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Desert Bus: a curiosa história do “pior game do mundo”

Imagine o pior game possível – como a versão para Commodore 64 de Hard Drivin’, sobre o qual falei recentemente aqui. Aquele jogo era terrível por conta de aspectos técnicos: taxa de quadros baixíssimas, gráficos feios e monótonos, controles pouco responsivos e efeitos sonoros primitivos e irritantes. Dizem

Outro game que costuma ser chamado de “o pior de todos os tempos” é Desert Bus, um simulador de direção desenvolvido em 1995. Desert Bus é um game tão ruim que jamais foi vendido, embora tenha sido fabricado em uma tiragem limitadíssima para que a imprensa pudesse avaliá-lo.

A ideia era oferecer uma simulação parcialmente realista de uma viagem de ônibus entre Tucson, no Arizona, e Las Vegas, em Nevada – um percurso de oito horas, feito em tempo real. Parece interessante, e não muito diferente dos Euro Truck Simulator e similares que temos hoje. Mas é só impressão, porque tudo era feito sob medida para tornar a experiência insuportavelmente entediante.

Seu veículo: um ônibus velho, com velocidade máxima limitada em 45 mph (cerca de 70 km/h) com a caixa de direção desalinhada, puxando sempre para a direita. A estrada era sempre reta, e o cenário era um deserto sem qualquer tipo de variação exceto por uma vegetação escassa e a ocasional sinalização. Não há sequer outros carros na estrada. É quase uma viagem surreal pós-apocalíptica.

Como o ônibus sempre puxava para a direita, você não podia simplesmente largar o game e ir fazer outra coisa – era preciso ficar atento por oito horas para não sair da pista. Se saísse, você era rebocado até o começo do trajeto (também em tempo real) para começar de novo. Ao chegar ao seu destino, você ganhava 1 ponto (SIM, UM PONTO) e tinha a opção de fazer o caminho todo de volta para ganhar outro ponto. Pois é…

Ironicamente, Desert Bus era um game do Sega CD, acessório para o Mega Drive que possibilitava rodar CDs no console de 16 bits originalmente concebido para cartuchos. O Sega CD possibilitava aos desenvolvedores utilizar jogos mais complexos… e Desert Bus praticamente não aproveitava os recursos.

Você deve estar se perguntando: “mas por que alguém faria um game assim?” Acontece que Desert Bus foi feito para ser ruim de propósito, e tinha um objetivo que considero nobre: ridicularizar a cruzada contra os games feita pela mídia na época.

Hoje em dia é até compreensível que alguns pais e autoridades se preocupem com a influência dos jogos no comportamento de crianças e adolescentes. Afinal, os jogos atuais são extremamente realistas e imersivos – como Grand Theft Auto, que te coloca na pele de um criminoso em uma cidade enorme e cheia de carros para roubar, pessoas para matar e coisas para destruir. Eles só esquecem que jogos assim geralmente são voltados para adultos… eu disse que é compreensível, não que concordo ou que faz sentido.

O caso é que os ilusionistas/comediantes Penn Fraser Jillette e Raymond Joseph Teller, mais conhecidos como Penn & Teller, já se incomodavam com esta visão lá no começo da década de 1990. E eles decidiram fazer um jogo extremamente chato, parado e irritante – só para incomodar. “De tempos em tempos os videogames são culpados na mídia por todos os males da sociadade”, contou Teller em uma entrevista ao The New Yorker em 2013. “No começo dos anos 1990, eu escrevi um artigo no Times citando todos os estudos que mostram que os games não têm efeito nenhum na moralidade de uma criança. Mas a gente queria criar uma obra de entretenimento para ajudar no argumento.”

Desert Bus na verdade fazia parte de uma compilação chamada Pen & Teller’s Smoke and Mirrors, que trazia outros minigames que funcionavam como pegadinhas, mas foi o único que conseguiu notoriedade – mesmo sem chegar ao mercado. A desenvolvedora do jogo acabou falindo antes do lançamento, e o projeto foi cancelado por falta de interesse de outras publishers. Em 2005, porém, um jornalista que havia recebido uma das cópias de avaliação decidiu postar uma avaliação e um link com o torrent para o jogo em vários fóruns de games. E, com isto, levou toda uma nova geração a conhecer o bizarro Desert Bus.

Como resultado, o game rapidamente desenvolveu uma reputação cult e uma comunidade razoavelmente dedicada a tentar quebrar recordes de pontuação e ver até onde o contador vai. O jogo até chegou a ser tema de uma pegadinha de 1º de abril, na qual um jogador fez uma montagem dizendo que havia conseguido 99 pontos e que aquela era a pontuação máxima.

 

Balela: até hoje, a pontuação máxima obtida sem truques foi de seis pontos – o que exigiu do jogador pelo menos 48 horas ininterruptas de Desert Bus. Haja paciência.

Se quiser jogar, você pode encontrar o Desert Bus original facilmente na Internet, e qualquer computador é capaz de rodá-lo. Mas eu recomendo que você baixe o remake que Penn & Teller fizeram em 2017 para Windows, com gráficos tridimensionais, um programa de rádio no qual a dupla conta mais sobre o jogo, e suporte a VR.

O jogo é gratuito na Steam e parece perfeito para quem estiver a fim de se torturar um pouquinho nesta quarentena.

Sugestão do FlatOuter Victor Penteado

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