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Car Culture

Desafiando os limites: o que é real e o que é ficção na história de Burt Munro


Antes de Ford vs. Ferrari houve um outro filme sobre esporte motorizado com apelo dramático na medida certa para o público não-entusiasta, e tecnicamente correto para o público atraído pelos motores: “Desafiando os Limites”, também conhecido por seu título original “The World Fastest Indian”.

O filme fez relativo sucesso no Brasil na época de seu lançamento, por volta de 2005/2006, porém por ser uma produção “estrangeira” (para Hollywood), acabou esquecido nas areias do tempo, já que está fora dos catálogos de streaming e as locadoras fecharam as portas.

Antes de continuar, devo avisar que irei contar detalhes do enredo — os famosos spoilers. Se você ainda não assistiu ao filme e não gosta de saber o que acontece com antecedência, talvez seja uma boa parar de ler, dar um jeito de assisti-lo e depois voltar e continuar. Caso já tenha visto ou não se importa com spoilers, vamos em frente.

 

A história do filme

“Desafiando os Limites” conta a história de Herbert “Burt” Munro, um velhinho neozelandês fã das motos Indian, recordista de velocidade em duas rodas na Oceania e uma espécie de herói folclórico em sua cidade, Invercargill, na Nova Zelândia — “a cidade mais austral do Império Britânico”, como ele próprio explica no filme.

À beira dos 70 anos, Munro realizou o que tinha que realizar exceto seu principal sonho: correr nas planícies salinas de Bonneville e atingir os 320 km/h (200 mph), um desafio para o qual se prepara diariamente — e que lhe rende alguns problemas com os vizinhos, irritados com o motor sendo aquecido às seis da manhã, com seu estranho hábito de urinar em um limoeiro ao acordar, e com o total desleixo com o jardim (afinal, a moto é mais importante), o que “desvaloriza” as casas vizinhas.

Apesar de viver sozinho, ele tem como principal companhia seu vizinho Tom, um garoto pré-adolescente que o auxilia na oficina e ouve suas histórias, além dos amigos no clube de motociclismo, que o ajudam a arrecadar parte do dinheiro necessário para ir aos EUA com sua moto. Certo dia, ao acordar, Munro sente uma forte dor no peito e é diagnosticado com angina pectoris, uma doença coronariana que reduz a oxigenação do coração.

A bancada em frente à janela onde Burt fazia seus pistões

Ao perceber que poderia morrer a qualquer momento, Munro decide acelerar a realização de seu sonho. Toma um empréstimo com uma namorada que trabalha no departamento de seguro social, negocia sua travessia oceânica trabalhando como cozinheiro de um navio cargueiro e finalmente chega aos EUA com sua Indian encaixotada.

Tratado com indiferença em Los Angeles, ele começa sua jornada enganado por um taxista que o deixa em um motel “um pouco” diferente dos demais motéis americanos, sofre tentativas de golpe por prostitutas e acaba ajudado por uma recepcionista transexual que percebe a ingenuidade interiorana de Munro e o acompanha durante a liberação da moto na alfândega.

A casa-garagem-oficina e o menino Tom

Em seguida, Munro precisa comprar um carro usado e acaba negociando um desconto e o aluguel da oficina do marreteiro em troca de pequenos reparos nos carros à venda. Ali ele constrói a carretinha que transportaria sua moto até o deserto salgado de Utah. Após perder uma das rodas do reboque, acaba ajudado por um índio, depois por uma solitária proprietária de ferro-velho e, por último, ganha a companhia amistosa de um aviador voltando do que era o princípio da Guerra do Vietnã.

Finalmente em Bonneville, Burt faz amizade com um piloto local e atrai a atenção de dois fãs de motociclismo, que acabam bancando sua hospedagem. Mas ao tentar submeter sua moto à inspeção técnica, Burt descobre que não poderá correr pois não estava inscrito — e as inscrições já estavam encerradas havia mais de um mês.

Os diretores da prova consideram deixá-lo fazer um teste, porém sua idade avançada e as condições “garagistas” de sua moto — que não tem nenhum item de segurança e corre com pneus “slick” feitos à mão — o impedem de fazer o teste. Após alguma discussão e pressão dos competidores, os organizadores mudam de opinião e decidem fazer um teste livre para ver se ele consegue mesmo pilotar e se a moto tem condições de correr. É claro que sua velocidade surpreende os organizadores que, no fim, também acabam cativados pelo velho corredor e permitem sua inscrição.

Os fãs de motociclismo ajudam a empurrar a moto. Esta cena tem fundo de realidade?

No dia da tentativa de recorde, Burt é presenteado pelos participantes com uma bolsa cheia de dinheiro arrecadado entre os americanos, como um prêmio popular por sua dedicação. Após o comovente encontro, ele monta em sua moto e segue para a tentativa de recorde, temperada pelo drama de ter a perna queimada pelo escapamento quente, pela instabilidade aerodinâmica de sua moto e pela perda dos óculos de proteção devido à tentativa de estabilizar a moto com o próprio corpo.

Burt recebe o dinheiro dos novos amigos

No fim da passagem, a instabilidade aerodinâmica acaba derrubando Munro e sua Indian, mas já não fazia mais diferença. Ele já havia superado os 320 km/h e realizado seu sonho de ser o motociclista mais rápido do planeta.

Munro então retorna à Nova Zelândia onde é recebido com festa — pelos vizinhos incomodados, inclusive — e começa os preparativos para retornar a Bonneville no ano seguinte.

 

A história real

Filmes baseados em histórias reais precisam de concessões porque o realismo, afinal, está presente a cada segundo de nossas vidas entre o dia em que nascemos e o dia em que morremos. Para isso temos os documentários, não?

A dramaturgia concede licenças poéticas e liberdade criativa. Com a história de Burt Munro não poderia ser diferente. Afinal, ninguém toma uma decisão, se prepara para um recorde de velocidade, atravessa meio mundo, conquista a simpatia de centenas de estrangeiros e quebra um recorde de velocidade permanentemente em duas ou três semanas.

Os produtores do filme, então, transformaram os diversos acontecimentos da vida real de Burt em elementos dramáticos deste enredo. Burt realmente começou a pilotar em idade avançada, o que não era comum, então como elemento dramático os produtores inseriram a constante incredulidade sobre sua capacidade de pilotar uma moto e quebrar um recorde. Durante todo o filme, desde o início, quando os vizinhos pensam que Burt é maluco, até o momento em que ele é desafiado pelos greasers na praia, ou quando ele conhece o hot rodder Jim Moffatt em Bonneville, já na segunda metade do filme.

Nascido em 1899, seu interesse por motos foi despertado somente m 1920 (aos 21 anos, portanto), quando ele viu uma Indian Scout 600 de três marchas e decidiu guardar dinheiro para comprar uma igual. Sua estreia nas pistas, contudo, aconteceu somente em 1926, já aos 27 anos — uma corrida em dirt track (oval de terra). Antes disso ele estava muito ocupado “trabalhando todos os dias e dançando todas as noites”, como contou à revista da Associação de Motociclistas Americanos (AMA) em 1971.

Seu estilo irreverente e bem-humorado e seu apreço pelos prazeres da vida também é retratado no filme na forma de galanteios às mulheres interessantes que aparecem em seu caminho — caso da senhorinha do instituto de seguridade social e da proprietária do ferro-velho americano onde ele conserta a carretinha da moto.

“Velhinhos sujos também precisam de amor”, segundo a camiseta de Burt. Dirty pode ser um trocadilho impublicável…

Seu primeiro recorde veio somente em 1938, aos 39 anos. Na época ele ainda era casado com sua primeira e única esposa, de quem se divorciou em 1947 — por isso é retratado como um homem que vive sozinho no filme.

Munro em 1930

Munro, contudo, não era um homem solitário: tinha quatro filhos e, quando foi citado pela Popular Mechanics em 1957 devido à sua atividade motociclística em idade avançada, já tinha 13 netos (mais abaixo é possível ver um de seus filhos e duas de suas netas). Além disso, diferentemente do filme, Burt não perdeu o irmão gêmeo quando criança. Ele teve um irmão mais novo e uma irmã gêmea, que morreu no parto.

Burt saiu na Popular Mechanics realmente, como dizem os fãs de moto no filme

Burt também não era um homem que vivia apenas da aposentadoria. A garagem-oficina-casa, contudo, existiu realmente, e era a residência de Burt em Invercargill. Mas ele havia sido vendedor de carros e motos, depois tornou-se empreiteiro de mão-de-obra na construção civil, atividade que ainda exercia quando foi aos EUA pela primeira vez.

Sim: ele não foi aos EUA somente após perceber que poderia morrer do coração (o problema cardíaco foi diagnosticado ainda no início dos anos 1950), nem levou sua moto ou tentou um recorde na primeira viagem. Sua primeira ida aos EUA aconteceu em 1958. Munro foi até Bonneville como espectador para conhecer o deserto, a Speed Week, e descobrir o que seria necessário para tentar seu recorde de velocidade.

Há poucas informações públicas sobre suas primeiras participações em Bonneville. O filme cita que ele voltou nove vezes aos EUA, totalizando dez viagens, mas a revista da AMA de dezembro de 1971 menciona que “por 13 anos ele fez a viagem de 20.800 milhas entre sua casa e a Planície apenas para tentar o recorde de 200 mph”, o que significa que a primeira tentativa foi em 1959.

Empurrado pelos colegas, como no filme

Seu primeiro recorde em Bonneville, contudo, chegou somente em 1962, aparentemente a primeira com a moto carenada. A mesma revista da AMA conta que não havia propósito aerodinâmico na carenagem, apenas uma proteção para que ele não acabasse esfolado pelo sal. A moto era mesmo uma Indian Scout 1920 como dito no filme — e uma das primeiras: seu número de série era 627.

A bancada ficava mesmo em frente à janela

Com um motor de 600 cm³ e apenas 90 km/h de velocidade máxima, Burt começou a modificar sua moto em 1926, eventualmente aumentando o deslocamento do motor. Como tinha filhos e vivia de comissões de vendas e obras, ele fazia suas próprias ferramentas e componentes de motor — daí os pistões fundidos a mão. A prateleira com os dizeres “Offerings to the God of Speed” existiu realmente. Além disso, como ainda tinha um trabalho regular, ele costumava trabalhar na moto durante a madrugada — daí a cena de Burt acordando cedo para acelerar a moto que vemos no filme.

Voltando a 1962, naquele ano sua moto já tinha o deslocamento do V-twin aumentado para 850 cm³. Em sua primeira tentativa de recorde com a moto carenada, ele atingiu 288 km/h (178,95 mph) e quebrou o recorde da categoria de até 883 cm³. Àquela altura ele já tinha 63 anos.

Entre 1963 e 1965 ele continuou tentando novos recordes, mas o próximo veio somente em 1966. Então com deslocamento aumentado para 920 cm³, ele atingiu 270,476 km/h e quebrou o recorde da categoria de 1.000 cm³ (sim a velocidade era menor).

A moto em 1966

Em 1967, com o deslocamento aumentado novamente, agora para 950 cm³, ele atingiu 295,453 e quebrou o recorde da categoria até 1.000 cm³. Durante a classificação ele atingiu 305,89 km/h, a maior velocidade já registrada oficialmente em uma Indian. Foi a primeira vez que ele passou dos 300 km/h, embora nunca tenha conseguir homologar um recorde acima desta marca. Este recorde acabou revisado em 2014 a pedido de seu filho John Munro, que percebeu um erro no cálculo da AMA, e solicitou a correção. Atualmente a velocidade oficial deste recorde é de 296,2593 km/h.

 

Munro também nunca conseguiu registrar uma passagem superior a 200 mph (320 km/h), mas atingiu esta velocidade durante uma passagem não completada (portanto inválida). Ele chegou a 331 km/h, mas uma queda invalidou o registro oficial da velocidade. O recorde de 201 mph do filme, portanto, é fictício, mas sua queda ao final da passagem foi inspirada por esta tentativa de 331 km/h. Já o recorde de 296,2593 km/h para a categoria de 1.000 cm³ até hoje não foi superado.

Seus amigos de Bonneville também são fictícios, mas retratam sua popularidade nos EUA. A cena da bolsa de dinheiro sendo entregue realmente aconteceu: em 1962 a alfândega exigiu o pagamento das taxas em dinheiro para liberar a moto, e os participantes da Speed Week fizeram uma vaquinha para ajudá-lo a pagar o valor.

Munro continuou suas tentativas em Bonneville até 1971, quando a AMA instituiu novas regras para veículos carenados, obrigando-os a terem camadas duplas e isolamento. Burt correu sem carenagem, mas considerando que ele a usava para sua proteção física e que as novas especificações a tornariam mais pesada – além do fato de já ter quase 73 anos na época — ele provavelmente desistiu de um novo recorde naquele ano.

Munro em 1971 chegando a uma Planície vazia, como no filme

Provavelmente porque, infelizmente, as informações sobre as participações de Munro são escassas. Ele era certamente um personagem carismático e celebrado por ser o “vovô” da turma, mas era um competidor comum como tantos outros das diversas categorias reunidas em Bonneville. Ele continuou pilotando suas motos até 1977, quando um derrame reduziu sua coordenação motora. Além da Scout ele também tinha uma Velocette MSS 1936.

A Scout original exposta na E. Hayes Collection, na Nova Zelândia. Hayes foi o amigo que comprou as motos de Burt

Frustrado por não poder mais pilotar, mas desejando continuar perto de suas motos em ação, ele as vendeu a um amigo de Invercargill. Em 6 de janeiro de 1978, Munro morreu naturalmente aos 78 anos. Ele foi enterrado em Invercargill ao lado de seus pais e de seu irmão.

Em 2006 Burt Munro foi incluído no Hall da Fama da AMA por suas realizações em Bonneville. Sete anos mais tarde a Indian Motorcycle, (agora renovada pela Polaris, sua atual proprietária) anunciou um moto conceitual aerodinâmica batizada Spirit of Munro, criada para o lançamento do novo motor Thunder Stroke 111, usado em suas motos produzidas em série.

Sobre sua personalidade carismática, o parágrafo final de seu perfil traçado pela revista da AMA em dezembro de 1971 resume muito bem como era o piloto Burt Munro em Bonneville:

“Na Planície, no restaurante ou no cassino, Burt está sempre cercado por colegas pilotos e pela imprensa. Alguns querem conselhos, outros querem apenas relembrar os anos anteriores em Bonneville. Muitos, contudo, querem apenas para conhecer o lendário velocista que veio lá de baixo.

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