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Car Culture

Velozes e Furiosos 7: não há mais volta para a garagem

Existe um fenômeno que abalou a produção musical de artistas como Michael Jackson e bandas como Metallica ao longo do tempo, que chamo de “síndrome de distanciamento da rua”. No começo da carreira destes caras, você tem produções orgânicas, de alto impacto e representatividade de determinados grupos ou cena, e foram elas que catapultaram suas carreiras ao estrelato. E então vem o dinheiro, a fama, os talk shows, as dezenas de produtores para cuidar dos M&M’s marrons aos contratos de aparições em eventos. Os ônibus viram jatos, os hotéis de duas estrelas de beira de estrada viram passado. Os álbuns ficam cada vez mais megalomaníacos, pasteurizados, sem organicidade. O sucesso continua, pois além da legião de fãs, há um verdadeiro Nilo sendo empregado em publicidade, levando no balaio até mesmo gente que apenas tinha ouvido falar. Mas a música não é mais a mesma. Ocasionalmente o artista tenta se copiar, buscando resgatar o seu passado para afirmar “ei, ainda sou o mesmo!”. Mas no fundo, são apenas reações, não ações. Suas performances ao vivo sempre farão sucesso apenas por causa dos grandes hits orgânicos que catapultaram suas carreiras.

Já faz muito tempo que não saio da sala com uma boa impressão da franquia Velozes e Furiosos. Claro, do primeiro filme você pode criticar os dez segundos no quarto de milha que levam cinco minutos, do nitro que causa “perigo ao coletor de admissão” e faz sair voando um pedaço do assoalho (?!), e claro, reclamar do fato de ele ter sido a grande catapulta da personalização exagerada que culminou com o que chamamos por aqui de Xuning.

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Apesar deste lado, existe muito de car culture no primeiro The Fast and The Furious – note que isso se traduz como “o veloz e o furioso”, ou o vencedor e o perdedor – a ponto de ter formado uma legião inteira de autoentusiastas (por outro lado, trouxe muitos turistas): o shakedown de um novo projeto (o Eclipse e o Supra), a constante necessidade de upgrades (“I need NOS….”), a construção por completo de um projeto novo, ainda que resumida (novamente o Supra), as rivalidades entre JDM, muscle e supercarros, a cena dos pegas noturnos (nota: embora um pouco exagerado na quantidade de pessoas e carros, a cena de Los Angeles é bastante parecida com o que foi retratado), um festival de arrancada (Race Wars) e a criação de um mito na série. Tanto Toretto quanto o Hemi Charger 1970 de seu pai eram cercados por uma aura de mistério, misturando o bom e o mau no mesmo personagem. Apesar da trama meio sessão da tarde de “policial disfarçado para se infiltrar na gangue”, o primeiro filme foi bastante feliz ao trabalhar com conflito de valores e mostrar personagens que atuam nas duas esferas: Brian O’ Connor e Dominic Toretto não são vilão e mocinho. São os dois juntos. Essa dualidade é típica dos rachadores.

Acima de tudo, as cenas do primeiro filme possuem uma captação sonora espetacular. Feche os olhos e você se lembrará do ronco do Eclipse sendo testado na frente do estádio, do Honda S2000 humilhando o Jetta e, claro, da arrancada final entre o Supra e o Charger, que teve a genial sacada de não ter trilha sonora: silêncio total, apenas a música mecânica do V8 com supercharger contra o seis cilindros biturbo nitro. Os roncos são reais e as rotações correspondem às cenas. Tudo se encaixa de forma tão bacana que até mesmo os gearheads que acharam o filme meio babaca saboreiam algumas das cenas nas reprises de TV a cabo.

 

Isso dito…

Você sabe para onde foi a franquia. Rob Cohen foi o diretor apenas do primeiro filme. Depois disso tivemos John Singleton (2), Justin Lin (3, 4, 5 e 6) e finalmente James Wan. Lin chegou a apresentar ótimo timing ao retratar a cena dos drifters no Japão em “Tokyo Drift (Velozes e Furiosos 3)”, usando o drift king Keiichi Tsuchiya (leia sua história aqui) como consultor técnico e dublê – o que foi absolutamente essencial. O filme tem vários elementos bacanas pra quem gosta da bagunça (vide clipe acima), mas a verdade é que a partir da quarta parte os carros ficaram em segundo plano de vez.

Em “Fast & Furious” (o quarto filme), o recado foi bem claro: a franquia passou a ser exclusivamente de ação hollywoodiana – explosões, tiros, túneis, saltos e piruetas – e os automóveis, bem, eles estão lá porque precisavam estar. No “Fast Five” (quinto, o do Rio de Janeiro) e no “Velozes e Furiosos 6” (Inglaterra), eles mostraram que podiam ir infinitamente além daquilo, entrando de pé cravado na veia de “Duro de Matar” em termos de acrobacias inimagináveis, presença de equipamentos bélicos pesados e, bem…

Dominic Toretto e o protagonista de Triplo X passaram a ser o mesmo cara – James Bond vira um amador perto dele. Não se trata de cobrar realismo (claro…), mas sim, de constatar que não existe mais volta para o garagismo e o down to the streets do “The Fast and The Furious”. Até porque a própria sequência dos roteiros criou uma bola de neve insolúvel: eles não são mais rachadores anônimos, viraram agentes secretos multimilionários. O erro dos fãs é torcer por algo, qualquer coisinha que seja, com o sabor de 2001. Quem relaxa, senta e espera por um filme de ação bem clichê de Hollywood se diverte bem mais. Seja esse cara.

Se você se perguntar por que escrevi aquele primeiro parágrafo, bem, é para te posicionar em relação a “Velozes e Furiosos 7” – para alguns, um recado óbvio. Existe ainda mais dinheiro injetado, ainda mais produtores, ainda mais efeitos especiais, ainda mais publicidade. O primeiro filme já foi uma produção milionária, mas agora estamos falando de dezenas de vezes mais. A emoção, para os donos da franquia, está ligada à presença do “more” policial: mais explosões, mais porrada, mais músculos, mais bundas, mais acrobacias que vão além da imaginação fértil de um adolescente (com foco na ação policial – os carros são só a plataforma de onde ocorrem os saltos), armamentos ainda mais pesados. A presença de Jason Statham significa que um toque de “Carga Explosiva” foi adicionado à receita, mas mais no lado da porradaria. O resto continua como um mix de “Duro de Matar” e “Triplo X”, com ocasionais inserções de carros bem bacanas – o que inclui mais uma volta do glorioso highlander Dodge Charger 1970, tanto na versão off-road quanto na Pro Touring. É sempre bom vê-lo de volta.

A franquia “Velozes e Furiosos” desaprendeu de vez a falar sobre carros (ok, para a turma da velha escola, nunca falou. Mas volto a dizer: o 1º filme mostra muito do que já foi a cena de L.A…), mas mais do que isso, de como retratá-los na sonoplastia e nos enquadramentos. A única exceção fica no primeiro embate entre os personagens de Vin Diesel e de Statham, mas não espere algo espetacular também. O desaprendizado fica claro pelos poucos pegas que o filme se encoraja a exibir (como a do screenshot abaixo), mostrando personagens e figurantes ainda mais estereotipados (algo que começou já no “+Velozes +Furiosos” – mas amplie a imagem abaixo e veja o público… clipe da Katy Perry?), roncos de motor mais contidos e genéricos e sem conexão com as rotações exibidas e argumentos ainda mais estranhos. Em resumo, o nível está no mesmo da típica perseguição policial de Hollywood.

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Mas, ironicamente, o desaprendizado fica ainda mais escancarado nos poucos pegas que os produtores decidiram não exibir – justamente os que o público mais queria ver, bem ou mal executados, como pude constatar nos comentários que estão rolando em fóruns e afins. Isso mostra a desconexão dos produtores com os fãs da franquia. Outro indício aparece nas tentativas do filme de resgatar suas próprias origens. A primeira impressão é boa e traz sorrisos, mas nos desenvolvimentos destas cenas fica aparente a estereotipação do que já era um estereótipo e a falta do olho de Rob Cohen (o cara do primeiro filme) ou até mesmo de Justin Li, desde que bem assessorado por alguém da área. Bem ou mal, Cohen foi o melhor diretor de toda a franquia.

Mas é claro que o filme não é assim tão ruim. A pancada deste artigo foi apenas para baixar de vez as suas expectativas. Como disse lá em cima, espere por um “Carga Triplo X Explosiva Dura de Matar” e você não irá se decepcionar, ao menos para quem é fã desse gênero de filme de ação extremo. Você verá belíssimos carros – muscles preparados famosos no meio da revista Hot Rod, supercarros e, claro, o Charger 1970 –, dará muita risada com Roman Pearce (Tyrese Gibson), o que aconteceria mesmo se o cara sequer abrisse a boca (e felizmente, ela nunca fecha) e provavelmente terá aquela boa e velha sensação familiar de ver O’ Connor e Toretto juntos novamente, ainda que pela última vez. As sequências de ação – com e sem carros – são bem editadas no sentido da tensão, de forma que o entretenimento está garantidaço.

Como você já deve esperar e ter ouvido falar de amigos, o filme encerra com uma bela homenagem a Paul Walker. Deu para ouvir alguns soluços e suspiros de marmanjos ao lado. No fim das contas, o encerramento do filme é o grande motivador para você ir prestigiar “Velozes 7”: se despedir de um cara verdadeiramente doente por carros, como muitos de nós. O vídeo está aí embaixo. Fica o livre arbítrio do spoiler.

Extra: Veja como foram feitas algumas das cenas mais incríveis de “Velozes e Furiosos 7″

*a imagem de abertura do post exibe o pôster oficial (esquerda) e uma arte feita por um fã (direita), em tributo a Paul Walker

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