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A evolução do Acura Integra de Leandro | FlatOut Street


O quadro FlatOut Street se dedica aos carros preparados e customizados estrangeiros e nacionais, de todas as épocas e estilos.
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A teoria da evolução

Toda paixão evolui. Pode ser pela garota que você conheceu por acaso e se tornou sua namorada (e, talvez, esposa), sua profissão e seu trabalho, ou mesmo um simples hobby ou atividade de rotina nas horas de lazer. O tempo e a experiência aprimoram seu gosto pela repetição. Não há ninguém que faça algo diariamente que não faça aquilo minimamente bem-feito. E como cada dia é diferente, a realização apesar das variáveis, acaba nos expondo à uma variedade de situações ímpares. É daí que refinamos o gosto.

Um enófilo de primeira viagem mal sabe diferenciar um vinho verde de um vinho branco — “os dois têm a mesma cor!”, diria ele. Mas depois de 20, 30, 50 garrafas ao longo de dois, três, cinco anos, ele já sabe qual vinho será de seu agrado antes mesmo de abrir a garrafa, apenas lendo o rótulo e assimilando as informações à sua experiência. Vale para whisky, charutos, cervejas, sushi, negronis, massas. Serve também para os esportes — é por isso que os comentaristas são especializados em determinado esporte, mas os narradores nem sempre têm de ser. Serve para os músicos instrumentistas, que acertam o instrumento como um piloto ajusta o carro.

E, já que falamos de carro, serve também para os entusiastas de automóveis, que ao longo dos quilômetros ao volante, descobrem o que gostam e o que não gostam, como acertar um carro, qual marca oferece o que eles procuram etc.

Esse processo acontece com todo entusiasta, e com o Leandro não foi diferente. Foi assim que ele chegou ao Acura Integra.

 

O caminho do oriente

Como tantos entusiastas dos últimos 40 anos, Leandro começou a pegar gosto pelos carros ainda em frente à TV, amarrado a ela pelo fio do controle remoto dos video-games, o primeiro volante que controlamos. Já adulto, ele pegou a onda entusiasta da virada dos anos 1990 para os anos 2000, que foi impulsionada principalmente por “60 Segundos” e “Velozes e Furiosos”. Este último, em especial, foi um divisor de águas. Pela primeira vez tínhamos na tela da TV carros mundanos e uma cena cultural de entusiastas como aquela que formávamos nos encontros de postos e praças daqueles tempos offline.

Dali também surgiu a cultura tuning, uma febre mundial que formou outro tanto de entusiastas. Leandro não poderia resistir a ela, ainda que tivesse um modesto Chevrolet Celta. Foi a bordo do compacto Chevrolet que descobriu o prazer de dirigir além da velocidade. A dinâmica do carro, o refinamento da tocada, o controle sobre a máquina. E foi ali que decidiu que precisava de algo com mais potência que os sessenta e poucos cavalos do Celta.

Entra em cena o Civic sedã EJ, 1999, com o motor D16 de 106 cv, um modelo modesto mesmo para a época, mas com quase o dobro da potência do Celta. E ainda que não fosse dos modelos mais empolgantes de sua época, o sedã foi suficiente para conduzir Leandro para dentro do universo da Honda.

Com o Civic ele conheceu os fóruns de Honda, aprendeu tudo sobre os códigos de carrocerias e motores e quais combinações de letras e números eram melhores e mais interessantes. Descobriu que seu Civic mais potente nem era assim tão potente porque era um D16, e não um B16. Mesmo assim foi com ele aos track days e decidiu que queria mesmo um Honda ainda mais potente.

Trocou o sedã por um Vai EG6, agora sim, com o motor certo, o B16 de 160 cv. Depois veio o EJ8 cupê, que estava pronto para ganhar um compressor de polia quando um amigo, o Paolo, começou a influenciá-lo. O amigo decidiu que teria um Acura Integra e, com a ideia fixa, começou a busca que parecia impossível — afinal, quantos Integra foram vendidos no Brasil? Sua importação era proibida até 1990 e a Honda nunca o ofereceu oficialmente por aqui.

Mas Paolo achou o carro. Um modelo que, curiosamente, foi trazido em 1994 por uma autorizada Honda. O carro já havia rodado o Brasil inteiro nas mãos de diversos proprietários, não estava em bom estado, mas era um dos raros Integra no Brasil. Só que Paolo precisava de uma ajuda do amigo para comprá-lo. Leandro, agora um hondeiro inveterado, ofereceu a ajuda com uma condição: “Quando você vender o carro, a prioridade é minha”, disse ao amigo.

 

O Honda Integra

O passado da Honda está repleto de cupês de todos os tipos. Desde o diminuto Beat até o luxuoso Legend, se há uma marca que fez cupês com muito gosto, esta marca foi a Honda. No Brasil os mais conhecidos são as versões cupê do Civic de quinta e sexta geração, o Accord Coupé e, claro, o Prelude — todos produzidos durante os anos 1990. Lá fora, o leque era ainda maior, porque havia uma outra alternativa de cupê da Honda: o Integra.

Lançado originalmente em 1985, o Integra nasceu como uma alternativa mais luxuosa e esportiva ao Honda Civic de terceira geração, e era vendido pela rede de concessionárias Honda Verno. Aqui vale uma explicação: na época, durante os anos 1980, as fabricantes japonesas, que até então eram vistas como produtoras de carros econômicos e de baixo valor de compra, decidiram investir em modelos mais luxuosos e criaram canais de venda exclusivos para estes modelos de topo. Essa estratégia acabou evoluindo para as marcas de luxo japonesas que conhecemos atualmente e surgiram nos EUA também nos anos 1980. A Nissan/Datsun criou a Infiniti, a Toyota fez a Lexus e a Honda criou a Acura.

É por isso que o Honda Integra foi lançado nos EUA como Acura Integra: como ele era oferecido originalmente na forma de sedã de quatro portas, hatchback de cinco portas e cupê de duas portas, e era baseado na mesma plataforma do Civic, a marca Acura foi usada para diferenciá-lo imediatamente do irmão mais espartano — e foi assim que ele acabou conhecido por todo o mundo.

Mas foi somente em sua terceira geração, lançada em 1993 e equipada com a família de motores B, com e sem VTEC, que o Integra se tornou um sinônimo de esportividade — tanto que ele é mais reconhecido na versão cupê do que na versão sedã de quatro portas, que ainda era oferecida ao longo dos anos 1990. Isso se deveu principalmente à grande novidade desta nova geração: o Integra Type R.

O Integra Type R foi a criação de um novo patamar de desempenho entre os modelos compactos da Honda. Um esportivo que o Civic (ainda) não tinha o direito de ser. Lançado inicialmente apenas no mercado interno japonês (JDM), ele usava uma derivação de 200 cv do motor B18C combinada a uma transmissão manual de cinco marchas “close ratio” e diferencial de deslizamento limitado.

Além disso, ele tinha reforços no monobloco com pontos extras de solda e chapas mais espessas nos pontos de fixação da suspensão traseira e no subchassi. Para compensar o peso extra, ele perdia 10% do isolamento acústico e usava rodas de liga super leve e para-brisa com menor espessura.

A estrela, contudo, era mesmo o motor B18C. Corte em 8.600 rpm, montado à mão com dutos polidos e equalizados (também manualmente), pistões para maior taxa de compressão, trem de válvulas exclusivo, fechando com um sistema de admissão e escape redimensionados.

Após a migração para os EUA e Reino Unido, o carro se consagrou como um sucesso instantâneo e foi aclamado pela imprensa da época nos dois lados do Atlântico. O esportivo também foi um sucesso de público, especialmente depois que, fora de linha, começou a ser usado pelos entusiastas em competições de pista e arrancada — o que o ajudou a ser elencado na franquia “Velozes e Furiosos”.

Foi justamente onde Leandro foi apresentado ao potencial dos modelos Honda, algo que o levou ao Acura Integra — e à inspiração no Type R.

 

Com qual dos três?

Enquanto Paolo comprava o Integra, Leandro mantinha seu Civic Coupé e havia encontrado uma outra raridade Honda para colocar na garagem: um CRX de segunda geração. Não o CRX del Sol, o conversível de dois lugares. O CRX CRX mesmo, o cupê do Civic de quarta geração, que fez sucesso nos EUA, mas nunca veio ao Brasil. O carro precisava de uma recuperação completa, mas aos poucos, voltaria à sua glória oitentista como se os trinta e poucos anos de estrada tivessem sido rodados apenas em finais de tarde ensolaradas sobre o asfalto mais perfeito.

O que Leandro não esperava é que Paolo acabaria decidindo vender seu Integra mais rápido do que ele imaginava. Paolo precisava vender o carro e Leandro, novamente, estendeu a mão — agora com dinheiro para comprar o carro e se tornar o proprietário de três cupês clássicos da Honda.

O Civic EJ8, àquela altura, já estava na oficina, a Way Motorsport, especializada em modelos Honda, para o reparo do virabrequim quebrado. O Integra, que não estava em seus melhores dias — longe disso, ele mal rodava —, também foi para o elevador.

O carro estava com o câmbio quebrado, com rodas de aço estampado, documentação atrasada, suspensão e freios implorando por uma renovação. Era um carro com potencial, mas que precisava de um proprietário dedicado e, mais que isso, experiente. Não é um carro para iniciantes, dada sua raridade.

Mal havia o Integra chegado à oficina, e um reviravolta trágica acontece à história do carro: Márcio Mastroianni, o proprietário da Way Motorsport, sofre um infarto e não resiste, deixando a comunidade de entusiastas em luto e um trabalho inacabado.

Leandro inicialmente fica perdido. O que fazer? Era o único profissional em quem ele confiava para entregar seus valiosos Honda.

Depois de retirar os carros da oficina e encontrar um lugar para eles, Leandro decidiu o que faria: venderia o Cupê EJ8, ficaria com o CRX e o Integra, e terminaria os dois por conta própria — um novo patamar em sua relação com os modelos Honda, e uma prova de que já havia acumulado experiência suficiente para encarar a empreitada.

 

Transformação integral

O Integra de Leandro é um GS, um modelo sem pretensão esportiva, apesar da sigla para “Grand Sport”, porém com um excelente B18 de 142 cv sem o sistema VTEC. Como dito anteriormente, o carro estava com o câmbio quebrado — o câmbio automático original. Havia ficado cinco anos parado e tudo, absolutamente tudo, precisava de algum tipo de cuidado mínimo. Desde o motor, que exigia uma revisão urgente, até as buchas da suspensão, ineficazes.

Em maio de 2017 Leandro começou o trabalho separando as peças que já tinha, oriundas do Civic EJ8, com quem o Integra compartilha muitos componentes. O EJ8, aliás, fora um dos estágios de aquisição de experiência de Leandro: o carro era originalmente automático, e Leandro fez o swap de câmbio por conta própria. Como o Integra também usava um motor da série B, bastava repetir o processo no novo carro antigo.

Paolo já havia comprado o câmbio e os componentes de instalação da nova transmissão, então Leandro começou por ali — fazendo a linha hidráulica da embreagem, inclusive. Em duas semanas o carro rodou pela primeira vez em cinco anos. Ainda não estava pronto, claro. Era preciso fazer todo o resto, mas Leandro conseguiu terminar a parte mais importante.

As etapas seguintes consistiram na recuperação da suspensão e dos freios. O carro passou a ser suspenso por amortecedores Koni e as articulações da suspensão se apoiam em buchas R Flex. Vários componentes foram reaproveitados do EJ8, como o sistema Hondata e elementos da suspensão e freios — estes agora usam pinças do Integra Type R com discos de Mini Cooper, e o sistema hidráulico é formado por mangueiras Aerokip.

Depois do motor, suspensão e freios, Leandro instalou rodas Rodera Euro de 17 polegadas, inspiradas na OZ Futura, e voltou sua atenção ao interior do carro, instalando os bancos do Type R e a alavanca de câmbio K-Tuned com altura ajustável.

 

Uso não, apreciação

O carro ficou pronto em 2019 e nunca foi planejado para ser usado diariamente ou para trivialidades como ir ao trabalho ou a compromissos do dia-a-dia. Lembre-se: paixões evoluem e, no caso dos pequenos prazeres da vida, elas devem ser apreciadas.

Como uma garrafa de um vinho especial, ou um momento a sós em boa companhia, o Integra é apreciado. Dirigido apenas por prazer, com a cabeça e as ruas vazias. “Saio com o carro mais aos fins de semana mesmo, ou quando meus filhos pedem para passear com ele. Visito a família, vou ao mercado ou às vezes saio somente para dar uma volta na cidade”, explica Leandro, depois de montar com as próprias mãos, e com sua própria experiência, o carro que escolheu a dedo por ser um conhecedor desta arte. É o auge da paixão pelos carros, não?

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