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História

A história das picapes da Mercedes-Benz que deram certo

Uma notícia que não pegou absolutamente ninguém de surpresa foi o fim da produção da Classe X, a picape média da Mercedes-Benz. A fabricante não costuma errar no planejamento de seus produtos – o Classe A de primeira geração foi uma das raríssimas exceções e, ainda assim, os alemães conseguiram consertar o projeto e transformá-lo em um bom carro, ainda que o mundo não estivesse totalmente pronto para ele.

No caso da Classe X, o erro talvez tenha sido na execução: percebendo a demanda por picapes médias, a Mercedes quis ter a sua, mas em vez de criar um projeto interno, decidiu-se por firmar uma parceria com a Nissan e utilizar a Frontier como base. O resultado foi uma caminhonete com cara de Mercedes e alma de Nissan – o que, para o público, não justificava o valor premium cobrado por ela. E assim, dois anos depois de ser lançada, a Mercedes-Benz Classe X deixou de existir.

E ela nem colocou as rodas no Brasil – algo que estava previsto. Mas o plano foi cancelado em abril de 2019, de acordo com a Mercedes-Benz, por conta do “cenário econômico peculiar” da época. Na prática, porém, acredita-se que a razão tenha sido mesmo o alto preço cobrado pela Nissan para produzir a Classe X de acordo com os requerimentos de qualidade da fabricante alemã – tanto em sua planta na Argentina quanto na Espanha –, mais alto do que a Mercedes podia (ou estava disposta) a pagar.

De todo modo, a Classe X certamente será lembrada como um fracasso da Mercedes, que não deve tentar a sorte com outra picape tão cedo.

Agora, é comum que se pense que a Classe X é (ou melhor, foi) a primeira picape da Mercedes. Ledo engano – e nem precisamos considerar a picape do Classe G, que não é baseada em um carro de passeio ou SUV. Já na década de 1930 houve uma picape da Mercedes-Benz, por exemplo.

 

Mercedes-Benz 170 V

Como você deve saber, na década de 1930 ainda era comum comprar um carro em duas etapas: primeiro, adquirindo o chassi e, em seguida, optando por uma carroceria. Mas isto tornava as coisas bem mais caras – e, acredite, a Mercedes-Benz foi uma das fabricantes que decidiram simplificar este processo e vender o carro todo, com chassi e carroceria. E eles ainda davam opções.

Lançado em 1935, o Mercedes Benz 170V (código W136) veio substituir o Mercedes-Benz 170 (W15) como opção de carro compacto da linha. Claro, não estamos falando de nada revolucionário – o W136 era um carro de família com jeito de “calhambeque”, muito sólido e até que bonito, mas seu segredo estava na robustez do motor quatro-cilindros e na boa dirigibilidade. Era um carro prático, econômico, bem feito e não custava muito caro.

A maioria dos exemplares era de sedãs (ou limousines, como a Mercedes preferia chamá-los) de duas ou quatro portas, mas havia bem mais opções – conversível de duas portas, conversível de quatro portas, limousine, furgão e… picape. Sim, uma picape de verdade, com cabine simples e caçamba. Esta podia ser tradicional, do tipo caixa, ou uma flatbed. Não era muito diferente, aliás, das primeiras utes da história, que também usavam carros como base, porém tinham a caçamba melhor integrada o restante da carroceria.

O motor usado era sempre o mesmo – um quatro-cilindros de 1,7 litro com válvulas na lateral, com 38 cv e, de acordo com a Mercedes, capacidade para rodar 10 km com um litro de combustível. O motor era fixado ao chassi por dois suportes simples e era muito suave, tornando-se referência entre os quatro-cilindros.

Apesar de ser uma picape competente, talvez a 170V estivesse à frente de seu tempo – os veículos utilitários mais vendidos eram maiores, assemelhando-se mais a caminhões e, por isso foi a primeira da família W136 a sair de linha, deixando o mercado em 1949. O restante dos modelos manteve-se em produção até 1955. Aliás, o W136 foi o primeiro Mercedes-Benz a ser fabricado após o fim da Segunda Guerra Mundial – e foi um dos Mercedes mais vendidos de seu tempo.

 

Mercedes-Benz W114 “La Pickup”

Avançando algumas décadas no tempo, temos a versão picape da W114/115 – que era ainda mais parecida com uma ute, pois derivava diretamente de um sedã monobloco.

Para muitos entusiastas o W114 é a representação máxima do que um bom Mercedes deve ser: robusto, confortável, luxuoso e bonito. A família de sedãs e cupês foi introduzida em 1968 e, de certa forma, pode ser encarada como uma Classe E da década de 1970. Seu sucessor foi o W123, lançado em 1976 e, depois dele, veio o W124, que foi o primeiro a ser oficialmente chamado de Classe E.

E o W114/115 era um carro e tanto, sendo o primeiro Mercedes-Benz feito depois da Segunda Guerra a utilizar uma estrutura completamente nova, sem aproveitar elementos dos modelos anteriores. Seu sistema de suspensão com braços semi-arrastados na traseira e balljoints na frente era tão eficiente que foi utilizado até a década de 1980, quando começaram a surgir os primeiros arranjos multilink. O código do modelo tem a ver com a motorização: W114 para os seis-em-linha a gasolina e W115 para os quatro-cilindros e motores a diesel.

A Mercedes-Benz tinha uma fabrica na Argentina desde 1951 e, na década de 1970, o W115 foi produzido na fábrica de González Catán. De lá, saíam as versões mais baratas, com motor a diesel. E isto incluía uma versão picape do Mercedes-Benz 220D, equipado com o motor OM615, um quatro-cilindros a diesel de 2,2 litros, 59 cv e 12,8 mkgf de torque.

A produção durou de 1972 a 1976, e a maioria das unidades (que não foram muitas) ficou na Argentina. Umas poucas foram exportadas para a Europa. E foram tão poucas, mesmo, que é mais comum encontrar conversões feitas por proprietários do que exemplares da 220D picape originais de fábrica por lá.

Estavam disponíveis versões de cabine simples, com uma enorme caçamba que parecia ter sido demarcada com uma régua e visual surpreendentemente harmônico; e de cabine dupla, aproveitando toda a seção traseira de passageiros e construindo uma caçamba no lugar do porta-malas e um aspecto mais, digamos… exótico.

Na argentina, a picape ficou conhecida pelo simpático apelido de Mercedes-Benz “La Pickup”, e era anunciada como veículo de trabalho e lazer, contrastando com o visual austero do lado de fora e o luxo no interior. No entanto, se pararmos para pensar, não é muito diferente do apelo atual de algumas picapes, que aliam robustez e capacidade off-road com uma cabine equipada e confortável. Claro, a maioria delas raramente roda em estradas de chão, mas isto não vem ao caso agora.

E não há como duvidar da capacidade da La Pickup: o exemplar laranja das fotos, atualmente mantido no museu da Mercedes-Benz, foi importada para a Alemanha na década de 1970 e utilizada por uma companhia ferroviária, transportando equipamentos para manutenção dos trilhos.

Embora a W114 “La Pickup” tenha sido um modelo localizado, sem história na Alemanha, a própria Mercedes-Benz fez questão de lembrar da 220D “La Pickup” durante a apresentação dos conceitos da Classe X em 2017. E, veja só: a W114 até que fez sucesso. Ao contrário da Classe X…