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Avaliações Motos

Yamaha XTZ 150 Crosser Z: os primeiros 1.000 km da moto… e do motociclista


Foi em 2006, quando consegui meu primeiro emprego — ainda como aprendiz —, que pensei pela primeira vez em comprar uma moto. Eu tinha 15 anos e sequer iria poder pilotar, mas foi ali que comecei a pesquisar sobre motocicletas, conhecer as fabricantes e segmentos. Volta e meia me pegava visitando os sites das fabricantes para pesquisar os diferentes modelos.

O sonho demorou bastante tempo para se concretizar: só em janeiro de 2020, com quase trinta, fui comprar (ou “tirar”, como se diz aqui no interior) minha primeira motocicleta. Uma Yamaha XTZ 150 Crosser Z – minha porta de entrada para o mundo das duas rodas.

Agora, pouco mais de três meses depois, já rodei mais de 1.000 km com ela. Mas, nesse caso, não são apenas os primeiros 1.000 km da moto – também são os primeiros 1.000 km do motociclista. E acredito que este marco seja um bom momento para falar sobre este começo de relação.

 

Por que a Crosser?

A Yamaha Crosser é uma dual-sport – uma moto de rua, porém com estética e características de moto de trilha, como para-lama elevado, maior vão livre do solo e suspensão com mais curso. Há quem a chame de Trail e, de fato, ela tem uma vocação mais off-road. E foi isto que me atraiu nela.

Como já comentei em outros posts, foi a Yamaha Fazer 250, com sua pegada mais esportiva, que me chamou a atenção primeiro. Contudo, pensando melhor, cheguei à conclusão de que a Fazer sofreria demais nos meus trajetos em pistas de terra. Minha opção seguinte era a Yamaha XTZ 250 Lander, mas seu porte mais avantajado e o motor mais potente me intimidaram um pouco. Não parece, mas ela é consideravelmente maior que a Crosser – ao ponto de tornar a tarefa de subir e descer um pouco incômoda.

Montando na Crosser, senti que entre as opções ela era a que tinha a melhor ergonomia. Seu visual também me agrada bastante, e ela possui alguns itens que considerei importantes – indicador de marchas, que é uma mão na roda para quem ainda está começando a pilotar; e freios a disco nas duas rodas com ABS. A Lander não tem indicador de marchas, e a rival Honda Bros 160 possui apenas freios combinados (CBS). Além disso, o estilo da Crosser me agrada mais que o da Bros – um critério subjetivo, claro, mas que também é válido.

A inexperiência como motociclista também foi um ponto importante na decisão: como muitos, imaginei que uma moto de baixa cilindrada e desempenho mais manso seria o ideal para me acostumar.

 

Design, construção e acabamento

Uma coisa que chama a atenção logo de cara é seu porte imponente. As abas ao lado do tanque de combustível, além de protegê-lo em caso de tombamento, também fazem com que a moto pareça maior do que realmente é – assim como o design frontal, com o para-lama relativamente curto e em dois níveis. As proporções são bem acertadas, e a rabeta com formas bem elaboradas conversa muito bem com a dianteira.

A foto abaixo dá certa noção de como a Crosser se compara com uma moto 125 mais antiga– uma Honda XLR, no caso – da década de 1990.

A Crosser é bem montada, isto é fato. À primeira vista, não parece um modelo de entrada. Os fios e cabos são todos bem escondidos, e a impressão geral é de solidez. Há poucos detalhes que deixam claro se tratar de uma moto de entrada – as carenagens laterais, fixadas com apenas um parafuso e bastante frouxas – em piso irregular, elas fazem um barulho incômodo. Depois de um tempo você se acostuma e entende que elas não vão se soltar sozinhas.

O quadro de instrumentos é um destaque, com conta-giros analógico e velocímetro digital, além de hodômetro parcial, total e relógio. Falta um indicador de temperatura (há apenas a luz espia), mas o painel é bem legível e bonito.

 

No uso

Eu cheguei à conclusão de que estava certo em muitas coisas, mas tive uma impressão errada em outras. A Crosser é, de fato, uma moto bem confortável – com curso de 180 mm na dianteira e 160 mm na traseira (que é do tipo Monocross), ela absorve muito bem as irregularidades do solo e as transmite muito pouco para o condutor. O banco é macio na medida certa e razoavelmente largo, e os apoios para os pés são bem posicionados – dá para ficar horas em cima da moto sem sentir dores nas costas e nas pernas.

A Yamaha Crosser é equipada com um motor monocilíndrico quatro-tempos de 149 cm³ com comando simples no cabeçote, duas válvulas, injeção eletrônica multiponto e capacidade para entregar 12,2 cv a 7.500 rpm e 1,3 kgfm de torque a 6.000 rpm quando abastecido com gasolina (com etanol no tanque são 12,4 cv, à mesma rotação, e torque idêntico).

O motor é acoplado a um câmbio de cinco marchas. É suave e bastante elástico, mas vibra um pouco mais a partir das 6.000 rpm – dá para sentir especialmente nas mãos. O câmbio é bem escalonado para uso urbano e até dá conta do recado em rodovias, mas poderia ter uma relação um pouco mais longa na marcha alta. A 100 km/h em quinta marcha o motor gira a 7.000 rpm, e não foram poucas as vezes em que me peguei tentando engatar uma sexta marcha que infelizmente não existe.

Acredito que, dos cerca de 1.300 km que percorri até hoje, mais de 60% foram rodados em estradas de terra. E a Crosser se sai muito bem sobre a terra batida . A suspensão Monoshock faz um bom trabalho em absorver a maior parte das irregularidades – exceto pelas valetas mais profundas, mas eu também não esperava milagres de uma moto declaradamente de uso misto. No geral, porém, solavancos são raros. Isto acaba te encorajando a reduzir bem pouco a velocidade ao passar sobre lombadas, por exemplo. A sensação de ficar em pé sobre a moto para encarar elevações no piso pode ser levemente viciante, e os apoios para os pés muito bem posicionados praticamente te convidam a fazê-lo.

Os pneus (Metzeler de medidas 90/90/19 na dianteira e 110/90/17 na traseira), entretanto, deixam claro que a motocicleta foi pensada para uso meio-a-meio – sobre o asfalto eles seguram bem, e também fazem um bom trabalho em manter a estabilidade da moto em situações pouco abaixo do ideal, como piso molhado ou cascalho. É evidente, porém, que se trata de uma moto de rua. Sobre uma camada um pouco mais espessa de areia, por exemplo, a Crosser começa a dançar. Nesse caso é até divertido tentar domá-la, mas qualquer descuido pode te levar para o chão. E pneus cravados matariam seu caráter versátil.

Os freios são um ponto forte. Bem responsivos e eficientes, especialmente pelo freio traseiro a disco adotado na linha 2019. O ABS do freio dianteiro entra em ação ao menor sinal de travamento e, em minha inexperiência, ainda não me acostumei com os pequenos solavancos no manete.

Algo que me agradou é que, apesar do porte imponente e do peso relativamente alto (131 kg com fluidos), a Crosser me conquistou pela facilidade de condução. Ela se encaixa muito bem no corpo, faz curvas com agilidade e não é tão alta quanto parece. Me surpreendi com o pouco tempo que levei para dominá-la, embora ainda precise me acostumar com o acelerador meio “on-off”. Em um carro, consigo modular melhor a aceleração, enquanto a motocicleta ainda dá pequenos socos enquanto tento manter uma velocidade baixa em ambientes urbanos.

Não que eu passe muito tempo em ambientes urbanos, mesmo…

Algo que não me agradou muito: o farol. A luz alta tem bom alcance, mas baixa intensidade, e a luz baixa tem boa intensidade, mas o alcance é fraco. Conduzir à noite na cidade não é um problema, mas em rodovias e, principalmente, estradas de terra, o farol baixo simplesmente não é suficiente para dar segurança na condução. Ao menos a linha 2019 trouxe o lampejador de farol – algo que fazia falta na Crosser até então.

 

Conclusão

Como primeira moto, a Yamaha XTZ 150 Crosser faz um excelente trabalho. Sua ergonomia é excelente, a suspensão é confortável e seu visual agrada bastante – aliás, ela chama bastante a atenção. Por seu porte avantajado, geralmente as pessoas perguntam se ela é mesmo uma 150. Seu desempenho, contudo, não deixa dúvida alguma disto.

E esta é a grande questão: com uma curva de aprendizado tão amigável, a Crosser te faz se sentir muito à vontade, muito rápido. E você acaba querendo mais. Isto fica evidente quando se pega rodovias – parece que “sobra moto e falta motor”, e já me peguei algumas vezes me questionando se não deveria ter partido para uma Lander 250 logo de cara.

Isto posto, se você se mantiver no uso proposto pela fabricante – urbano, com ocasionais expedições pela zona rural (ou o contrário, no meu caso), não vejo porque a Crosser não pode ser uma excelente escolha como primeira moto. Mas já aviso: você vai se acostumar rápido. Desejar algo mais forte, porém igualmente ágil e controlável, será inevitável.

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