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Car Culture FlatOut Revival

A verdadeira origem da chave no lado esquerdo dos Porsche


Já dizia certo filósofo espanhol que o maior dos tesouros humanos é a tradição. Animais podem ser inteligentes, mas somente os humanos podem passar adiante toda a experiência de uma longa vida para as próximas gerações. A tradição mantém vivo o passado no futuro e, embora pareça contraditório, nos empurra para a evolução. Sem essa transmissão (que é justamente a origem da palavra) recomeçaríamos do zero cada vez que um novo ciclo iniciasse. Imagine se cada humano que nascesse, tivesse que redescobrir tudo o que seus ancestrais descobriram ao longo de séculos?

Isso se aplica também aos carros. Cada elemento tradicional presente em um carro fabricado em 2021 simboliza sua história, os feitos e acontecimentos que trouxeram seu fabricante até aqui. Tudo o que a fabricante sabe sobre como produzir carros, é sua tradição.

A Porsche, por exemplo, que faz questão de manter o motor “pendurado na traseira” do 911 como uma característica da marca porque ela acumulou 50 anos de conhecimento, aprendizado e desenvolvimento desta configuração. Mudar isso é recomeçar do zero. É muito além de apenas manter uma relação direta com o modelo que começou toda sua história, o 356.

O Porsche 911 se tornou mesmo um esportivo enorme e pesado ao longo dos anos?

Os engenheiros e executivos da marca sabem que um motor à frente do eixo tornaria o carro mais equilibrado — tanto que ainda em sua primeira década de história ela fez o 550 Spyder com esse layout. Mas ao longo dos anos a marca manteve a tradição do motor traseiro e evoluiu sobre ela. Hoje o 911 em suas versões mais potentes é o que chamamos de supercarro. São carros equilibrados, que vencem corridas, que andam na frente dos seus rivais. Toda a bagagem histórica da Porsche está contida naquele motor pendurado na traseira.

E isso nos traz ao verdadeiro tema deste post, a outra velha tradição dos Porsche: a ignição no lado esquerdo. Sua história é bem menos conhecida que a do motor traseiro.

Os primeiros Porsche da história não eram alemães nem tinham a chave na esquerda. Eles foram fabricados na Áustria entre 1947 e 1950, durante o exílio de Ferdinand Porsche, e tinham a ignição na parte central do painel.

356 “Gmünd”: os primeiros Porsche produzidos em série não eram alemães

A Porsche diz que a ideia de usar a chave no lado esquerdo veio das corridas, mais exatamente das largadas estilo Le Mans, na qual os carros ficam alinhados a 45 graus em relação à pista, e os pilotos ficam no outro lado da pista. Ao ser dada a largada, eles devem correr, entrar no carro, ligar o motor e arrancar. A chave na esquerda, supostamente, permite que os pilotos entrem no carro, deem a partida com a mão esquerda enquanto engrenam a marcha com a direita.

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Só que… essa vantagem é questionável: por que não parar o carro engrenado e dar a partida apenas desacoplando a embreagem?

Além disso, apesar de a Porsche mencionar a tradição de Le Mans, não foi a Porsche que inventou a chave no lado esquerdo para Le Mans. A própria marca reconhece que a ignição na esquerda é usada desde a década de 1920.

Nessa época os engenheiros de corrida já tinham percebido as vantagens de se ter a partida no lado esquerdo e Ferdinand Porsche era um deles. Os Mercedes SSK dos anos 1920 e 1930, que foi projetado por ele, tinham o cilindro de ignição na esquerda nos carros com o volante à esquerda, e no lado direito no carros com volante na direita — ou seja: sempre na mão oposta à do câmbio.

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A Porsche só daria as caras em Le Mans três décadas depois, na edição de 1951. A fabricante pegou dois Porsche 356 feitos em Gmund, que tinham carroceria de alumínio, fez algumas modificações, rebatizou os carros como 356SL e os alinhou em La Sarthe no dia 23 de junho daquele ano. Só que a posição da chave de ignição não estava entre estas modificações: sendo modelos Gmund, a ignição ficava na parte central  do painel, acima da alavanca de câmbio.

Porsche 356 SL “Gmund Coupé”: o primeiro Porsche a vencer sua categoria em Le Mans

À primeira vista isso significa que a ignição na esquerda estreou na edição seguinte de Le Mans, porém em 1952 os 356SL que a Porsche levou à França também eram Gmunds, com a chave na parte central do painel. O primeiro Porsche a correr em Mans com a chave na esquerda não foi um modelo, mas dois: o Porsche 550 Coupé, e um 356 SL 1953, que disputaram as 24 Horas de Le Mans de 1953.

Dilema resolvido. É nestes dois Porsche que está a origem da tradição, certo?

Bem… na verdade, não.

Em 1950 a Porsche voltou para a Alemanha e se instalou em Zuffenhausen onde os 356 voltaram a ser fabricados em 1951. Na mudança de casa, contudo, o 356 passou por algumas modificações e, entre elas estava o novo painel. Com o redesenho do interior a porção central ganhou um rádio e a ignição foi deslocada para a extremidade do painel, à esquerda da coluna de direção.

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Isso significa que antes mesmo da Porsche pensar em disputar Le Mans seus carros de rua já tinham a ignição na esquerda. Não só isso: os primeiros carros de corrida da Porsche com a ignição na esquerda surgiram naquele mesmo 1951, das 17 corridas que a Porsche participou naquela temporada, somente as 24 Horas de Le Mans tiveram largada ao estilo Le Mans. Nas outras 16 a posição da ignição não faria diferença alguma na largada.

Neste 356 1952, que disputou a Mille Miglia, a ignição já está no lado esquerdo. A Mille Miglia tinha largada por horário fixo (3:14 nesse caso, como indica seu número) e aconteceu 41 dias antes de Mans

Mas antes que você pense que a Porsche está mentindo, vale voltar na afirmação da marca, desta vez, retirada de sua página oficial:

A Porsche e o automobilismo são virtualmente inseparáveis. A tradição da Porsche em décadas de automobilismo sempre formou uma parte intrínseca da marca. A mão esquerda liga o motor: já em 1925 o posicionamento do interruptor de ignição à esquerda da direção permitiu que os pilotos ligassem seus motores mesmo quando ainda estavam terminando de entrar no carro na largada do pit wall em Le Mans. E quando algo funciona bem, nós mantemos daquele jeito”. 

O trecho nos parece claro: sim, a origem da ignição canhota da Porsche está nos carros de Le Mans, mas não nos Porsche de Le Mans. Seus carros de rua é que foram influenciados por um velho hábito dos corredores de Le Mans no início do século XX. Mas não se engane: isso não tira o valor da tradição, afinal, com exceção dos modelos desenvolvidos em parceria com a VW (914, 924/944) e do 356 Speedster, todo Porsche fabricado depois de 1951 — incluindo os carros de Le Mans — têm o cilindro de ignição no lado esquerdo.

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