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Car Culture

“Autobahn”: o primeiro álbum que misturou música eletrônica e carros

Há não muito tempo rolou uma verdadeira febre pelo retrowave, também conhecido como outrun electro – gênero de música eletrônica inspirado pela cultura oitentista, incluindo filmes, games e, claro, carros. Foi um fenômeno – muita gente que só ouviu rock and roll a vida inteira ficou viciado nos sons sintetizados e nostálgicos do retrowave. Posso afirmar que isto aconteceu comigo.

Voltando um pouco mais no tempo, porém, chegamos àqueles que possivelmente foram os primeiros a associar a música eletrônica com os automóveis: os alemães do Kraftwerk, com seu álbum Autobahn, de 1974. Na verdade, eles são amplamente considerados os maiores pioneiros da música eletrônica, e os responsáveis por introduzi-la ao mainstream.

Estamos falando disto porque, infelizmente, o ano de 2020 não está sendo gentil e nos trouxe mais uma perda. Desta vez foi Florian Schneider, um dos membros fundadores do Kraftwerk, quem nos deixou – no último dia 30 de abril, aos 73 anos de idade, depois de uma breve luta contra o câncer. Ao lado Ralf Hütter, com quem fundou o Kraftwerk em 1970, ele ajudou a criar o som repetitivo, atmosférico e futurista pelo qual o grupo viria a ser conhecido e aclamado por décadas, conquistando status de lenda por sua influência na música em geral. Schneider permaneceu no Kraftwerk até 2008, quando deixou o grupo por razões que nunca foram totalmente esclarecidas. Diziam apenas que ele iria dar atenção a seus projetos solo.

Ralf Hütt e Florian Schneider

Por mais que Schneider não tivesse uma estreita relação com os carros, ele foi uma das mentes criativas por trás de uma das obras que melhor utilizaram o carro como conceito em uma obra artística – de forma explícita e intencional, mas também de uma maneira abstrata e sensorial, e não concreta e direta. Algo que, para ser compreendido de forma completa, precisa ir além da icônica capa do LP, com a rodovia, o céu azul, um Mercedes e um Fusca.

A ideia era evocar uma viagem de carro pela Autobahn através da música, que dura 22 minutos e 43 segundos. É uma canção longa, sim, como algumas da obras mais emblemáticas do rock progressivo daquela época. E o Kraftwerk, apesar de ser um dos padrinhos da música eletrônica moderna, começou com uma banda de rock – ou melhor, de krautrock, estilo alemão de fazer rock que misturava influências do rock progressivo e psicodélico com instrumentos eletrônicos e adotava ritmos mais sincopados e repetitivos que as bandas mais melódicas do Reino Unido e dos EUA. Os três primeiros trabalhos do Kraftwerk já traziam uma dose ligeiramente maior de sintetizadores. O que o grupo fez naquele que que foi seu quarto álbum foi abraçar de vez a instrumentação eletrônica e o experimentalismo, em um movimento que foi arriscado… mas deu certo.

Para o Kraftwerk, era muito importante reafirmar a cultura e a identidade alemãs dos músicos através da sua arte – por mais que a Segunda Guerra Mundial tivesse acabado havia mais de 30 anos, os membros do Kraftwerk nasceram em uma Alemanha dividida e ainda sofrendo com os efeitos do conflito. Mas a intenção não era fazê-lo de forma agressiva e contundente, mas sim oferecer uma experiência artística com tempero futurista e germânico.

Em 1974 as ruas alemãs eram povoadas pelo Fusca (ou melhor, pelo Volkswagen Käfer) e também por alguns dos modelos alemães mais icônicos já feitos. Para se ter ideia, o BMW 2002 Turbo foi lançado naquele ano, bem como os primeiros Golf e Scirocco. A Audi lançava seu compacto 50 (que deu origem ao primeiro VW Polo no ano seguinte), e a Mercedes-Benz fazia enorme sucesso com o sedã W114/W115, equivalentes ao atual Classe E; e o W116, que daria origem ao Classe S.

A combinação automobilística na capa é interessante porque traz dois extremos da indústria automobilística a – o Fusca e o Mercedes-Benz W111, em uma representação quase onírica de uma Autobahn. A capa foi feita pelo artista plástico Emil Schult, que também recebeu créditos na faixa-título do álbum. A imagem representa um trecho da primeira Autobahn alemã, a A555, que liga as cidades de Köln e Bonn, em um dia de verão, e encaixa-se perfeitamente com a faixa título. É uma pena que, quando a discografia do Kraftwerk foi relançada em 2009, a arte original tenha sido trocada por uma placa de sinalização das Autobahnen alemãs.

A música começa com o ronco de um VW dando a partida – vindo de um disco de samples alemão, e segue um ritmo constante, com sons que lembram carros passando em alta velocidade produzidos por um sintetizador Minimoog. Inicialmente seriam utilizados roncos de carros de verdade rodando na Autobahn, gravados com um microfone pela janela do Fusca cinza de Hütter – que é o Fusca representado na capa. Na hora encaixá-los na música, porém, a banda decidiu utilizar o sintetizador – o que acabou criando uma das marcas registradas da canção. De acordo com Hütter, uma experiência interessante é ouvir o álbum e depois ir dirigir em uma rodovia. “Quando você faz isso, acaba descobrindo que seu carro é um instrumento musical.”

A letra era curta e simples: Wir fahren fahren fahren auf der Autobahn – que significa “nós dirigimos dirigimos dirigimos na Autobahn”. Na versão completa, a parte com vocais corresponde a uma parcela pequena da canção, que possui diversas passagens distintas utilizando teclados, bateria eletrônica e manipulação de gravações analógicas, além de uma seção final com flauta, piano e uma bateria acústica. O single foi editado para ficar com pouco mais de três minutos, e acabou definindo o formato padrão das músicas de electro pop das décadas seguintes – sendo também a única música do Kraftwerk a atingir as paradas da Billboard nos Estados Unidos.

Nos EUA, aliás muitos pensaram que a letra dizia fun fun fun on the Autobahn. O grupo já comentou algumas vezes que a confusão incomodava no início – especialmente porque alguns achavam ser uma referência à música “Fun, Fun, Fun” dos Beach Boys, de 1964 – mas que depois os membros passaram a achar a interpretação apropriada. Afinal, a mensagem era que dirigir em uma Autobahn é mesmo algo divertido.

Autobahn é amplamente considerado o álbum que revelou o Kraftwerk para o mundo, e foi seguido da primeira turnê internacional do grupo, que apresentou-se no Canadá, nos EUA e no Reino Unido. Durante a turnê foi que a formação clássica do Kraftwerk ficou definida – Ralf Hütter, Florian Schneider, Wolfgang Flür e Karl Bartos.

Depois da turnê, o Kraftwerk começou a trabalhar no álbum seguinte, Radio-Aktivität, que foi lançado em 1975 e também era uma obra conceitual, porém sobre a radiocomunicação. Outros discos icônicos vieram depois, como Die Mensch-Maschine (1978) e Computerwelt (1981). Pode até ser que nestes trabalhos o Kraftwerk tenha tornado ainda mais forte sua identidade artística, mas foi Autobahn que começou tudo e teve a maior importância neste sentido.