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Auto Modellista: o game de corrida que te colocava dentro de um anime

Falando em games de corrida, você deve lembrar do começo dos anos 2000 por causa de Need For Speed, tanto Hot Pursuit quanto a sub-série Underground, ou por causa Gran Turismo e do surgimento de seu arquirrival, Forza Motorsport.

Mas existem alguns outros games de corrida bem bacanas daquela época que podem não ter conseguido o mesmo reconhecimento, mas não foi por falta de merecimento. Alguns até se tornaram clássicos menos citados, mas nem por isso menos lembrados – títulos como Midnight ClubBurnout, por exemplo, são excelentes jogos e garantiram a diversão de muitos leitores.

Outros jogos, porém, não conseguiram nem mesmo isto e acabaram se tornando pérolas esquecidas nos últimos dez ou quinze anos. Auto Modellista é um deles.

Também é bem provável que, para você, a Capcom seja famosa por Street Fighter ou Resident Evil e suas dezenas de títulos, mas os caras não são muito reconhecidos aqui no ocidente por jogos de corrida. Há um bom motivo: ele foi o único game de corrida totalmente desenvolvido pela empresa, que jamais se aventurou pelo gênero novamente.

Vamos dar uma contextualizada nas coisas antes de tentar entender o motivo. Auto Modellista foi lançado em 2003, no início da sexta geração de consoles domésticos – aquela que compreende o Sony PlayStation 2, o Nintendo GameCube e o Microsoft XBox. Foi a última geração em que os consoles eram apenas isto, consoles, e não máquinas poderosíssimas de entretenimento multimídia. Para muita gente, a sexta geração também a última dos games old school, e um bom game tinha de ter bons gráficos e boa jogabilidade, e não tinham o apelo de rede social que têm hoje.

Com jogos de corrida não era diferente: sem um diferencial – fosse uma reputação consagrada, um patrocinador famoso, uma bela lista de carros ou algum aspecto de sua jogabilidade ou um recurso inovador, dificilmente um game de corrida se transformava em um sucesso.

No caso de Auto Modellista, que foi lançado logo no início da nova geração e concorria com os já clássicos Gran Turismo 3: A-Spec, de 2001 e Need for Speed Underground, de 2003 (Forza só seria lançado em 2005), tinha nos gráficos este diferencial. E que gráficos!

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Não dá para dizer que a Capcom é inexperiente quando o assunto são gráficos. Street Fighter ficou conhecido por seus personagens e cenários muito coloridos e bem desenhados, enquanto Resident Evil foi um dos pioneiros entre os consoles a utilizar imagens tridimensionais pré-renderizadas para conseguir uma dose extra de realismo nos ambientes do jogo.

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Com Auto Modellista, o truque foi o uso do cel shading (assim mesmo, com um “l” só, e não cell shading como se costuma escrever). A técnica de renderização consiste em eliminar as gradientes de cores e reforçar os contornos em imagens tridimensionais, achatando as cores e dando a impressão de um desenho animado ou história em quadrinhos. A imagem ao lado faz um trabalho melhor do que as palavras para explicar o conceito: ambas são renderizações em 3D, mas só a segunda traz o aspecto de desenho – note como as sombras e contornos ficaram mais marcados. Em uma imagem animada, como um filme ou game, o efeito visual é bem interessante.

cel shading estava na moda na indústria dos videogames do início da década passada: a série Dragon Ball Z: BudokaiLegend of Zelda: The Wind Waker, Sly Cooper, Viewtiful Joe e outros clássicos se aproveitaram muito bem da técnica, e ainda eram bons jogos. Por esta razão, a Capcom optou por colocá-la em Auto Modellista.

Era muito legal ver todos os carros icônicos com os quais estávamos acostumados de uma forma completamente nova – quer dizer, nem tão nova assim para quem acompanhou Initial D ou Wangan Midnight, que eram animes com carros modelados em cel shading.

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O tratamento estava nos menus, nos cenários e nos carros, que tinham cores vibrantes e eram bastante detalhados, mesmo que os gráficos não fossem realistas. Ao acelerar, linhas brancas na tela vinham em sua direção para dar a sensação de velocidade. Era uma experiência completamente diferente da que qualquer outro game de corrida poderia proporcionar.

Quanto à jogabilidade, Auto Modellista ficava bem no meio da fronteira entre um arcade e um simulador. Não era preciso muito tempo para pegar a manha do jogo – a física era bastante complacente, com uma curva de aprendizado bastante tranquila. Além disso, mesmo antes de começar uma corrida, era bem divertido passear pelos menus, organizados e coloridos, típicos dos games feitos no japão. Até mesmo as músicas lembravam títulos como Capcom vs. SNK (na humilde opinião deste escriba, um dos melhores games de luta em 2D de todos os tempos).

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Só que, ao mesmo tempo, a Capcom tentou inserir alguns aspectos de simulador em Auto Modellista: era possível escolher entre diversos jogos de pneus e componentes de preparação, além de ajustar a suspensão, os freios e outras características dinâmicas dos carros (que, sem surpreender ninguém, eram japoneses em sua maioria).

Acontece que as modificações feitas no seu carro não correspondiam à mudança esperada, especialmente para quem estava acostumado com games mais técnicos. Os carros continuavam fáceis de controlar e a jogabilidade continuava divertida, mas não agradou quem esperava um “Gran Turismo em desenho animado”. Na prática, os ajustes no carro causavam mudanças arbitrárias no comportamento dos carros, e era preciso praticar bastante para pegar o jeito.

Por outro lado, você não precisava vencer corridas e aumentar sua habilidade para liberar novas modificações e componentes: tudo já estava disponível desde o início, como um grande incentivo para jogar. Até mesmo a decoração para sua garagem era fornecida!

Por causa disso, Auto Modellista acabou simplesmente não pegando. Mesmo com alguns outros aspectos inovadores, como um modo multiplayer online para até oito jogadores – até porque, naquela época, a conectividade e os jogos eletrônicos ainda não andavam de mãos dadas como hoje.

Apesar disso, trata-se de um bom game que vale a pena de ser revisitado. Não é tão difícil encontrar uma cópia na internet, em sites como o Mercado Livre. Tire a poeira de seu PS2 e dê uma chance a Auto Modellista!