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Austin Mini Cooper | FlatOut Street

O quadro FlatOut Street se dedica aos carros preparados e customizados estrangeiros e nacionais, de todas as épocas e estilos.
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Ao contrário do que a maioria das pessoas diz por aí, o Mini original não é o primeiro carro moderno. Sim, seu motor é transversal e a tração dianteira, e ele tem primazia nisso, se descartarmos os gigantescos Christie, lá nos longínquos anos 1900. Mas o motor do Mini está em cima do câmbio, inicialmente compartilhando óleo com ele, e o carro tem suspensões e pneus nunca repetidos: cones de borracha como molas, e rodas de 10 polegadas. É um grande passo no caminho do carro moderno, mas não o definitivo: este foi o Fiat 128 de 1969, que colocou o transeixo alinhado ao motor, usava pneus e rodas de tamanho normal, 13 polegadas, e suspensão com curso grande. No caso a McPherson, única que dava espaço para o trem de força, mantendo geometria decente. Junte freios a disco, pinhão e cremalheira e pneus radiais e voilá.

Mas isso não quer dizer que o carrinho não foi genial. Não mesmo. O que Sir Alec Issigonis fez aqui é realmente impressionante, mesmo visto de hoje. Talvez até mais visto de hoje, tempo de paquidermes ambulantes chamados de SUV. O Mini original mudou algumas coisas importantes. Primeiro, provou que um carro pequeno de verdade (na época, bolhas de três rodas com motor de motocicleta dois tempos) não precisava ser menos refinado e sofisticado que carros maiores e mais caros. E segundo, que tração dianteira era na verdade interessantíssima até em uso esportivo, se for bem feita.

O Mini original não foi criado para ser um carro esporte. De jeito nenhum: era simplesmente o menor carro familiar que Issigonis conseguiu fazer, ainda carregando quatro adultos. Originalmente, tinha apenas um pequeno e anêmico quatro em linha OHV de 850 cm³. Mas Issigonis era um piloto de competição nas horas vagas, e entusiasta em tempo integral: é claro que o carro dele seria excelente atrás do volante. Para conseguir mais espaço para os ocupantes, reduziu o tamanho dos componentes principais. Motor em cima do câmbio e tração dianteira já ajudaram muito, mas ele fez mais: rodas minúsculas, mas quatro extremidades do carro, e uma suspensão também extremamente compacta, com cones de borracha e pequeno curso bem amortecido. Com isso, o carrinho era literalmente um kart para quatro pessoas: um verdadeiro capeta em curvas. O motor 850 original, com pouca força, fazia freios quase supérfluos.

O que o Mini era é um carro extremamente sofisticado em sua engenharia. Seu desempenho geral, conforto e espaço interno se equiparavam a carros muito maiores que ele, e sua estabilidade estava acima de todos. Se tornou um daqueles carros sem classe, comprados tanto por realeza e milionários, quanto gente de orçamento bem mais apertado. Junto com o Jaguar E-Type se tornou o símbolo de uma Londres inesquecível, e dos “swinging sixties”.

Logo, John Cooper, construtor de monopostos e amigo de Issigonis, famosamente começa a fazer versões esportivas. O primeiro Mini Cooper de 1961 tinha 997 cm³, dois carburadores SU e 55 cv (contra 34 do 850 cm³), números ainda baixos, mas mesmo assim, vencia ralis e corridas como se fosse gente grande. Uma lenda se inicia. Entusiastas mundo afora se dedicam a criar suas próprias versões do carrinho, uma forma barata e divertida de se ter um carro rápido.

É sempre interessante lembrar que, ao contrário do Mini moderno, apenas pequeno, o original realmente fazia jus a seu nome. E quão pequeno é um Mini? Não existe nenhum par moderno. Se pegarmos um VW Up! como base, ainda assim é aproximadamente meio metro menor em todas as dimensões, inclusive o entre eixos. Apenas na altura a diferença é de 140mm, ainda assim, muito: o centro de gravidade baixo é um dos segredos do desempenho de primeira do carrinho. Em peso também o Up! é um SUV perto dele: um Mini Cooper 1275 original pesava 645 kg, e um Up!, ao redor de uma tonelada. O mini moderno? bem maior, também em todas as dimensões, que o próprio Up! Não é só a gente que com a idade fica mais gordo e menos ágil, e sem vontade de provar algo: os automóveis parecem seguir o mesmo caminho de seus criadores.

Aqui no Brasil, o Mini original é raro pacas: antes de 1976, quando se proibiram importações,  nunca foi importado em grande quantidade (seria caro), mas alguns vieram, claro. Quando as importações recomeçaram em 1990, incrivelmente ainda estava em produção, e a versão Cooper tinha acabado de ser relançada com desempenho ligeiramente inferior ao Cooper dos anos 1960. Mas fez tanto sucesso que em 1991 é modificado de novo, para atender aos padrões de emissão: passavam a ser equipados com uma versão com injeção de combustível do motor de 1275 cm³, e em 1997 injeção multiponto, juntamente com um radiador montado na frente e várias melhorias de segurança. Alguns poucos desses carros vieram para cá, até que foi substituído pelo novo Mini BMW, em 2000.

Mas é claro que, mesmo assim, entusiastas desde sempre arrumaram maneiras de ter Mini por aqui. Afinal de contas, sua fama é enorme e reconhecida em todos os cantos do mundo, e não podia ser diferente aqui.

 

O Mini do Enrico

É muito legal ver um jovem brasileiro com amor por algo tão obscuro por aqui. Mas o Enrico Capraro Brancher, dono do Mini desta matéria, provavelmente é predestinado a isso. É uma história que vem de seu pai, também um entusiasta, que nos anos 1970, na Itália, pegou emprestado um Mini de um parente para uma viagem. Obviamente voltou dela apaixonado pelo carrinho, e depois disso, sempre sonhou em arrumar um aqui no Brasil. No final dos anos 1990, acaba conseguindo um: um Rover Mini Mayfair 1000 preto, 1988, originalíssimo, perfeito, e pouco rodado. A família ainda tem este carro, que, pasmem, hoje tem apenas 8.000 km rodados.

A infância do Enrico se tornou recheada de lembranças de Mini então: adorava passear com o pai e os dois irmãos nele, e ao contrário da Gran Caravan da família, era um carro que não dava brigas por lugares nas janelas. Mas manter o carro aqui no Brasil nem sempre foi fácil: mão de obra especializada é rara, e pouco gente sabe, por exemplo, consertar carburadores SU. Mas a família persevera, e eventualmente acha um mecânico especializado nos carrinhos em São Paulo.

A este ponto, Enrico estava fazendo cursinho, e procurando um carro para si, o que seria seu primeiro. A oficina de Mini acaba como uma parada diária dele, na volta da escola, para conversar sobre o carro e aprender mais sobre ele. Em 2011, como sempre acontece nesses casos, aparece um negócio interessante: um Austin Mini HL 1980, originalmente 850 cm³, mas já com um motor 1275 cm³ instalado. O carro era originalmente do Chile (e aparentemente veio rodando de lá, uma história que deve ser fantástica em si só), e estava na oficina para fazer alguma manutenção, e depois ser posto a venda. Depois de uma conversa com o pai, os dois compram o carro. O primeiro carro que o jovem Enrico chamaria de seu era um Mini.

Dois anos se passam com o carro em uso normal, indo para a faculdade e voltando, e todos os usos que uma pessoa faz com seu primeiro carro. Mas carroceria mostrava sinais de idade e uso, apesar de mecanicamente estar muito bom. Alguns pontos escondidos de corrosão, e amassadinhos por todos os lados. Um dia, resolve finalmente parar o carro para arrumar isso. Numa oficina que tinham na empresa familiar, Enrico encosta o Mini, o desmonta sozinho, manda a carroceria para funilaria, recebe o carro de volta, e o monta novamente. Um processo que demora três anos, e que troca a cor do carro de cinza-chumbo com teto branco para o vermelho com teto preto que está hoje.

Começa também o processo de transformação neste “quase-Cooper” que vocês podem ver nas fotos. O motor é mais bravo que um Cooper original:  aumentado para 1380 cm³, tem um comando de válvula mais agressivo, carburador substituído por um Hif44, maior que o original HS2.  A bomba de combustível é elétrica (originalmente a bomba é mecânica), o volante do motor é aliviado em peso, e o escapamento é um coletor 3 em 1, e apenas um silenciador. Uma ventoinha elétrica ajuda a enfrentar o calor do clima tropical brasileiro. O câmbio é o original do 850 cm³ então a relação de marchas é bem curta, o que o torna nervoso e ágil na cidade, mas incomoda um pouco na estrada, segundo o Enrico.

Na suspensão foi instalado um kit Hi-LO que tem regulagem de altura mas ainda com as borrachas de suspensão originais (novas, mas OEM), e um kit para regulagem de câmber na traseira. Os freios dianteiros são maiores que os originais, discos agora de 8,4 polegadas. Com isso as rodas originais de 10 polegadas foram trocadas pelas clássicas Minilites de alumínio, com 13 polegadas de diâmetro. Os pneus são de medida 175/50 -13. Parecem enormes no Mini, como rodas de aro 20 em um SUV pequeno: mais uma prova de quão minúsculo é o carrinho. Todas as peças originais e aftermarket foram compradas fora, no site inglês Mini Spares.

Diz o Enrico do resto das modificações: “O interior é tudo aftermarket, feito pelo antigo dono, o painel de madeira, os painéis das portas, todos os puxadores detalhes da porta, tudo foi trocado por peças especiais para Mini. Os bancos também não são os originais, mas não sei que modelo são; nunca encontrei iguais a venda. O volante de direção é um Mountney de 13″ (330mm). Quase tudo no carro já foi trocado. Como o carro do meu pai é extremamente original, sempre tivemos dó de mexer, e este acabou virando o carro mexido da família. ” Como se pode ver, uma família de extremo bom gosto, cuidado e conhecimento sobre o que tem em mãos. Que possamos ser todos assim!