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Pensatas

Convivendo com o imperfeito VW Up!

Um meteorologista e apresentador de TV americano com 50 anos de experiência com previsão do tempo, deu uma entrevista recentemente, que serve muito bem para ilustrar as mudanças do mundo em meio século. vw up

Disse que quando começou, usava sua intuição e algumas medições bem rudimentares para prever, no máximo, como seria o dia. Muitas vezes errava até isso. Hoje, juntando sua vasta experiência e simulações de computador e informações de satélite, quase nunca erra, mesmo prevendo regularmente uma semana inteira.

Mas ao contrário do que se poderia esperar, quando era jovem, os índices de confiança do público em suas previsões eram excelentes. Hoje, nem tanto: são menos da metade do que eram no início de sua carreira.

Sim, um mundo com todo tipo de informação no bolso é também um mundo extremamente cético. Sim, muito vem do Google; qualquer médico lhe dirá que é uma praga para qualquer especialista, agora tendo que lidar com diletantes supostamente empoderados pela informação.

Mas não é que os especialistas não tenham alguma culpa nisso também. Obcecados com as minúcias de seu campo particular de estudos, algumas vezes se descolam das necessidades e desejos reais da população a quem deveria servir.

Veja o caso do veículo pequeno urbano. Os engenheiros e especialistas da indústria os adoram: para que andar por aí com toneladas e toneladas de metal inútil? Um carro pequeno faz todo sentido para 90% das pessoas que usam carros diariamente.

Sendo pequenos podem ser mais leves, e sendo mais leves podem ser mais velozes ao mesmo tempo que mais econômicos em combustível (ou energia elétrica), atingindo a tão desejável “eficiência” que todos querem. Menos espaço ocupado melhora as ruas e o tráfego. As vantagens são enormes. Os especialistas adoram.

O problema aqui é que antes de qualquer eficiência, o que as pessoas gostam num automóvel de verdade é a prontidão. É poder fazer uma série de coisas se a oportunidade aparecer, mesmo que ela não apareça. É estar esperando a gente a todo momento numa garagem, pronto para fazer o que der na nossa telha.

Afinal de contas, entre os dez carros mais vendidos do mundo, estão duas caminhonetes grandes americanas, que são usadas cada vez mais como veículos de passeio. Quando eu preciso carregar uma tonelada de carga? Nunca, se for honesto comigo mesmo. Mas é muito bom poder ter esta capacidade disponível se eu quiser. E você não vai ver nenhum carro urbano de dois ou cinco lugares nesta lista, apesar da vasta maioria da população mundial morar em centros urbanos.

O tal carro pequeno e eficiente para a maioria do uso que a população do mundo faz de um carro é uma quimera, uma especialização que não leva em conta o real motivo de amarmos nossos carros. Nunca foram um sucesso real na história do automóvel, a não ser quando foram ajudados por alguma legislação, ou crise aguda temporária.

A VW, quando criou o Up!, estava sendo criativa. Original, diferente. Algo que sempre pedimos e gostamos. Mas de novo perseguia uma utopia de afinidade com eficiência que nunca tocou a população em geral. E a VW do Brasil, quando trouxe o carrinho para o Brasil, de novo errou ao esperar que fosse o novo Gol, o carro da família brasileira. Fez sucesso apenas como carros assim fazem sucesso: como carros de jovens solteiros ou casais sem filhos; ou segundo carro da família.

Mas os especialistas diziam: é um grande carro. Eu sei porque fui um deles. Na verdade, eu fiz mais: usei meu rico dinheirinho para comprar não um, mas dois deles, um TSI 2016, e um I-Motion 2018. Ainda estão por aqui, ainda que não exatamente comigo: um está com minha filha, e outro com minha mãe. Esta última, gostou tanto do carrinho que queria comprar outro igual, zero-quilômetro. Quando lhe disse que não era mais feito, sua decepção com a indústria era palpável. Resolveu que não vai vender o dela. Nunca.

 

O VW Up! brasileiro

O conceito original de 2007: próximo do final.

O início deste carrinho é europeu, mas veio da cabeça de um brasileiro: o designer Marco Pavone, trabalhando na matriz, é responsável pelo carro-conceito de 2007. A VW queria um carro menor que o Polo então, visto que carros sempre crescem de tamanho com o tempo e o Polo já era maior que o primeiro Golf desde 2002, então algo menor era necessário; o Lupo, um carro pequeno europeu para esta faixa, um fracasso descontinuado em 2005.

O fracasso do Lupo parecia indicar que algo mais original e diferente para esta faixa era necessário, o que levou a marca até o Up!. O conceito tinha motor traseiro, um novo Fusca em espírito, mas a versão final acabaria numa configuração mais tradicional e provada, de motor transversal dianteiro e tração dianteira.

Por dentro o conceito de 2007 também é próximo do final.

Como o Renault Twingo original, algumas grandes sacadas no Up! foram primeiro, a carroceria monovolume, em formato quadrado para ocupar todo espaço delimitado por suas dimensões máximas; o Twingo arredondou mais os cantos e dois olhos arregalados para uma aparência simpática; o VW como sempre tem mais ângulos fortes e acaba parecendo… bem, um potinho de sorvete com rodas.

Em segundo lugar: o espaço reservado para o motor e câmbio são severamente limitados, de novo para mais espaço interno dentro das dimensões máximas. Tanto o Twingo como o VW Up! não tem espaço para motores maiores no cofre; nem muito menos transmissão automática convencional.

Pena somente que a VW não foi adiante e copiou o banco traseiro para apenas duas pessoas, entre as caixas de roda traseiras, e montado em trilhos; uma solução até tentada em protótipos pela filial brasileira no protótipo BY. Do jeito que ficou, não comporta dois adultos atrás, a não ser muito desconfortavelmente.

O que é uma surpresa quando se decidiu trazer o carro para o Brasil, para ser efetivamente um substituto do Gol. Sim, o primeiro Gol não tinha lá muito espaço no banco traseiro, e as gerações subsequentes não resolveram totalmente o problema. Mas a exigência, e o tamanho das pessoas, sempre aumenta. E mesmo sendo mais antigo em concepção, o Gol tinha uma situação de passageiros melhor que a do Up!.

Mesmo assim a VW o trouxe, uma decisão corajosa. Afinal, era um carro moderníssimo, mesmo lá fora. Seu uso de chapas de aço de altíssima resistência era sem precedentes aqui, suas tolerâncias gerais de projeto, de novo de carro de luxo moderno europeu.

A rigidez da carroceria era incrível, como era incrível também a absorção de impactos num carro tão pequeno: o Up! no seu lançamento foi o primeiro VW made in Brazil a receber cinco estrelas da Latin NCAP. Um feito que denota engenharia avançada em um carro tão pequeno.

O carro foi modificado para o Brasil: apesar do mesmo entre-eixos, o comprimento era maior em 65 mm que o europeu, graças a revisões na seção traseira do assoalho para acomodar um tanque de combustível maior (50L em vez de 35L da Europa), uma roda sobressalente de tamanho normal e maior espaço de carga. A tampa do porta-malas era de metal e não vidro, e as portas laterais traseiras, diferentes em desenho, e com vidros que subiam e desciam por meio de manivelas.

Aí vemos alguns tabus brasileiros: na Europa os vidros eram fixos atrás. Junto com o estepe full-size, e o tanque maior, mostram uma tentativa de adequar o carro ao mercado brasileiro do Gol, mas sem o dinheiro necessário para isso: precisava de mais entre-eixos, certamente, e uma ergonomia diferente na traseira. Ou um banco traseiro a lá BY, o que seria genial para a engenharia nacional, ainda que parecesse hoje cópia de Twingo.

O fato é que não foi suficiente: o carro era considerado caro e pequeno, e pouco equipado. Sua busca de eficiência e altíssima performance o obrigava a ser simples, a tratar espaço como algo que não podia ser desperdiçado, mas o público via inconveniências apenas. Não tinha maneira de se fazer vidro elétrico atrás, e ao parar no posto, era necessário sofrer a indignidade de dar a chave a ele para abrir o bocal do tanque. Oh, a vergonha!

O motor era uma pequena joia. Um minúsculo três-cilindros de um litro absolutamente no topo da tecnologia de seu tempo: injeção direta, DOHC, quatro válvulas por cilindro, todo de alumínio, e com uma versão turbo. A posição de dirigir e os novos bancos, perfeitas para um carro tão pequeno.

Era um carro original, diferente, uma raridade hoje em dia. Como todo carro assim, muitos amam, e muitos odeiam; nunca é para todos. Por isso, o carro não foi um fracasso, mas também não um sucesso. Na verdade, vendeu muito bem como, quem diria, um carro de luxo para duas pessoas, e um segundo carro quase perfeito. Muita gente, ao ver a resposta entusiasmante de seu motor, comprou o TSI como se compra carro esporte: pelo desempenho.

VW Up

Mas nunca vendeu nas quantidades planejadas, e acabou descontinuado. Ao parar de ser feito, uma coisa estranha: os preços no mercado de usados subiram! Um reflexo claro do fato de que não existe nenhum outro carro como o Up! no mercado. Como o Sandero RS, era uma proposta única e sem par: seu fim é diminuição de variedade.

 

Como é conviver com um VW Up?

Quando peguei um Up! TSI pela primeira vez, de um amigo, e saí no meio do trânsito da cidade do Rio de Janeiro com ele, não me contive. Comecei a rir e gargalhar como um moleque de cinco anos que, de repente, descobriu as suas pequenas partes íntimas.

O TSI de casa.

Era algo simplesmente sensacional: a posição de dirigir lembrava outro carro alemão pequeno original, o Mercedes-Benz A-Class. Era com o volante e painéis altos, mas em boa posição, e o banco muito bom ergonomicamente. Mas o que realmente me fez rir era a agilidade em meio ao trânsito: cabia em todo buraco entre carros, e era rapidamente impulsionado para o tal buraco por uma explosão de torque do motor turbo. Pensou, estava lá!

Tudo isso acompanhado do ronco de meio-911 que vem em todo motor três em linha, de uma direção bem precisa e leve, uma suspensão bem firme, e um delicioso câmbio manual com alavanca curtinha, com curso de troca também curtíssimo, como é praxe nos VW. Genial!

O outro: imotion.

Eu já tinha experiência com o Up! de minha mãe, antes desse. Um carro comprado zero no fim de 2017 como modelo 2018, era também uma delícia de carrinho. I-Motion, um câmbio que a maioria não gosta, mas que se tratado como um câmbio manual sem embreagem, funciona bem.

Levante o pé e troque a marcha você como se fosse um manual; nas reduções aproveite o “punta-tacco” automático. Não é nem um auto macio, nem um manual de verdade com controle mais minucioso, mas é um meio termo: meio-termo nunca é perfeito.

Apesar do compromisso que é o I-Motion, o resto do carro era sensacional. Não, espera: ainda é. Depois de 50.000 km e cinco anos ele continua como novo, praticamente à prova de problemas. Na estrada mantém médias altas de velocidade consumindo pouquíssimo combustível e com um conforto decente, e na cidade é um companheiro também agradabilíssimo e frugal.

O motor pode não ser tão potente quanto o TSI, mas é uma delícia. Gira fácil e linearmente, com brio e um ronco entusiasmante. Sua linearidade faz ele subjetivamente mais gostoso que o TSI de motor, na verdade, se obviamente menos potente.

Mas juntando essas duas experiências, acabei comprando um Up! para mim em 2018. Um High Up! TSI, marrom, de um amigo. Usado, 2016, em perfeito estado, e com as bonitas rodas de alumínio aro 15 que depois descobriria serem piores de usar.

Usei este carro por dois anos todo dia, até que minha filha, agora habilitada, efetivamente tomou posse dele. Agora uso o carrinho apenas esporadicamente, mas aos 85.000 km, devo dizer: outro carro absolutamente confiável, um tanque de guerra que pede apenas que se ponha gasolina, troque o óleo de vez em quando, e rode. A falta de problemas com os dois é digna de nota.

Acho o Up! verdadeiramente sensacional. Mas, devo confessar, não sou apaixonado pelo carrinho. Respeito e reconhecimento não é amor nem muito menos paixão. Por que será? Eu pensei muito neste assunto; afinal de contas, gosto muito dele, como acabei de dizer. Mas falta algo. Mas agora, depois de muito pensar, acho que posso explicar o motivo.

O primeiro diz respeito a um conceito básico de conforto veicular. A gente aprende que para um carro ser confortável ele precisa absorver impactos. Não somente impactos de suspensão, mas rodos os impactos; conforto é empurrar gentilmente, nunca socar.

O Up! TSI tem dois problemas aqui. O primeiro é fácil de entender: você está alto e próximo do eixo dianteiro num carro onde a base, entre-eixos e bitola, comparativamente são pequenos. Para isso, a suspensão tem que ser já meio dura para controlar os movimentos da carroceria, mas isso não é o principal problema.

O principal problema é o efeito “cadeira de escritório com rodinhas”: você está alto numa base pequena, e move-se para frente e para trás, e para a esquerda e a direita, com a cabeça, de uma forma que não é muito suave. E a cabeça move mais que a busanfa: uma diferença que nunca é desejável; o ideal é, se tem impacto, que ele seja distribuído.

Além disso, há o motor. Muita gente adora a explosão de força do motorzinho turbo, que é nada linear (ainda que sim, divertida às vezes): quando se crava o pé, a sensação é de nada, TUDO, troca marcha. É uma explosão mesmo, que não dura muito como toda explosão, e te joga quase imediatamente aonde quer ir. Legal, mas de novo, joga a cabeça para trás com força, e para frente quando você troca de marcha e repete o processo.

Pior aqui no meu carro, com pneus grandes e pesados, que exigem suspensão ainda mais dura, e que tem inércia grande demais para o carro. Nele, me sinto um daqueles brinquedos bobblehead, cabeça balançando para todo lado o tempo todo. Os dois problemas se sobrepõem num só.

Por isso, por exemplo, os aspirados são melhores. Lineares, nunca compõem o problema inerente do carrinho firme, com banco altos e base pequena. E não é que o TSI seja realmente um monstro de potência: um motor 1.4 aspirado do Onix da geração anterior tem a mesma potência. Na minha garagem dá para ver a diferença: o Virtus manual 1.6 litros anda igual, mas é totalmente linear e, por isso, mais gostoso de usar.

O TSI funciona bem mesmo é em auto-estrada, onde mantém altas velocidades com reserva de torque sempre; assim, sem buracos no chão e com motor cheio, mas sem a explosão de acelerações à baixa velocidade, é uma delícia de viajar. E é divertido no trânsito, explorando o torque no motor, não há dúvida. Mas no geral, o aspirado é bem mais agradável.

Em estradas como Romeiros, e em pista, também, o VW Up! está fora de seu habitat: no limite é um subesterçante resoluto. Os pneus originais, de baixo atrito para economia de combustível e emissão, fazem este limite chegar cedo; pneus melhores ajudam pacas. Mas definitivamente, não tem vocação esportiva.

Não quero que vocês entendam como algum demérito os detalhes que mencionei aqui. São apenas características do carro, que é diferente do normal, e por isso, com personalidade própria. O carro é ótimo para todas as coisas normais para qual se usa um carro, extremamente eficiente em combustível, e absolutamente confiável e durável. O que mais alguém pode querer? Bom, eu quero um pouco mais; mas sei que não sou referência.

Rodas de aro 14 ajudam muito no conforto, sem perder nada em aderência; motor aspirado e câmbio manual fazem o problema do bobblehead ficar bem menor. Os carros de MY18 em diante tem painel com mostradores maiores que ajudam muito (minúsculos nos anteriores, outra economia para baratear o carro que incomoda), e acabamento melhor, além de um útil suporte para celular.

Só não tem realmente espaço ou ergonomia boa no banco traseiro. E carros assim, sabemos, nunca serão um sucesso; mesmo que o banco fique vazio a maioria do tempo. O VW Up! pode ter sido um erro estratégico no volume de vendas; talvez se programado para um volume menor com preço ainda maior, pudesse achar um nicho mais constante.

Mas não importa: foi um ato de coragem tecnológica, e de criatividade, da VW. Um carro que pode não ser perfeito, mas pelo menos era único; não existe nada igual a ele a venda hoje em dia. Uma coisa que nós, entusiastas, devemos no mínimo, respeitar. É algo que está, afinal de contas, ficando cada vez mais raro.

Carros pelos quais sou completamente apaixonado entraram e saíram da garagem da família; os Up!, pelo outro lado, parecem ter entrado para nunca mais sair. Pelo jeito, vão nos continuar prestando serviços por muito tempo. E meu filho mais novo vai tirar habilitação em janeiro próximo, então… alguém sabe de um duas-portas em perfeito estado a venda?