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Car Culture

As aventuras de Valentino Rossi com os carros de corrida


Por mais que o automobilismo e o motociclismo sejam ambos esportes a motor e parecidos em diversos aspectos, é inegável que são dois mundos diferentes, que não se misturam com frequência. Há os fãs de corridas de carros e há os fãs de corridas de motos. Há as lendas do automobilismo e as lendas do motociclismo. Existem sites, revistas e veículos de informação dedicados aos carros, e existem aqueles que cobrem as motocicletas. E é visível que há uma certa rixa entre entusiastas dos automóveis e motociclistas também na vida real, no dia-a-dia, quanto ao comportamento no trânsito e nas estradas.

Não estamos aqui para oferecer uma solução ou para tomar um lado, e muito menos para polemizar. Ao contrário: viemos lembrar o quanto é bacana quando estes dois mundos se juntam. Steve McQueen é prova disso. Ele se tornou uma lenda graças a seus filmes com temática automotiva (em especial Bullitt e “As 24 Horas de Le Mans”, lançados em 1968 e 1971, respectivamente); era fã de carros de corrida e os pilotava quando tinha a oportunidade; mas também acelerava de moto – Indian, Husqvarna e Triumph eram suas favoritas – e foi um grande piloto de motocross.

Hoje, porém, vamos falar de outro cara que conseguiu se destacar sobre duas rodas e sobre quatro rodas, mais recentemente: Valentino Rossi, o carismático italiano de 42 anos que é conhecido como “The Doctor” ou “Rei do MotoGP”.

Há uma boa razão: desde que entrou para a elite do motociclismo, em 1996, Rossi já conquistou nove títulos, venceu 115 das 423 corridas das quais participou e foi é o único motociclista da história a vencer o Campeonato Mundial em quatro categorias diferentes – 125 cm³, 250 cm³, 500 cm³, e MotoGP, para motos de até 1.000 cm³. Ele também é o único piloto na história a marcar mais de 5.000 pontos na carreira (atualmente são 6.070 pontos), tendo subido ao pódio 235 vezes.

Mas uma das características mais marcantes de Valentino Rossi é que ele manteve seu nível altíssimo ao longo de mais de vinte anos: sua última primeira vitória aconteceu no Grande Prêmio da República Tcheca em 1996, e a última foi no Holanda de 2017. Embora não tenha vencido mais de lá para cá, Rossi subiu ao pódio oito corridas nos últimos cinco anos. Para um veterano que já poderia ter pendurado o capacete há tempos, ainda é um desempenho bem consistente.

Só que a hora de pendurar o capacete chega até para os melhores: no início de agosto de 2021, Valentino Rossi anunciou que se aposentará ao fim da temporada. Ele disse, porém, que não é o fim de sua carreira como piloto – isso é algo que ele será pelo resto da vida. Seu plano, ainda sob consideração, é disputar corridas de automóveis.

Mas por enquanto Rossi ainda é um piloto da Moto GP, e um dos maiores de todos os tempos. E, se você quer uma demonstração rápida da habilidade de Valentino Rossi em cima de uma moto, creio que não há melhor forma de fazê-lo do que seu duelo com Casey Stoner em 2008, no circuito de Laguna Seca, durante as voltas finais. Os dois pilotos – Rossi na Yamaha YZR-M1 azul e Stoner na Ducati GP8 vermelha – disputam cada centímetro de vantagem com uma ferocidade absurda, alternando a liderança com ultrapassagens arriscadíssimas. Em certo momento, no famoso Corkscrew, Rossi sai da pista e quase vai para o chão. No fim, é Stoner quem perde o controle e cai a poucos instantes do fim da prova e cai.

Agora, como acontece com a maioria dos grandes pilotos, Valentino Rossi faz questão de passar seu tempo livre acelerando – e já faz muito tempo que, nos intervalos entre as corridas de moto, ele procura veículos de quatro rodas para dar uma variada na rotina. Carros de rali, principalmente. E ele também manda muito bem – afinal, segundo consta, quem introduziu Valentino Rossi aos ralis foi ninguém menos que Colin McRae.

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Foto: Motorsport.com

Não há documentação a respeito desta relação entre os dois, mas faz todo sentido: Valentino Rossi disputou um rali pela primeira vez em 1997, quando correu no Rally di Monza com um Renault Mégane –na época McRae estava no seu auge e, de acordo com o próprio Rossi, já era um de seus grandes ídolos. Não era exatamente difícil que os dois se encontrassem durante algum evento na Europa, e os dois se consideravam amigos. Tanto que, quando Colin McRae morreu em um acidente de helicóptero em 2007, Valentino foi um dos presentes ao funeral e dedicou sua vitória no GP de Portugal, dias depois, a McRae.

Isto posto, há uma explicação genética para a desenvoltura aparentemente natural de Valentino Rossi ao volante de um carro de rali. Seu pai, Graziano Rossi, também era piloto de motociclismo, participando do campeonato mundial entre 1977 e 1982. Seu melhor resultado foi um terceiro lugar na temporada de 1979 – um terceiro lugar na categoria 250 cm³. Como Valentino, Graziano Rossi também participava de ralis nas horas vagas, e chegou a correr com um Lancia 037 em 1985, ainda que não tenha participado de uma prova dentro do WRC, e sim em provas menores.

Valentino Rossi jamais escondeu a inspiração no pai em sua carreira – a escolha do número 46 é prova disto. Era com a moto #46 que Graziano Rossi corria, e Valentino não hesitou em homenageá-lo quando começou sua carreira profissional. O que nos traz a outra coincidência impressionante: o navegador de Graziano Rossi em 1985, Carlo Cassina, também foi navegador de Valentino Rossi no Rally di Monza em mais de uma ocasião.

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Valentino Rossi ainda disputou o Rally di Monza outras três vezes, em 1998, 1999 e 2000, antes de fazer sua estreia no WRC. Em 1998, aliás, ele se inscreveu com o famoso Subaru Impreza P18WRC, que foi o primeiro carro de rali feito pela britânica Prodrive – a preparadora encarregada da equipe de fábrica da Subaru no WRC – utilizando o Impreza WRX cupê, de duas portas, como base. Este mesmo carro foi utilizado por Colin McRae em sessões de testes em 1997, e filmado em materiais de divulgação da Subaru na mesma época.

A estreia de Valentino Rossi no WRC aconteceu em 2002, quando o piloto italiano inscreveu-se no Rali da Grã-Bretanha, 14ª e última etapa da temporada, com um Peugeot 206 WRC – versão de rali do hatchback francês, equipada com um quatro-cilindros turbo de dois litros e 300 cv.

Não foi uma grande prova. Pelo contrário, na verdade: embora tenha se saído relativamente bem nos treinos de classificação, Rossi acabou saindo demais em uma curva aos 15 km do primeiro estágio, ficou preso em uma árvore e teve de abandonar a competição pois não conseguiria chegar à área de serviço dentro do tempo-limite. Apesar disto, aparentemente ele Rossi ainda considerava a ideia de, mais tarde, migrar para os ralis – em uma entrevista publicada na revista Cycle World de janeiro de 2003, ele disse o seguinte:

Eu adoro pilotar em ralis, com certeza, então talvez seja possível que, um dia, eu corra no Campeonato Mundial. Nunca se sabe o que vai acontecer no futuro quando se trata de corridas de moto. Talvez no final eu esteja muito cansado e tenha dinheiro o bastante para ficar em casa ou fazer uma grande viagem de féria. Talvez aí eu pense em tentar correr de carro. Com certeza é possível, mas não nos próximos quatro ou cinco anos.

Àquela altura, Valentino Rossi já havia conquistado três títulos mundiais de motociclismo – um nas 125 cm³, um nas 250 cm³, um nas 500 cm³ e seu primeiro na MotoGP. Outros seis viriam e, caso o piloto tivesse deixado as motos para disputar ralis de forma regular, ele não seria eneacampeão hoje em dia. Mas Rossi jamais largou de verdade o automobilismo.

Valentino Rossi já participou outras duas vezes do WRC – em 2006, quando correu no Rali da Nova Zelândia com um Subaru Impreza e terminou a prova em 11º; e em 2008, quando tomou parte novamente no Rali da Grã-Bretanha, porém com um Ford Focus, e ficou novamente em 11º. No entanto, não demorou para que ele percebesse que sua forma favorita de correr com bólidos do WRC era mesmo o Rally di Monza, ou também conhecido como Monza Rally Show.

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O Rally di Monza ocorre desde 1978 no Autódromo de Monza, na Itália, geralmente entre o final de novembro e o início de dezembro, como um evento especial para encerrar o ano de competições em ralis. Diversos pilotos do primeiro escalão do automobilismo se enfrentam em um circuito especial, em pares – a disputa é contra o relógio, e não direta entre os dois carros, mas ambos ficam no circuito ao mesmo tempo. Em 2005, veja só, Valentino Rossi participou do Rally di Monza com o Subaru Impreza e enfrentou Colin McRae no Skoda Fabia. Rossi foi o vencedor no confronto, mas só conquistaria a vitória geral no ano seguinte, 2006, com o Ford Focus.

Desde então outras doze edições do Rally di Monza/Monza Rally Show foram realizadas – e, veja só, Valentino Rossi venceu a maioria delas: em 2007 novamente com o Ford Focus WRC; e em 2012, 2015, 2016 e 2017 com o Ford Fiesta WRC.

E é preciso lembrar que paralelamente a tudo isto, Valentino Rossi também flertou com a Fórmula 1. Na pré-temporada de 2006, Rossi participou de um treino coletivo com a Ferrari de Michael Schumacher e Felipe Massa no circuito de Valencia. Pilotando um carro ligeiramente amansado em relação ao de Schumi, Valentino Rossi virou 1:12,362 apenas 0,7 segundo mais lento que o piloto principal da Scuderia, que fez 1:11,64.

Ninguém sabia ainda, mas Schumacher estava preparando sua saída da Ferrari e Valentino Rossi era um dos nomes cotados para ingressar na equipe. Embora tenha conduzido carros de F1 em outras ocasiões, o Rei do MotoGP decidiu seguir sobre duas rodas.

Seis anos depois, porém, Rossi voltou a sentar-se em uma Ferrari – mas não em um monoposto de Fórmula 1. Em vez disso, ele foi chamado pela equipe Kessel Racing para correr com uma Ferrari  458 GT3 em Monza, para a abertura da temporada de 2012 da Blancpain Endurance Series. Novamente o Doctor mostrou desenvoltura – dividindo o volante com o amigo Uccio Sallucci, ele ficou em oitavo na categoria Pro-Am e 18º na classificação geral. Meses depois, de forma consistente, Rossi e Sallucci participaram das 24 Horas de Nürburgring e ficaram na 19ª posição geral e em 9º lugar na categoria GT3.

A consagração, de certa forma, veio em dezembro daquele ano. Em uma prova menos conhecida, as 12 Horas do Golfo, em Yas Marina, Rossi foi o terceiro colocado na classificação geral e vencedor da Pro-Am.

De lá para cá, Rossi não correu mais de carro. Mas até hoje ele demonstrou que sabe se virar ao volante – e não é qualquer um que chega ao final das 24 Horas de Nürburgring. Se o próximo passo for Le Mans, com certeza o Rei da MotoGP estará preparado.

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