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Audi A3/S3 Mk1: tudo o que você precisa saber antes de comprar | Guia de Compra FlatOut


Nos anos 1980, uma frase muito repetida entre os entusiastas ingleses dizia que: “compre sempre um Mercedes barato, e não um Ford caro.” Claro que obviamente dizia respeito a qualidade e durabilidade, tradicionalmente bem maiores nas marcas de luxo simbolizadas pela Mercedes-Benz na frase. Mas também tinha um fundo financeiro: o Mercedes certamente desvalorizava menos que um Ford caro.

O Ford (aqui um símbolo também: pode ser substituído por Chevrolet, VW, Renault, Rover, ou qualquer marca de carros baratos) certamente seria um tamanho maior, e mais potente, que um Mercedes (ou Audi, Jaguar, BMW, etc) de preço igual. Era esperado que um Ford tivesse menos qualidade e durabilidade que um Mercedes; o preço refletia isso. Você comprava o Ford caro porque queria mais espaço e tamanho, mas sabendo que tinha nas mãos um produto de uma categoria inferior. Esta era a ordem das coisas, imutável e confortável, e parecia fadada a permanecer assim para todo sempre.

Mas tudo isso mudaria nos anos 1990. A indústria alemã do pós-guerra, para quem não sabe, sempre foi meio compartimentalizada; Mercedes-Benz com sedãs de luxo, abaixo deles a BMW no preço médio, e VW barato, com Porsche fazendo carros esporte, e NSU, Audi, Borgward e outros procurando um lugar nessa ordem. Mas durante os anos 1970 e 1980, isso mudaria: tanto a Audi quanto a BMW entrariam no mercado da Mercedes, sem nenhum respeito aos mais velhos, os sem educação!

Muita coisa mudou com isso, mas nada mudou tanto essa ordem, e o automóvel em geral, quanto a extrapolação deste conceito por uma pessoa sem problema nenhum em quebrar tradições: Ferdinand Piëch. Seu avô Ferdinand Porsche tinha criado o VW como um carro barato, mas de qualidade e durabilidade superiores; ao subir à presidência da empresa em 1993, começou a trabalhar para voltar a ser exatamente isso.

As plataformas PQ34 e depois PQ24, respectivamente Golf e Polo, mudariam os padrões mínimos de qualidade da indústria para carros baratos. No mundo de Piëch, um VW seria tão inerentemente bem feito quanto um Mercedes, algo que hoje é uma realidade para quase toda marca de carro barato: tudo mudou. A Mercedes-Benz enxergou isso como um desafio; preparou também uma investida sua no mercado da VW com o classe A. Mas este pequeno monovolume nunca teve chance contra o novo Golf Mk4, nem muito menos contra o pequeno Audi que estreia esta plataforma em 1996: o A3.

O A3 trazia a qualidade superior do luxo alemão à categorias de preço agora acessíveis para uma multidão de pessoas. E mais: ao contrário do minúsculo e esquisito Mercedes A-class, era um hatchback familiar médio, bonito e bem feito, e posicionado bem no meio da categoria de carro mais popular no continente europeu. Foi um sucesso em todo mercado onde foi vendido e mudou o que se espera de um carro familiar médio, em termos de qualidade.

Confortável, seguro e extremamente veloz, principalmente na versão Turbo e S3: o A3 é ainda hoje uma incrível opção de alta performance com a praticidade de um hatchback médio. Uma rara combinação de desempenho e luxo, mas com tamanho e consumo contidos.

Aqui no Brasil também vendeu muito bem, sempre, principalmente a partir de 2000, quando passou a ser produzido junto com o Golf numa nova fábrica VW perto de Curitiba, no Paraná. Fora os diesel, recebemos quase todas as versões aqui, todos de quatro cilindros em linha transversais-dianteiros: 1,6 litros 8v de 101cv; 1.8 20v aspirado de 125cv e sua versão turbo de 150cv. Cambio automático ou manual era oferecido. Era um carro mecanicamente idêntico ao Golf, mas diferente em ajustes, e qualidade: mais silencioso, linha de cintura mais alta, interior exclusivo. Inicialmente era disponível apenas com duas portas, mas mesmo assim foi um enorme sucesso.

Em 1999, apareciam algumas novidades: uma versão de quatro portas, e revisões extensas no motor turbo para agora 180cv, identificado por um T vermelho no logotipo. Aparecia também o S3: de novo um motor alterado para dar 210cv, e com rodas maiores de 17 polegadas, em para-lamas alargados; o S3 também tinha tração nas quatro rodas (Haldex, estreando mundialmente nesta plataforma VW). Nenhum A3 é exatamente lento, mas o S3 era algo realmente interessante: o 0-100km/h era realizado abaixo de sete segundos, e chegava a 238km/h. Um A3 normal de 180cv, como comparação, fazia o 0-100km/h um pouco abaixo dos 8 segundos (7,8 a 7,5 dependendo do teste) e chegava a pouco mais de 220km/h.

Ao final do ano 2000, o A3 recebe novos faróis e luzes traseiras, outras pequenas alterações cosméticas, um interior melhorado, e a introdução de uma caixa manual de seis velocidades, no 1.8T. O S3 passa a ter variador de fase no comando, e 225cv. Na Europa a produção acaba em 2003, mas aqui no Brasil, dura até 2006.

É um carro que, por sua popularidade quando novo, existe em grande quantidade por aqui, em todas as suas versões. Chegou a ficar muito barato, o que colocou a maioria deles nas mãos de gente que ou não queria, ou não podia fazer muita manutenção. O desafio hoje é achar carros em bom estado então. Mas conseguindo isso, é um carro ainda barato, de excepcional desempenho e qualidade, bem robusto, e com um fornecimento de peças de reposição ainda bem tranquilo. Uma excelente opção para o entusiasta, seja como brinquedo, seja como ferramenta diária.

Colaboraram para esta matéria: Rafael “Ogro” Bayao (proprietário, @ogrouff),  Rodrigo Purchio (proprietário, @rpurga), Christofer Cheles Usuelli (proprietário, @christofer.usuelli)

 

Preços típicos.

Por algo entre R$30.000 e R$45.000, ainda se pode achar um A3 1.8T em bom estado de conservação. Ainda barato pelo que oferece, mas indica que os dias de achar um neste estado por menos de vinte mil já estão firmemente no passado. É uma questão de estado principalmente: como poucos existem em bom estado, originais, estes já estão subindo de preço.

Ainda pode-se achar carros por menos de R$20.000, e rodando; normalmente aspirados, e com coisas a fazer. Para o uso diário, um aspirado, tanto 1.6 quanto o 1.8 20v, podem ser uma boa opção, principalmente se com câmbio manual. A procura por eles é menor, claro, pelo simples fato de que os Turbo estão em um visível e diferente patamar de desempenho. Mas não quer dizer que sejam ruins; se está procurando um A3 fique de olho em carros de único dono ou extremamente bem cuidados: ótimos negócios tendem a aparecer aqui.

Mas são os carros turbo que realmente interessam ao entusiasta, com sua combinação de torque e potência sensacionais, e uma estrutura para lá de sólida. Estes começam a R$25.000, mas os melhores estão na faixa dos R$30.000 a R$45.000 mesmo. Carros realmente perfeitos e imaculados podem chegar até perto de R$70.000.

Já o mais raro e especial S3 é bem mais caro. Raramente aparece a venda hoje em dia, mas existem alguns anunciados, com preços que vão de R$69.000, até R$128.000.

 

No que ficar de olho?

Perfil: Histórico de donos e manutenção é importante aqui. O carro teve uma fase de preço bem baixo para compra, o que trouxe donos de todos os tipos. No geral, se bem cuidado é um carro que não dará problema; se mal cuidado pode ser dor de cabeça. É o mais importante aqui.

Cuidado também com preparação: de novo, pelo baixo preço, muita gente comprou e imediatamente modificou sem se preocupar muito com manutenção. Preparação bem feita, com cuidado com o carro, existe, mas não é a norma. Diz o Rodrigo Purchio: “é um carro relativamente simples de inspecionar antes da compra pois não costuma ter defeitos ou problemas escondidos. Mas quanto mais cara e desejada a versão quando zero km, maior o cuidado. O S3 é um capítulo à parte pois como outros esportivos a maioria sofreu algum tipo de preparação durante sua vida, o que somado a uma manutenção negligente podem tornar o carro uma triste surpresa. Vale um cuidado extra na inspeção.”

O Rafael “Ogro” Bayao diz: “muita gente pegou esses carros usados e primeiro colocou um chip para maior pressão de turbo e mais potência; antes até de fazer uma manutenção detalhada em carros que já não eram novos. Muitos deles foram convertidos para álcool, mexidos sem critério, e se acabaram.” Mas ele mesmo diz que mesmo assim não é um carro impossível de manter: “como muito é compartilhado com o Golf MkIV, é bem mais fácil de manter que muitos outros carros da época.”

Carroceria: O A3 é completamente galvanizado, e por isso são raros casos de ferrugem, mesmo num carro já bem antigo (de 15 a 25 anos de idade). Normalmente acontece em carros que tiveram reparo de acidente, então os cuidados aqui são os normais de carros usados: preste atenção em sinais de reparos depois de acidentes diversos.

O acabamento é bem robusto também, mas preste atenção principalmente no estado do estofamento e tecidos do interior, que podem ser difíceis de repor no material original. A peças de reposição de acabamento interno não existem aqui, novas, apenas usadas em desmanche. Diz Rodrigo Purchio: “Inspecione o interior com cuidado, lembrando que a maioria das peças de acabamento não se encontra reposição nova no Brasil. A divisão de clássicos Audi Tradition na Alemanha tem peças de reposição, inclusive acabamento, mas infelizmente não enviam diretamente ao Brasil. A falta de disponibilidade de itens de acabamento é um grande problema. A dependência de peças usadas é quase que total. O clássico problema do forro de teto e laterais que descolam por tempo também estão presentes.”

O Purchio chama atenção para outro problema comum: “Alguns carros foram blindados e depois tiveram a proteção removida. Na época a tecnologia de blindagem usava muito aço balístico. Uma inspeção criteriosa nos vidros e acabamentos internos – principalmente colunas de portas e teto – pode revelar indícios de remoção da mesma. Veja se todos os vidros tem gravações iguais.”

No facelift para ano/modelo 2001, alguns fornecedores de revestimentos internos foram trocados. Os problemas de botões e acabamentos internos grudentos ou descascados aumentaram ao invés de diminuir. Já existe tecnologia para restauro desses componentes (algumas empresas como a @lm.restaura fazem pintura com tinta emborrachada), não é barato mas resolve o problema.

Motor: Os motores usados nesses carros são basicamente bem parrudos, mas também muitos sofreram com manutenção negligente. Mesmo os intervalos de troca de óleo recomendados pelo fabricante, a cada 15.000 km, é considerado muito longo por alguns. Desta forma, uma inspeção do nível e cor do óleo pode já ajudar a entender se o carro foi bem cuidado ou não; se possível retirar a tampa do cabeçote para verificar também. Negligência em trocar óleo, bem usar óleo fora de especificação, pode provocar o aparecimento de borra negra e necessidade de retífica. Diz o Purchio :”A busca por vazamentos no cofre do motor dá um bom indicativo de seu estado geral e manutenções preventivas. Desconfie de carros com maquiagem de venda.”

Nos motores 1.8 20V, a troca da correia dentada, que necessita do kit de tensor e rolamento, deve ser feita a cada 100 mil km, e se ela rompe, há interferência: cuidado aqui. A bomba d’água com rotor de plástico também tem vida menor, deve ser trocado por um metálico quando se troca a correia. Bobinas também tem uma vida útil, vale a pena checar quando foram trocadas.

O Rafael tem uma dica sobre o S3: “preste atenção nas mangueiras de vácuo: o S3 tem mais delas, e se estiverem vazando ou faltando, podem contribuir para falha no funcionamento.” O carro não tem problemas de superaquecimento, mas atenção nas mangueiras é uma checagem padrão em carros usados. O Rafael trocou muitas vezes válvulas termostáticas em carros com esta motorização 1.8T, também.

Transmissão: O problema aqui é o mesmo: se a manutenção foi negligenciada, vão ocorrer problemas. Principalmente troca de óleo, e principalmente com os câmbios automáticos. Mas existem empresas que reparam o câmbio automático, que não tem nenhum segredo; é comum a troca para um câmbio manual também. Solenóides também são problemas recorrente no câmbio automático, e a troca não é barata. Definitivamente o câmbio manual é a opção mais livre de problemas aqui.

O diferencial Haldex do S3 necessita de troca de óleo o filtros regulares também, e pode ser perdido se for negligenciado. Diz o Purchio: “a troca do óleo e filtro do Haldex é cara e complexa, e deve ser feita por um profissional especializado pois pode comprometer o sistema. O Haldex ganhou má fama em função única e exclusivamente da negligência dada à sua manutenção.”

O Rafael dá mais dicas sobre o S3:” abusaram muito desses carros em arrancadas fortes: coxins de motor, embreagem, calços, embreagem, Haldex, semi-eixos, tudo isso tem que ser verificado. de novo, abuso é o problema. O S3 tem tanque diferente, e as vezes a boia de nível do tanque as vezes dá problema.”

Suspensão:  Não há nenhum problema crônico aqui, mas de novo, negligência pode significar gastos ao novo dono: atenção com amortecedores e barulhos ao rodar. Diz o Purchio: “A suspensão costuma pedir cuidados com maior frequência pois o silêncio ao rodar dura pouco: borrachas de bandeja e barra estabilizadora começam a ranger poucos meses após uma troca. Já existem soluções tropicalizadas, aparentemente mais resistentes.”

 

Peças

Além de ser fabricado no Brasil por 10 anos, o A3 compartilha vários componentes mecânicos com o Golf mkIV, e outros carros da marca. Além disso, existem muitos A3 em desmanches, que são uma infindável fonte de peças. Realmente não é um problema, a maioria das peças mecânicas fáceis de encontrar em lojas especializadas e até em concessionárias VW.

Não são exatamente peças baratas; o carro está num nível superior a carros como Gol, Celta e companhia, mas pelo menos existem. Algumas dificuldades aparecem, claro: o acabamento interno é um deles, a solução ficando na procura de peças usadas nos marketplaces e comunidades dedicados ao modelo, ou desmanches.

Mas no geral é um carro robusto, sem muitas dificuldades em se encontrar peças para mantê-los funcionando. Ache um carro bem cuidado, e ele dará anos e anos de felicidade ao seu novo dono, sem dúvida nenhuma. E com um desempenho, conforto e economia definitivamente moderno.

 

Depoimentos dos donos

Christofer Cheles Usuelli (@christofer.usuelli)

O que gosto muito é desempenho, design, nível de acabamento, além de uma excelente relação custo benefício. Tenho a versão 1.8 T de 180 CV com câmbio Tiptronic, que é muito útil para o trânsito na cidade, e teto solar, um acessório que acho indispensável. O espaço para passageiros no banco traseiro é limitado, porém.

Meus principais gastos com ele foram no câmbio(solenóides), trizeta (problema crônico, já arrumei umas 3 ou 4 vezes), e o tecido do teto que descolou com o tempo. Faz 8 anos que o carro está comigo, e a quilometragem atual é de 180 mil km. Sou o segundo dono.

 

Rodrigo Purchio (@rpurga)

O que mais gosto no meu S3 é o desempenho, similar aos carros atuais, conforto e silêncio ao rodar, baixo custo de manutenção, segurança e disponibilidade de peças de reposição mecânicas. Até o consumo de combustível é bom, graças a cilindrada que varia entre 1.6 e 1.8. A versão 1.6 RSH apresenta números de consumo em estrada que fazem inveja a carros modernos. O lag na resposta do turbo – que lembra o melhor dos anos 90 na minha opinião – está presente, apesar de possuir um turbocompressor de menores dimensões. A plataforma PQ34 continua segura para os padrões atuais, tanto nos níveis de resistência da carroceria como na possiblidade de encontrar versões equipadas com até 6 airbags e controle de estabilidade.

O carro permite o “upgrade infinito” como no meio-irmão Golf MK4 pois existem literalmente milhares de componentes de performance para motor, suspensão, transmissão, freios, e detalhes de interior em opcionais não comercializados originalmente no Brasil. Para alguns gearheads como eu isso pode ser um problema até!

O padrão do acabamento superior, isolamento acústico e térmico, design atemporal fizeram o modelo envelhecer bem e as unidades bem conservadas chamam atenção por onde passam. A sensação de máquina do tempo está presente, no melhor do fim dos anos 90 e década de 2000.

O que não gosto muito é da falta de torque em baixa, típica dos motores 20V.  Incomoda em algumas situações cotidianas. O motor precisa ser “chamado no pedal” às vezes. E não adianta brigar com o carro pois o motor simplesmente morre em baixa rotação. Some isso ao ruído das peças plásticas e eletrônica de bordo embarcada, simples mas que começa a apresentar defeitos em função da idade, pode gerar experiências frustrantes aos novos proprietários. A frente requer cuidados e inspeção frequente, pois raspa fácil em valetas, podendo danificar o cárter do motor. Aparentemente esses carros não foram tropicalizados como os irmãos VW.

Os principais gastos em manutenção foram a Troca da correia dentada, que necessita do kit de tensor e rolamento, bobinas e a troca do óleo e filtro do Haldex, que é cara e complexa. Estou com o carro há um ano, devo ser o quarto ou quinto dono. Está com 84K rodados e o carro impressiona pela originalidade pois não tem vestígios de alterações mecânicas, nem no chip da injeção, upgrade comum na época. Estrutura intacta com todos os defletores, escapamento original, selos e travas plásticas.

Possui um único upgrade mecânico: o dono anterior ficou assustado com o custo da troca das molas e amortecedores originais (no caso da S3, disponíveis apenas importados) e comprou um jogo de coilovers da KW, disponíveis no Brasil. A melhoria no handling do carro é impressionante, podendo andar na altura original. No melhor estilo OEM+1, as rodas originais Avus foram guardadas e substituídas por modelos idênticos, também originais que equipavam os irmãos maiores como o S4 B7 e S6. As rodas foram refuradas, passando dos originais 5×112 para a 5×100 do carro. Espaçadores sob medida acertaram o off-set para um matching perfeito com os para-lamas.

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