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História

Como o ZZ Top e a MTV ajudaram a popularizar os hot rods nos anos 1980


No início dos EUA estavam passando por uma transformação sócio-cultural. A crise do petróleo mudou para sempre a relação dos americanos com os postos de combustível, os carros compactos e eficientes começavam a se consolidar no mercado. Até mesmo Carroll Shelby se rendera a estes compactos, criando os dois únicos hot hatches americanos, o Dodge GLH e o Dodge GLHS, entre outros modelos Dodge derivados da Mitsubishi.

Isso, obviamente, afetou a forma como os jovens da época enxergavam os carros — algo semelhante ao que acontece hoje. Tal como os jovens adultos hoje desejam carros elétricos, na época eles voltaram seus olhares aos modelos mais econômicos, alguns vindos da Europa, mas a maioria da Ásia. Foi quando Honda, Toyota e Nissan/Datsun se consolidaram nos EUA, foi quando a Hyundai decidiu entrar no mercado americano, quando a GM pegou um Monza, deu a ele uma roupagem chique e o chamou de Cadillac Cimarron e quando os muscle cars se tornaram apenas “carros velhos”. Se você prestou atenção aos carros de “Todo Mundo Odeia o Chris”, certamente sacou isso.

Cimarron: quando a GM tentou transformar o Monza em um Cadillac… e não conseguiu

Ao mesmo tempo, havia também mudanças drásticas na música. No fim dos anos 1970 a comunidade afro-americana criou o hip hop, gênero que, mais tarde cruzaria com o rock para conquistar o mundo. O rock abandonou os punks na década anterior, fez amizade com os sintetizadores e as baterias eletrônicas e criou a “new wave”. Mas a maior de todas as transformações da época, na música, foi a chegada da MTV. Agora, além de ouvir, você poderia ver a música. Você podia saber como seus ídolos do disco se pareciam e como eles eram além da música. Era como se a música tivesse ganhado uma nova dimensão. Veja com os ouvidos, ouça com os olhos.

A cultura popular, em geral, tende a ser muito movida pela juventude. São os jovens que definem o que é legal, porque, afinal, ser jovem é legal, e ser velho é chato. Ser jovem é ser livre, leve e solto. E isso é um problema quando você é um artista caminhando para a sua segunda década de estrada, fazendo um tipo de som que foi aclamado pela geração anterior àquela.

Era essa a situação do ZZ Top naquela época. Na estrada desde 1970, eles estouraram de verdade em 1973 com “La Grange”, e continuaram fazendo seu blues rock até o fim da década. Depois de uma turnê de dois anos, que se estendeu ao longo de 1976 e 1977, eles deram um tempo da banda para tirar férias e aproveitar um pouco a fama e a grana. Foram apenas dois anos longe dos estúdios e da mídia. Nestes dois anos, o punk rock explodiu e começou a esfriar, Eddie Van Halen reinventou a guitarra, os sintetizadores viraram pop e também rock. O ZZ Top não podia voltar fazendo a mesma coisa de 1970.

Quando eles deram as caras novamente em 1979,  o vocalista/guitarrista Billy Gibbons e o baixista/vocalista Dusty Hill estavam com um visual completamente diferente: os dois ostentavam barbas longas, chapéus idênticos e óculos escuros, e a banda adotou uma postura mais irônica e irreverente.

No palco, eles faziam o chamado “double act”, um termo sem tradução que define uma apresentação na qual um artista serve de escada para o outro e vice-versa. Além disso, o som da banda também estava mais moderno. Em vez do tradicional blues rock tocado apenas com baixo, guitarra e bateria, agora o ZZ Top também tinha teclados e saxofones, além de harmonias menos conservadoras, flertando despudoradamente com a new wave.

O “antes e depois” do ZZ Top. Qual você prefere?

Seus dois discos seguintes, “Degüello” e “El Loco” foram sucesso de crítica e público, e ajudaram a renovar a imagem da banda. Mas, acima de tudo, eles foram os degraus para aquele que seria o disco mais importante da carreira do ZZ Top: Eliminator, lançado em 1983.

O disco foi um sucesso instantâneo, rendendo quatro singles (as chamadas “músicas de trabalho”, que são escolhidas para as rádios e TV), dos quais três ficaram no top 10 da Billboard e uma delas — Gimme All Your Lovin’ — chegou ao segundo lugar. De cara, foram vendidas mais de 15.000.000 de cópias do disco. E é bem provável que você tenha conhecido esses caras barbudos pelas músicas deste álbum — ou por causa de seus vídeo-clipes.

E aqui chegamos onde esta matéria pretendia chegar desde o começo: os vídeo-clipes.

Três dos quatro singles do álbum foram lançados em vídeo-clipe na MTV americana (e para programas de variedades do mundo todo, claro). Eles eram ligados entre si, e a ligação de um vídeo com o outro era um hot rod vermelho dirigido por duas ou três garotas atraentes que aparecem para salvar um cara em apuros.

Agora precisamos considerar que um hot rod em 1983 não era algo muito comum fora do cenário hot rodder. Lembra da crise do petróleo e suas consequências? Eles não estavam em seu melhor momento. Mas Billy Gibbons era um hot rodder inveterado e, depois de assistir ao filme “A Curva da Morte” (The California Kid), de 1974, no qual o protagonista vivido por Martin Sheen é dono de um Ford 33 hot rod, decidiu procurar um Ford 33 para fazer um hot rod semelhante.

Billy Gibbons: os hot rods favoritos do guitarrista do ZZ Top

O carro ficou pronto no final de 1982 e foi batizado Eliminator. Na mesma época, Gibbons estava em estúdio  finalizando o disco, e decidiu usar seu novo hot rod como tema para o álbum. Daí o nome “Eliminator” e o hot rod na capa. Com um elemento tão marcante na capa, o hot rod foi usado também na campanha promocional do disco e como tema para a cenografia da turnê. Daí para os vídeos foi apenas uma questão de continuidade da temática.

Com o álbum estourado, as músicas em alta nas rádios, os vídeos não teriam um destino diferente: tocaram incessantemente na MTV e receberam seis indicações no Video Music Awards de 1984, vencendo a categoria de “Melhor Vídeo de um Grupo”, com “Legs” e “Melhor Direção”, com “Gimme All Your Lovin'”. Para se ter ideia do que isso significou, 1984 foi o ano em que Michael Jackson disputou os prêmios com “Thriller”, Billy Idol com “Dancing With Myself” e “Eyes Without a Face”, Cindy Lauper com “Girls Just Wanna Have Fun” e “Time After Time”, Madonna com “Borderline”, The Police com “Every Breath You Take” e Van Halen com “Jump”.

Agora imaginem vocês: num momento em que os jovens dirigiam carros de quatro cilindros do Japão, em que os muscle cars haviam sido deixados de lado até mesmo por Carroll Shelby e pela Dodge, uma banda de rock apresentava um tipo de carro que muita gente jamais havia visto ou não se interessava. Um hot rod moderno, com visual matador (ou melhor, “eliminador”), dirigido por umas gatas, e embalado pelas músicas mais populares da época, causou um impacto enorme na audiência da MTV.

Sem os filmes como “American Graffiti” (Loucuras de Verão, no Brasil) ou o próprio “A Curva da Morte”, sem muscle cars novos nas ruas, o hot rod vermelho do ZZ Top foi, sem dúvida, um dos grandes responsáveis por manter os hot rods no mainstream durante os anos 1980, e foi o grande responsável por apresentá-los a uma nova geração como algo legal de verdade. Um carro que você queria ter, fazendo coisas que você queria fazer.

Depois de “Eliminator”, o ZZ Top jamais repetiu o mesmo desempenho de vendas, mas seus discos continuaram vendendo milhões de cópias e suas músicas entre as mais tocadas nas paradas de rock. O sucesso entre a nova geração foi tamanho, que eles foram convidados para fazer uma ponta e a trilha sonora de “De Volta Para o Futuro III”.

Já o carro Eliminator, se tornou um dos hot rods mais conhecidos de todos os tempos, atingindo o status de  ícone pop. Nos anos 1990 ele foi para o museu do Rock and Roll Hall of Fame, e Billy Gibbons, para não ficar seu seu “carro de cinema”, mandou fazer uma réplica do próprio carro para poder guardá-lo em sua garagem.

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