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Car Culture História

A história esquecida dos hot hatches da Toyota

A percepção da Toyota entre os entusiastas mudou nos últimos anos. Claro, todos conhecem carros como o Celica e o Supra, que fizeram história nas pistas e nas ruas. Muitos se recordam com carinho do incrível GT-One, que é admirado por toda uma geração por causa de Gran Turismo. E uma porção de gente sonha com o GT86, sucessor espiritual do AE86 e um dos últimos esportivos à moda antiga que sobraram com seu motor boxer Subaru, tração traseira e câmbio manual de série (automático é opcional, claro, mas não vemos muito sentido se a ideia é resgatar uma experiência mais analógica) ao volante.

Isso tudo é ótimo – e muito justo, já que hoje em dia é a Toyota quem faz um dos hot hatches mais fodásticos do mundo: o GR Yaris, monstrinho com tração integral, carroceria extremamente alargada e um motor três-cilindros turbo de 1,6 litro, 261 cv, 36,7 kgfm de torque e tração nas quatro rodas.

O fdptamente insano Toyota GR Yaris: 4×4, torque de Golf GTi, motor recuado – para as ruas!

Seu desenvolvimento foi beneficiado pela ótima campanha da Toyota no WRC nos últimos anos, com um título no campeonato de construtores em 2018 e dois títulos de pilotos em 2019 e 2020, conquistados pelo estoniano Ott Tänak e pelo francês Sébastien Ogier, respectivamente. A experiência adquirida nos ralis ajudou a Gazoo Racing, atual divisão esportiva da Toyota, a definir a configuração e o acerto do GR Yaris.

Uma vez que se aceita que os hot hatches dificilmente serão os carros compactos, ultra leves e 100% orgânicos que foram um dia, fica difícil não se encantar pela ideia do GR Yaris. O monstrinho tem menos de quatro metros de comprimento (3.995 mm, para ser exato), mede 1,80 de largura, tem entre-eixos de curtíssimos 2,56 m e, com 1.280 kg em ordem de marcha, é relativamente leve – 120 kg a mais que um Sandero RS, por exemplo, mas com uma vantagem de 111 cv em relação ao Renault. Quem já dirigiu o carro só fala maravilhas – Angus McKenzie, da Motor Trend, garante que o GR Yaris é a melhor coisa para guiar depois do próprio carro de rali. Isso diz muito.

Mas não diz que o GR Yaris passa longe de ser o primeiro hot hatch da Toyota, embora os esportivos da marca sejam tradicionalmente cupês. O GR Yaris é apenas o último representante de uma linhagem que tem décadas e começou lá nos anos 1970, com o pequeno Starlet.

As nomenclaturas das fabricantes japonesas são sempre complicadas, mesmo: o Starlet, lançado em 1973, foi substituto do Publica, conhecido como primeiro carro popular da Toyota. Por isso, na primeira geração ele foi vendido como Toyota Publica Starlet – e estava disponível na rede especial Toyota Corolla Store, vendido ao lado do Corolla. Em 1999 ele foi substituído pelo Toyota Vitz (abaixo), que, dependendo do mercado, também é chamado Echo… ou Yaris.

E é do Starlet a honra de ser o primeiro hot hatch da Toyota. A versão apimentada foi lançada na segunda geração, já sem o nome Publica. Não era um foguete, claro – mas o Starlet Si, como foi chamado, tinha o motor mais potente da linha: o 4K, quatro-cilindros de 1.290 cm³ e 65 cv, que a partir de 1982 ganhou injeção eletrônica e passou dos 70 cv. Com menos de 700 kg na balança, suspensão MacPherson na dianteira, um sofisticado arranjo DeDion na traseira e entre-eixos de minúsculos 2,30 m, o Starlet Si conseguia divertir em uma estradinha cheia de curvas, mesmo o zero a 100 km/h levasse quase 13 segundos.

Demoraria mais alguns anos, porém, que a Toyota fizesse um hot hatch de verdade. Ele veio na geração seguinte do Starlet, código P70, em 1986. Era o Starlet Turbo S, que tinha um motor 1.3 turbo chamado 2E-TELU e dispunha de respeitáveis 110 cv. Não é muito hoje mas, novamente, era um carro levíssimo, com 750 kg.

Ele trazia um salto e tanto em relação ao anterior: o Starlet Turbo S já ia de zero a 100 km na casa dos 9 segundos baixos. E, talvez um ponto crucial para que ele seja considerado um hot hatch: ele fazia questão de mostrar que era diferente dos outros Starlet, com um conjunto aerodinâmico consideravelmente mais chamativo que, mesmo discretamente, trazia inspiração nos Silhouette que competiam em provas de turismo na época.

Mas o Starlet turbinado ficou ainda melhor em 1980, quando veio a geração P80 – que passou a ser chamada GT Turbo. Um carro visivelmente mais moderno, maior e com formas mais arredondadas, o Starlet GT Turbo continuava com um motor 1.3 turbo, mas agora o deslocamento era arredondado para baixo: 1.331 cm³ no total.

O motor era o 4E-FE, que entregava 135 cv a 6.400 rpm e exatos 16 kgfm de torque e levava o carro até os 100 km/h em 8,2 segundos. Apesar de ter crescido e engordado um pouco, o Starlet GT Turbo ainda seria um peso-pena nos padrões de hoje, com 890 kg. A relação peso-potência de 152 cv/tonelada também não faria feio em 2021.

O auge do Starlet enquanto hot hatch foi a geração P90, quando estreou o Starlet Glanza. O P90 acabou sendo o último Starlet, mas caprichou com sua versão esportiva. Havia a versão aspirada, chamada Glanza S, com um motor de 1.331 cm³ e 85 cv; e o Glanza V, com motor turbo 4E-FTE de 140 cv – o bastante para que ele fosse de zero a 100 km/h em 8,2 segundos.

Esses carros, não por acaso, por vezes são mais populares em outros países de mão inglesa que no próprio Japão – graças à robustez, o motor do Starlet é bastante popular em projetos de preparação turbo, rendendo-lhe a alcunha de “Honda killer”.

Àquela altura, porém, a Toyota já havia feito outros hot hatches. Um deles até foi mencionado acima: o AE86, também conhecido como Hachi-Roku (a pronúncia em japonês de “8-6”), que foi o último Corolla de tração traseira.

 

Você já deve saber que o AE86 foi lançado em 1986, nas variantes Corolla Levin e Sprinter Trueno. Ambas eram o mesmo carro, com exceção da dianteira que, no Trueno, tinha faróis escamoteáveis. O motor de ambos era o 4A-GE da Toyota, um avançado quatro-cilindros 1.6 com comando duplo no cabeçote e quatro válvulas por cilindro.

Com 130 cv, era mais potente que muitos motores de configuração similar feitos anos depois. Com tração traseira, suspensão simples e bem acertada, o AE86 foi criado para ser um esportivo das massas e conseguiu: nos países onde foi vendido, ele está entre um dos project cars mais populares. E um dia foi barato: hoje a demanda supera muito a oferta e esses carros estão mais valorizados do que nunca.

Há uma razão boa e simples para que o AE86 não seja lembrado como hot hatch: o formato da carroceria. Ele teve versões hardtop de três volumes e cupê fastback – que tecnicamente era um hatchback mas, com a tampa fechada, parecia um cupê de fato. É pela mesma razão que não chamamos a Ferrari 812 Superfast, o Porsche Cayman, o Mercedes-Benz AMG GT ou os próprios Toyota Celica e Supra de hot hatches, embora eles tecnicamente sejam hatchbacks de duas portas. E sejam hot pra caramba.

Mas, se o AE86 foi o último Corolla de tração traseira, ele não foi o último Corolla hot hatch: em 1989, para fechar a geração E90 (a sexta desde o lançamento em 1966), a foi lançado o Corolla GTI 16v – sim, a lendária sigla Grand Touring Injected. Enquanto o AE86 é o Corolla famoso de Initial D e dos vídeos da Best Motoring, o Corolla GTI 16v está mais para clássico cult.

Apesar da tração dianteira, ele não fazia feio. Parecia um Starlet P90 um pouco maior, e vinha com o mesmo 4A-GE do AE86, porém instalado na posição transversal. Seus 120 cv e 14,8 kgfm de torque garantiam que ele fosse de zero a 100 km/h em 8,5 segundos, com máxima de 195 km/h.

E ele nem era o Corolla mais forte dessa geração: a versão GT-Z, que era um cupê de três volumes, ganhou o motor 4A-GZE, com supercharger e 165 cv. Pena que ele não pode entrar para essa lista.

O Corolla GTi foi o último hot hatch da Toyota depois de um longo hiato. O que chega a ser irônico pois, em 1999, o Toyota Corolla WRC tornou-se campeão do WRC. Porém, apesar de merecer muito uma série especial de homologação, o Corolla WRC foi só foi possível depois que a FIA eliminou a regra que exigia especiais de homologação no Mundial de Rali – e animou a Toyota a desenvolver um sistema de tração integral exclusivamente para correr no WRC.

Lendas do WRC: quando o Toyota Corolla largou o escritório e se tornou campeão do Mundial de Rali

O que nos traz de volta ao começo.

O GR Yaris e sua versão de rua simbolizaram um retorno da Toyota aos hot hatches, à elite dos ralis e aos esportivos com pedigree de competição. E ele pode, em breve, emprestar seu motor 1.6 turbo – que é o menor e mais leve motor com essa configuração e deslocamento no planeta, de acordo com a Toyota – a um novo Corolla hot hatch, baseado na atual geração (que, convenhamos, está muito mais atraente e sofisticada que a anterior). O possível GR Corolla terá os mesmos 261 cv que o irmão menor, visual com a mesma inspiração nos ralis, e tem potencial para ser um hot hatch mais maduro e refinado no rodar.

Caso venha a se tornar realidade, o GR Corolla também poderá ser um sinal de que, diferentemente de muitas outras fabricantes, a Toyota não enxerga a proibição de carros novos com motor a combustão em 2030 como um fato consumado. Em entrevista recente à britânica Car Magazine, o vice-presidente executivo de vendas na Toyota, Matt Harrison, esclareceu alguns pontos interessantes – ele diz que vê um futuro 100% elétrico como algo que “está a um longo caminho adiante”, mas que, se ocorrer de fato, tem certeza de que a fabricante pode “se adaptar conforme necessário.” Ao mesmo tempo, a fabricante segue investindo bastante em híbridos plug-in e formas alternativas de propulsão, como as células de combustível de hidrogênio.

Se um mais um hot hatch com o belíssimo motor 1.6 de 261 cv do GR Yaris está nos planos, tudo bem por nós. Siga honrando seu legado, Toyota.