é Ayrton Senna. Senna era bom de chuva e se diferenciava dos seus rivais debaixo de chuva. Então dirigir bem, para o mau motorista que se acha bom de braço, é dirigir rápido na chuva.

Não importa que a aderência seja drasticamente reduzida, que a visibilidade seja a mesma do espelho após o banho e que até as faixas da sinalização representem um risco para ele. Como Senna, ele afunda o pé e deixa todos comendo poeira. Ou melhor: tomando água. […]

[…] Como ele é o mais rápido nas retas, nas curvas e debaixo de chuva, ele é o cara mais rápido do pedaço. Ninguém o ultrapassa porque ninguém tem o seu talento. Se ele está na faixa da esquerda, ninguém deve passá-lo porque ele é o mais rápido. Se ele está sendo ultrapassado, acelera porque aquele motorista certamente irá atrapalhá-lo na próxima curva. Ninguém é bom como ele.

O problema desse motorista sob a chuva torrencial é que aquele tapa na cara que a realidade sempre acerta na cara dos iludidos. Ele está lá, acelerando como se não houvesse aquele monte de água entre os pneus e o asfalto até que chega a hora de ultrapassar um caminhão, atravessando aquela parede branca de gotículas levantada pelos enormes pneus do cargueiro. Nesse momento, sem saber que não sabe, ele se comporta como o outro tipo de motorista que aparece debaixo da chuva: o inseguro.

Todo motorista tem um certo nível de insegurança. Mesmo os mais experientes. Até os pilotos profissionais, como Fernando Alonso. Ao contornar a Curva 1 de Indianapolis pela primeira vez, ele aliviou o pedal de acelerador instintivamente, mesmo achando que estava com o pé no fundo. Encarar uma chuva forte em uma rodovia com muitos caminhões não parece algo raro, mas certamente não é comum para a maioria dos motoristas.

As tempestades de verão costumam parar as pessoas. A gente sabe que elas são passageiras e, a menos que elas nos peguem no meio do caminho, é sempre melhor esperar alguns minutos ou até uma ou duas horas antes de sair dirigindo e correr os riscos que essas intempéries trazem. Então há muitos motoristas sem experiência na lida com essas condições que acabam com uma grande insegurança ao volante.

Alguns são sensatos: percebem a insegurança e, buscando minimizá-la, vão para as faixas da direita e, com velocidade reduzida, seguem sua viagem ao seu modo. Mas outros, aparentemente, pensam que sua régua pessoal é a medida de todo o mundo. Então você encontra um carro muito mais lento na faixa da esquerda, evidentemente amedrontado pela baixa visibilidade.

O que acontece a seguir varia de acordo com o perfil do sujeito: se for o mau motorista que se acha bom de braço, ele faz a ultrapassagem dele lentamente, com medo do que há à frente, sem saber que uma ultrapassagem destas precisa ser feita da forma mais rápida possível, dentro das condições seguras, e não se importa com quem vem atrás, afinal, se o negócio está ruim pra ele que é bom, imagina pra quem não é.

Se for o motorista inseguro ciente de sua insegurança, é melhor desistir da ultrapassagem e tentar outra hora. Alguns chegam ao ponto de iniciar a ultrapassagem e desistir na metade. Sim: depois de passar 15, 20 segundos emparelhado com o caminhão — a 80 km/h estamos falando de quase meio-quilômetro — ele alivia o acelerador e desiste de ultrapassar o caminhão. Tudo sob a forte chuva e o spray das rodas do caminhão.

Seria fácil chegar a essa altura do texto dizendo com uma relativização rasa do tipo: havia radares por todos os lados, mas todo mundo estava fazendo coisas perigosas abaixo do limite de velocidade. Mas a questão não é essa. O Brasil não conseguiu atingir as metas dos planos de segurança viária para a década passada, apesar de toda a cruzada contra a velocidade inadequada. Quando finalmente parecemos ter resolvido a questão da velocidade, ela causou efeitos colaterais sobre os quais já falamos por aqui.

E enquanto concentramos os esforços no controle da velocidade, a formação dos condutores não evoluiu para melhor. Os simuladores não foram eficazes, o custo da CNH é elevado e a qualidade da formação é baixa — e, de novo, quem diz isso não sou eu, mas o Observatório Nacional de Segurança Viária que, em 2013 já havia dito que a formação de condutores no Brasil é “adestramento” e agora, dez anos depois, continua defendendo a revisão completa do processo de habilitação dos condutores. 

Talvez tenha a ver com a desumanização do automóvel — aquela ideia de que carros são máquinas e não pessoas usando uma máquina —, mas um pouco mais de estrada e rua e menos planilhas e cálculos deixa claro que, independentemente da tecnologia, das normas de segurança, das leis, das máquinas de fiscalizar, o ponto-chave da segurança no trânsito são as pessoas.

Pessoas mais seguras e melhor preparadas, fazem um trânsito mais seguro. Motoristas adestrados… bem… o adestramento serve somente em situações previstas, sob controle. Quando o imprevisível entra em cena o resultado só poderá ser igualmente imprevisível. Como um acidente de trânsito.