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Pensatas

Derrubando o mito dos jovens que não querem mais carros

Ainda faltavam quatro meses para eu completar 18 anos. Eu fazia curso pré-vestibular extensivo, pois precisava ser aprovado na Universidade Federal de Santa Catarina, então volta e meia ia para as aulas à tarde. Oficialmente eram aulas “de reforço”, mas na realidade eram aulas em que o professor atendia meia-dúzia de alunos e passava o resto do tempo conversando sobre qualquer coisa com os gatos pingados que apareciam ali. Naquele dia, especificamente, eu fui a uma aula de língua portuguesa porque havia perdido a manhã no pátio do Batalhão de Infantaria, fazendo o juramento à bandeira depois de ter sido dispensado do serviço militar.

E eu lembro especificamente deste dia porque aconteceram duas coisas que serviram de referência temporal entre si, e voltaram a se relacionar nesta manhã de 2021, quando refletia sobre um link que o MAO compartilhou no grupo do FlatOut. A primeira é que eu voltei do meu “dever cívico” de carona com um amigo que já tinha carro, e escapei dos ônibus lotados por todos os marmanjos de 18 anos da cidade. Foi um alívio, porque mesmo tendo saído cedo, às 6h, os ônibus estavam lotados na ida, porque além da molecada havia o pessoal que trabalhava numa fábrica alguns quilômetros à frente. A segunda é que na aula da tarde ouvi do meu professor uma interpretação sobre a universidade que eu jamais tinha escutado e nunca mais ouvi semelhante.

Na aula, o professor — antecipando em uma década o “stay hungry, stay foolish” de Steve Jobs – disse para mim e para os outros seis ou sete alunos presentes que a faculdade é o lugar de duvidar. “Quando as universidades surgiram, na Idade Média, as pessoas iam duvidar das certezas do mundo. Hoje, as pessoas vão para a faculdade para aprender certezas.”

É um pensamento afiadíssimo, severamente crítico ao sistema de ensino superior como minha geração conheceu. “As faculdades foram feitas para se duvidar. Hoje vamos para ter certezas.” A faculdade não pode ser um lugar de certezas, jamais. Porque elas são os lugares onde nasce a ciência. Certeza deriva de certo. Quando você quer uma certeza, você quer um conhecimento certeiro, que não erra. E para não errar, ele não pode mudar, porque a mudança traz o risco de erro. É por isso que a certeza não combina com a ciência.

Quem tem certeza, não precisa se abrir para novos experimentos, para novos pontos de vista, para novos elementos, novos fatos. A gente faz piada, mas pense por um instante quantas vezes a manteiga mudou de vilã para mocinha e vice-versa. Pense na indecisão dos astrônomos sobre o status de Plutão: é um planeta ou não, afinal? Era, deixou de ser, voltou a ser. Sabe por quê? Por que a ciência é assim, incerta. Se fosse certa se chamaria certeza, e não ciência.

É por causa deste professor que eu repeti em mais de uma edição do nosso podcast que, hoje, as pessoas têm muita certeza sobre o futuro. As fabricantes, os governos (principalmente os governos), o público consumidor, têm certeza de que o futuro será dos carros elétricos, dos carros autônomos, têm a certeza de que o amanhã é um ambiente hermeticamente controlado por suas canetas, livros e ações imediatas.

Então veio 2020 trazer um pouco de incerteza para essa turma onisciente. De repente, aquelas cidades perfeitas, com aglomeração urbana em volta dos corredores de transporte público se mostraram inúteis, porque nenhum “ciente” tinha ciência da possibilidade de uma pandemia aparecer em pleno século XXI. Afinal, temos a ciência. Ela ja controlou epidemias, já erradicou a varíola. Quais as chances de haver uma pandemia?

Enquanto Sócrates rola em gargalhadas em algum lugar do Oilmpo, as certezas do mundo eram asfixiadas pela realidade. E aqui lembro do meu amigo Allan, oooo condutor, naquele dia do juramento à bandeira: eu não queria me enfiar num ônibus quente, cheio de moleques suados como eu. Eu só queria um carro, algo que estava a quatro meses da minha realidade. E nessa hora meu amigo apareceu fazendo o que amigos fazem: nos colocam ou tiram de roubadas. Felizmente aquele era o dia de me tirar de uma roubada.

Era tipo isso, mas todos os passageiros eram moleques de 18 anos

Os quatro meses se passaram rapidamente e, como todo moleque da minha geração, no dia do meu aniversário de 18 anos eu estava na porta da Auto Escola… descobrindo que eu não teria dinheiro para a habilitação. Meus pais tinham acabado de se separar e agora eram três casas para sustentar (ops, essa foi ácida), eu ainda não trabalhava porque estava confiante na aprovação para a Federal de Santa Catarina — o que acabou acontecendo, no fim das contas.

Em 2020, os jovens de 18, 19, 20 anos como eu, vinte anos atrás, também não queriam pegar um ônibus ou um metrô lotado. Agora, com um motivo bem mais racional: um micro-organismo em forma de coroa, capaz de matar algumas pessoas. De repente, aquela certeza dos anos 2010, de que os jovens não se interessavam por carros, se tornou tão frágil quanto um parasita sem hospedeiro.

Na verdade, a noção de que os jovens não se interessavam por carros era muito baseada em pesquisas diversas e no número decrescente de novas habilitações em alguns países — o que, em tese, significa que os jovens se interessam menos por automóveis do que outrora. Mas, ao mesmo tempo, pesquisas (e aqui entra o lado incerto da ciência) indicavam que a geração Y se interessava por carros sim, e queria carros tecnológicos — daí a gadgetização dos automóveis de hoje.

“Novo estudo prova que a Geração Y não quer saber de carros”, dizia a matéria de onde tirei esta imagem, publicada em novembro de 2011. Pense em algo que envelheceu mal…

Há também um outro problema nessa história de jovens. O que é um jovem? Um adolescente é jovem. Um adulto de 18 anos é um jovem adulto. Um adulto de 30 anos é jovem perto de um adulto de 55 anos. O fato de a classificação de gerações ter uma abrangência muito grande também atrapalha. Veja só: a geração Y/Millenial compreende os nascidos entre 1980 e 1995. Faz sentido? O mais velho dos millenials tinha 18 anos quando o mais jovem tinha apenas três anos. E, quando o mais novo dos millenials tinha 18 anos, o mais velho já tinha 33 anos. São fases bem diferentes da vida, mas que acabam no mesmo balaio de gatos quando se faz uma pesquisa sobre “o que a Geração Y espera dos carros”.

Talvez por isso, em 2012 a ideia de que a geração Y não gostava de carros começou a ser tratada como um mito. Porque, de repente, os millenials começaram a comprar carros, mas eles já tinham vinte-e-muitos ou trinta-e-poucos anos. Aos poucos, a geração Y acabou substituída pela geração Z (nascida entre 1996 e 2010) nessa história de não gostar de carros. A substituição trouxe velhas certezas: os jovens não querem mais saber de carros.

Agora, como em 2012, surgem os primeiros estudos e relatórios sobre o interesse da geração Z nos automóveis. Sim, a geração que não se interessava por carros, vejam só, agora se interessa.

E você pode argumentar que foi a pandemia que causou isso. Eles compraram carros porque era mais seguro que o ônibus (embora isso não dependa de uma pandemia para ser verdade). Só que o movimento foi apenas acelerado pela pandemia. Pesquisas e análises de mercado já apontavam para o movimento dos “Gen-Z” em direção aos carros em 2019. Aquela mesma geração que, supostamente preferia compartilhar carros (com o Uber/Lyft) a comprá-los, acabou se rendendo à ideia de comprar um carro ou moto por causa da pandemia. E mesmo após o pior momento, eles não pretendem vender os carros. O motivo é evidente: o automóvel proporcionou a eles uma comodidade, uma conveniência e um grau de liberdade que nenhum smartphone conectado a um app com um cartão de crédito cadastrado pôde proporcionar.

Além disso, a geração Z é a geração que mais rapidamente aumentou sua renda na história. Nenhuma geração ganhou tanto dinheiro tão cedo quanto a geração Z. Por que eles não teriam um carro? Vai me dizer que eles ficaram ricos para andar de Uber Black?

Nunca viu um influencer ostentando o carro novo?

E mais: a adesão ao trabalho remoto — e as novas profissões que nasceram remotamente e são praticadas por estes jovens adultos — permitiu que não apenas a geração Z, mas qualquer profissional, emigrasse das grandes cidades para cidades menores e mais amistosas ao uso do automóvel. É fácil dispensar um carro em São Paulo. O caos e a infra-estrutura da metrópole favorece quem não tem, ou não deseja, um automóvel.

E o automóvel tem uma função simbólica: goste ou não, ele representa status. Ele é uma afirmação da sua personalidade, do seu estilo de vida, da sua conta bancária, do seu sucesso. Ironicamente, a geração Z também é a geração com a menor auto-estima e menos confiante. É a geração da imagem. Por mais raso que possa parecer, dirigir um carro legal traz confiança para algumas pessoas. Ele afirma sua personalidade. Atesta quem você é. Não é muito virtuoso, mas ao menos mantém vivo o interesse pelo automóvel.

Até bem pouco tempo atrás, especialmente com o advento do Uber e do Lyft, o futuro parecia desenhado para o fim da propriedade do automóvel. Até mesmo o setor imobiliário, o grande motor da economia dos EUA, considerava o crescimento do “car-sharing” e “ride-sharing” em suas projeções para o futuro. Mas, agora, a geração Z, “de repente”, decidiu ter carros. Em 10 anos, eles irão consumir mais do que a geração Y.  Lembre-se disso da próxima vez que pensar em afirmar, com toda a certeza do mundo, que “o futuro será assim assado”. O retrógrado não é aquele que questiona demais, mas aquele que deixa de questionar e passa a ter certeza. O mundo gira, e ele continua parado, certo de que está tudo igual.