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FlatOut Classics & Street

Alexandre e seu Mercedes-Benz C280 Lorinser | FlatOut Classics

O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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Solvitur dirigendo

Embora seja uma máquina criada para nos transportar com eficiência entre dois pontos de interesse, o automóvel provoca sensações que estimulam diretamente o sistema límbico do cérebro, a região responsável pelas emoções. Como uma caminhada que esfria a cabeça e clareia o raciocínio, uma volta de carro despretensiosa pode trazer à tona emoções e memórias afogadas pela racionalidade do dia-a-dia.

É por este motivo que muitos entusiastas são formados ainda durante a infância: a associação do prazer a um passeio de carro – que, para uma criança é relacionado às descobertas — justamente em uma fase de formação da personalidade, a primeira infância, cria uma marca permanente na memória, sempre evocada quando tais sensações são provocadas. É o mesmo mecanismo da nostalgia, que consiste simplesmente nas memórias agradáveis de um passado idealizado.

Alexandre tinha cinco anos quando ganhou seu primeiro carro: um Mercedes-Benz da Matchbox, que ao longo dos anos acabou despertando pela marca alemã um interesse que se tornaria uma grande admiração. Uma admiração que se tornou paixão nos anos 1990, quando a Mercedes lançou no Brasil a segunda geração de sua Classe C, o modelo W202. Separado de sua paixão pela cotação do Deutsche Mark, aquele C280 era um sonho distante. Mas… dizem que o tempo resolve, não?

 

Questão de classe

Lançado no final de 1993, o W202 foi o primeiro modelo de uma nova era da Mercedes-Benz. A partir daquele ano a marca abandonou a segmentação por números e começou a dividir seus automóveis oficialmente por classes. Toda a linha a partir do ano-modelo 1994 passou a ser designada pelas classes C, E, S, CL ou SL, mas somente o W202 havia nascido com o nome Classe C — os demais, lançados antes daquela mudança, foram rebatizados.

O W202 também consolidou a linha de entrada da marca e marcou a posição da Mercedes no embate com o BMW Série 3. Os antigos motores de comando simples usados em seu antecessor, o W201, foram aposentados em favor de uma nova família modular derivada do V8 M119. Havia o quatro-cilindros M111, com deslocamento de 1,8 litro até 2,3 litros, com ou sem compressor de polia; e havia o seis-em-linha M104, sempre com 2,8 litros. Os dois tinham bloco de ferro fundido, cabeçote de alumínio com quatro válvulas por cilindro e comando de válvulas duplo e variável na admissão.

Já naquele primeiro ano, o W202 também foi escolhido para ser o primeiro AMG oficial desenvolvido sob o comando da Daimler-Benz. Embora ainda não fosse proprietária da preparadora, o processo de aquisição pela Daimler já estava em andamento por meio de um acordo de cooperação que duraria até 1998, quando ocorreu a compra de 51% da AMG. Desta forma, os novos modelos AMG já eram oficialmente as versões esportivas da marca, vendidas e reparadas pela rede de autorizadas em todo o mundo.

Na época a construção dos esportivos ainda era feito à moda antiga: a AMG recebia os modelos prontos saídos da linha de produção e os modificava em sua sede em Affalterbach, a cerca de 25 quilômetros de Stuttgart, onde os carros eram fabricados. Para a criação do C36, a AMG usava como base a única versão seis-cilindros do W202, o C280.

Em Affalterbach, o C280 (sempre da versão Sport) ganhava bancos exclusivos, volante com revestimento próprio, quadro de instrumentos modificado, um bodykit composto por para-choques esportivos, saias laterais e, opcionalmente, um spoiler traseiro, suspensão esportiva, freios maiores, rodas AMG de 17 polegadas, lanternas escurecidas, uma nova grade frontal e, claro, a modificação do motor que aumentava o deslocamento de 2,8 para 3,6 litros, elevando a potência de 193 para 280 cv.

Apesar do câmbio automático de quatro marchas — o que o impediu de concorrer em igualdade com o BMW M3 — o carro ia de zero a 100 km/h em 5,8 segundos e chegava aos 272 km/h caso o programa limitador fosse desabilitado. Tão veloz quanto raro, ele teve somente 5.200 unidades produzidas para o mundo inteiro. O que torna um exemplar deste uma verdadeira preciosidade no Brasil. Ou uma pequena confusão.

 

AMG?

Depois de ter alguns carros antigos e se ver finalmente em condições de realizar o sonho de seu W202, Alexandre começou a procurar um exemplar para colocar na garagem. Entre vendedores duros de negócio e bombas-relógio sobre rodas, Alexandre certo dia foi avisado por um amigo sobre um exemplar a venda em Ourinhos/SP e foi verificar do que se tratava.

O carro estava em uma concessionária Hyundai, que o estava vendendo como um C36 AMG, porém nem mesmo o gerente de vendas sabia explicar do que se tratava aquele C36 AMG sem motor AMG, nem personalização da AMG. Alexandre contudo, percebeu na hora que se tratava de uma C280 com um raríssimo kit Lorinser.

Na época, o caráter oficial da AMG e as ousadias da Brabus colocaram as duas à frente da Lorinser nas opções do público entusiasta. Ainda que seja relativamente comum na Alemanha, sua vinda para o Brasil é tão improvável quanto intrigante: quem importaria um conjunto tão desconhecido quando a própria Mercedes vendia o conjunto AMG como acessório?

É uma resposta que Alexandre jamais encontrou, mas é possível que alguma concessionária de grande volume de vendas tenha aproveitado a cotação favorável à nossa nova moeda naquele distante 1995 e oferecido o conjunto a algum cliente interessado em um visual menos comportado para sua C280 Elegance.

Após negociar um valor justo, Alexandre fez a transferência e levou o carro para casa dirigindo pelos 350 quilômetros que separam Ourinhos de Osasco. O sonho fora realizado.

 

Alternativas

O sucesso da AMG nos anos 1970 inspirou dezenas de outras concessionárias e oficinas a desenvolver seus próprios programas de personalização e preparação para os Mercedes. Foram realmente dezenas — alguns de gosto duvidoso, que acabaram esquecidos em algum lugar do passado; outros tão bem-sucedidos que estão por aí até hoje.

É o caso da Lorinser.

Fundada em 1930, em seus primeiros 45 anos ela foi uma das maiores concessionárias Mercedes-Benz da Alemanha. Em 1976, além de comercializar os carros e fornecer assistência técnica autorizada, a Lorinser também passou a oferecer serviços de personalização para os modelos Mercedes. Era o início do auge do que conhecemos hoje como tuning alemão, o german tuning. Os pacotes incluíam modificações estéticas sutis, elementos de inspiração aerodinâmica, rodas de liga leve com desenho exclusivo, revisão de sistemas de freios e suspensão e, claro, personalização completa do interior.

O C280 de Alexandre é tem o kit estético padrão da época, formado pelas rodas monoblock de 17 polegadas, saias laterais, para-choques exclusivos com luzes de neblina igualmente exclusivas, grade dianteira modificada, saídas de escape duplas de aço inoxidável e o spoiler traseiro na borda da tampa do porta-malas.

O conjunto mecânico, contudo, não teve alterações. Isso, porque o pacote da Lorinser envolvia uma modificação extensa do motor que aumentava o diâmetro dos pistões para aumentar o deslocamento de 2,8 litros para 3,2 litros, fazendo a potência chegar aos 260 cv com a ajuda do remapeamento do motor e de novos coletores de admissão e escape. Pela extensão do trabalho e a violação da garantia de fábrica, esse tipo de serviço raramente era executado fora da Alemanha ou EUA.

 

O sonho na garagem

Com as chaves finalmente nas mãos, Alexandre iniciou um processo completo de revisão, uma vez que o carro não precisava de restauração. O carro teve todos os componentes mecânicos desgastados trocados e reparados — do motor aos freios, radiadores e escapamento. O único detalhe a ser resolvido é a remoção dos emblemas AMG e C36, que ainda não foram feitos pois exigirão a repintura da tampa devido às marcas do tempo.

O restante do carro foi preservado original, do tradicional couro sintético MB Tex, aos acabamentos de madeira da versão Elegance e o rádio Pioner Super Tuner II com o mesmo padrão de madeira dos painéis — uma das opções de rádio disponíveis na época, além do clássico toca-fitas Becker Grand Prix integrado ao magazine para dez discos.

Enquanto o último retoque não chega, Alexandre aproveita seu C280 Lorinser pegando a estrada nos fins de semana — ou até mesmo viajando a trabalho com o agora clássico Mercedes. “Ela é compacta, ajeitadinha de dirigir, muito gostosa”, conta Alexandre. “Incansável”, completa.

Dirigir para relaxar. Curtir seu sonho da juventude, daquela marca que o instigou ainda na infância, justamente nos momentos em que se está mais propício a relembrá-los. Este raro Lorinser perdido no Brasil não poderia ter encontrado um destino mais apropriado.