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Pensatas

Mazda: a esperança de um futuro melhor


Além do horizonte deve ter algum lugar bonito pra viver em paz.”

Todo este isolamento que vivemos como resultado desta pandemia não falha em nos provocar alguns sentimentos melancólicos. Olhar longamente para o horizonte, esperando o dia em que possamos novamente tentar alcança-lo ao volante de nossos carros, nunca foi tão comum.

Essa melancolia não é um sentimento raro para os de nossa fé. Não é segredo para ninguém que o automóvel vive uma época onde sua existência e importância é atacada de forma constante. Num ambiente hostil a algo que consideramos essencial para a felicidade e liberdade humana, e vendo cada vez menos gente se levantar contra isso, um sentimento desse tipo é inevitável.

Mas eu sinceramente acredito que isso tudo vai passar, e tempos melhores vão aparecer, além do horizonte num lugar bonito e tranquilo. Afinal de contas, não é a primeira vez que o movimento anticarro toma força, e a primeira vez que tomou um vulto parecido com o de hoje, apenas fez a tecnologia evoluir de uma forma incrível em seguida. Anos de ouro do automóvel se seguiram a esta primeira depressão.

Explico: se você pegar publicações dos anos 1970, verá que todo mundo achava que o que o petróleo ia acabar, que a poluição que saía de seus escapamentos ia proibir o automóvel, e que os fabricantes eram liderados por pulhas que para economizar um troco faziam carros inseguros de propósito. Foi uma tempestade perfeita: legislações de emissão de poluentes, e de comportamento em acidentes, somadas a uma série de crises de abastecimento de petróleo, que subiu o preço do combustível e as vezes, o fez sumir dos postos. Um inferno completo, aparentemente sem saída então. Mas o resultado não foi o fim do automóvel como pensávamos, mas sim um novo patamar tecnológico. Não acabou. Apenas melhorou. Exponencialmente.

Depois de mais de dez anos de tristeza e carros terríveis, as coisas começaram a melhorar. Do meio dos anos 1980 em diante, os automóveis já tinham injeção eletrônica sofisticada, motores menores e mais leves, com avançados cabeçotes multiválvulas, antes relegados a competição e super-esportivos. A potência, que de 1970 em diante tinha descido a níveis pífios, começava a subir novamente. E agora, junto com emissões incrivelmente menores, e economia de combustível nunca antes vista. O controle preciso do armazenamento e entrega de combustível ao motor foi só o que foi preciso para um salto incrível, exponencial, enorme, na qualidade geral do automóvel.

Também ficou mais seguro, e não somente em acidentes, mas também para evita-los. Aqui coloco grande ênfase nos pneus, apesar das suspensões e freios também melhorarem sobremaneira. Os pneus de perfil baixo, série 60 ou menor, lançados principalmente pela Pirelli ao finzinho dos anos 1970, são pivotais aqui, arautos de uma nova era de segurança ativa. Depois, a Michelin levaria esta tecnologia a lugares incríveis. Hoje, grande parte do melhor desempenho dos carros modernos acontece em função direta de pneus cada vez melhores ano após ano, num crescendo aparentemente sem fim.

Num Countach em 1980: os P7 mudaram o mundo

O automóvel se tornou algo incrivelmente limpo, potente, seguro, econômico e confiável. Mas mesmo assim, uma nova onda de ataque tomou força, agora calçada no efeito estufa, teoria pela qual certos gases emitidos pelos automóveis estariam fazendo o planeta mais quente. Tomou tanta força que questioná-la é hoje tabu, receita para uma morte na fogueira da praça, portanto não vou fazer isso.

O sentimento anticarro é algo que sempre aparece em épocas de paz e evolução econômica. Sem se preocupar com a fome ou com a real possibilidade de uma bomba cair em cima de sua casa, países desenvolvidos acabam por se perder em projetos sociais revolucionários, com o objetivo louvável e nobre de avançar a sociedade, mas que sempre, mas sempre mesmo, falham. Porque esquecem do principal: gente não funciona com lógica pura, e não consegue colocar o coletivo acima de si em absolutamente tudo em sua vida. Um pouco sim, é necessário e saudável, mas em tudo? Não somos formigas. Algo óbvio, mas incrivelmente, inaceitável para os teóricos do futuro.

Gente faz merda. Cagada mesmo, o tempo todo. Somos assim. Mas também fazemos poesia, música, cinema, livros. Criamos mundos que não existem em nossas mentes e conseguimos compartilhá-los em séries na HBO, em filmes no cinema, em histórias em quadrinhos, em livros do Harry Potter. Somos uma espécie que não pode ser controlada demais, ou explodimos em guerras sangrentas e terríveis. Não porque somos maus, mas porque, quando tolhem nossas liberdades, reagimos com violência terrível.

É por isso que vamos sair dessa. Porque não vai ser agora que vão conseguir nos controlar bem de pertinho, mesmo com tanta tecnologia que favorece isso. O simples fato que digito essas palavras aqui e as coloco na rede prova que tecnologia pode ser usada para nos controlar, mas ao mesmo tempo serve para gritarmos: Não!

E acho que já chegamos ao cume, e vamos sair bem do outro lado da montanha. E no nosso caso aqui, do automóvel, o que vai fazer isso, de novo, é a evolução técnica, aplicados não em novos e mirabolantes projetos, mas sim no aprimoramento de algo que já vem sempre melhorando: o automóvel movido a motores de combustão interna.

Vejam bem, a maioria dos fabricantes hoje, quase todos eles liderados por administradores profissionais que estão interessados apenas em suas carreiras, desistiram de lutar pelo futuro do automóvel, e resolveram apenas acatar e até propagandear sua aderência total á nova ordem. Soluções de mobilidade, eletrificação, direção por máquinas. Se vai dar certo ou não, se é um futuro desejável ou não para a sua companhia ou para a humanidade, não importa. É bom para as carreiras individuais de cada um, se tudo explodir depois, bem… aposenta-se com uma boa grana.

Mas tem gente tomando um caminho mais inteligente. A Mercedes-Benz por exemplo, apesar de sair por várias tangentes tecnológicas indesejáveis de forma constante, é uma empresa que sempre acreditou no futuro do automóvel, e investe pesadamente nele. Seu recente motor seis em linha para mim é um marco, o começo de algo que veremos mais no futuro.

O atual seis em linha Mercedes: no topo da tecnologia.

Isto porque o que ela fez foi pegar tudo que já existe hoje e combinar de uma forma incrivelmente inteligente, e com resultados, acredito que veremos em breve, que mudam o jogo. Pegou uma ideia genial pouco aproveitada: o sistema de motor elétrico/gerador acoplado ao volante do motor que apareceu em 2001 no Honda Insight, mas o levou a um nível nunca antes visto.

Chamado de ISG na Mercedes (Integrated Starter-Generator), é um motor de 21 hp e torque alto e instantâneo (25,4 mkgf !), e roda num sistema separado de 48v com sua própria bateria, e que de quebra aciona o compressor do ar condicionado e a bomba d’água do motor (!). Com o alto e instantâneo torque, e um insano controle eletrônico de todo seu funcionamento, este motor elétrico no volante serve para achatar a curva de torque sempre que necessário, enchendo e suavizando qualquer buraco. Integrado ao volante, é parte indivisível do motor. Conta também com um turbocompressor de dupla voluta, que é auxiliado pelo motor elétrico para que o lag desapareça por completo. Em algumas versões, há também um compressor elétrico, acionado pelo sistema de 48v, que ajuda da mesma forma.

Nenhuma dessas tecnologias é nova em si, mas todas juntas eu um só pacote faz talvez o mais fantástico motor já criado, um incrível e compacto pacote de força, economia e baixíssimas emissões. Assim é que se faz um híbrido realmente eficiente, fazendo ele parte integrada de um motor avançado. Vejo um futuro brilhante para coisas desse tipo, porque simplifica e integra, e é tecnicamente elegante, bonito até.

Isto é um Camry original de fábrica. Sério.

Mas é no Japão, por incrível que pareça para a gente, que acredito que o futuro é mais legal e interessante. A Alemanha se tornou de repente um maluco lugar onde gente ataca automóveis na rua, um poço de radicalismo ideológico verdinho sem precedentes. Bem… na verdade lembrei agora de um precedente bem feio e famoso de radicalismo social, vindo do mesmo lugar. Melhor deixar para lá esse papo.

No Japão por outro lado as coisas parecem mais leves. Lá tem gente como a Toyota, que é, claro, ainda uma empresa familiar, e se preocupa com o futuro do que a família criou e tornou famosa mundo afora. O humano da coisa, claro, pois máquina, animal e formigueiro não se preocupam em legado, se preocupam em sobreviver e só. A Toyota ainda faz carros para quem quiser ter carro particular, sempre fará, e apesar em de sempre investir em energias cada vez mais limpas, sempre fez automóveis de uso pessoal tradicional. Eu acredito em seu futuro, e incrível, vejo ela hoje como um farol na escuridão. Até perdoo o Zupra, fruto de uma aliança que se tivesse um italiano no meio, certamente soaria um velho alarme empoeirado na sede da ONU.

O Zupra. Nós te perdoamos, Toyota.

Mas é uma marca que detém apenas 2% do mercado mundial que acredito está o mais forte exemplo de que as coisas serão melhores num futuro próximo. Uma relativamente pequena empresa de Hiroshima, nascida literalmente das cinzas do passado japonês. Falo, claro, da Mazda.

 

A Mazda

A marca de Hiroshima é algo bem interessante de se observar, principalmente agora, quando completa 100 anos de existência como companhia, originalmente uma indústria de rolhas de garrafa. Nunca foi grande demais, mas sua importância não pode ser negada. E recentemente, seus compromissos com o futuro do automóvel foram renovados de uma forma sensacional, que acredito vai ajuda-la a um futuro ainda melhor.

Todo mundo sabe o primeiro passo para a fama e reconhecimento da marca: o motor rotativo Wankel. A empresa investiu pesado na engenharia deste que parecia, no meio dos anos 1960, o futuro do automóvel.  Emergiu dessa com um sucesso incrível. Não foi a Mercedes-Benz, a mais tradicional engenharia do mundo, nem a General Motors, a maior empresa do mundo então, que fez o Wankel funcionar, apesar de ambas deterem licenças. Foi a pequena Mazda.

O RX7 original, de 1978

Mas é claro que o consumo alto do pequeno e potente motor o fez desaparecer lentamente, e a empresa, que pretendia ter apenas Wankels a partir de 1975, teve que esquecer esta estratégia. Mas continuou dedicada a ele, agora em carros esporte como o RX7, por décadas após todo mundo se esquecer dele. E, ápice da glória, usou um 4 rotores Wankel para ganhar Le Mans, um feito que dá a empresa um respeito reservado a poucos.

Mas na segunda metade dos anos 1980, acontece também algo importante na Mazda. Procurando mercados inexplorados para atacar, a empresa enxerga o de carro esporte barato. Com o fim da indústria inglesa, tradicionalmente o maior fornecedor deste tipo de coisa, o mercado estava vazio, carente de substituto. Resolve este problema do mundo criando algo incrível: o MX5 Miata, lançado em 1989.

O último RX7 é talvez uma dos mais fantásticos carros esporte da história.

Um carro esporte pequeno e barato, mas com motor animado e vocal, e comportamento esportivo, era um substituto perfeito dos ingleses. Mas ao contrário deles, era um produto do Japão moderno: totalmente confiável, durável e sólido. A Mazda, incrivelmente, continua praticamente sozinha neste mercado, produzindo Miata em sucessivas gerações até hoje, num volume considerável.

Mas seu projeto foi o que colocou a empresa num caminho virtuoso. A empresa fez o Miata baseado não em especificações, ou em números de desempenho, como é a norma em toda a indústria. Não, isso seria muito fácil, e provavelmente nesse caso, um fracasso como muitos que tentaram. A Mazda fez algo muito mais difícil aqui: um carro inteiro baseado em sensações e emoções que ele traz ao seu motorista. Algo que é impossível de medir, difícil de definir, mas fácil de ver no produto pronto. E que faz todo sentido em um carro esporte.

O Miata original. No papel, nada de mais. Dirigindo, sublime.

Esta é a que espero ser a próxima revolução do automóvel, junto com o progresso técnico já em marcha. Por muito tempo os alemães ditaram o futuro: algo cada vez melhor tecnicamente, mais veloz, mais econômico, mas durável, mais, mais, mais. Nas imortais palavras de Tim Maia, “mais tudo!”. A Mazda deu um passo atrás e disse: olha aqui, menos. Mas veja que legal, experimente!

O progresso alemão criou um mundo onde supercarros aparecem todo dia, com capacidade técnica crescente e velocidades próximas de avião a jato possíveis. Mas estranhamente, pouca gente se importa. Porque atrás do volante, todo carro, do mais veloz ao mais simples, convergem todos para um mesmo futuro cada vez mais anestesiado e sem graça ao volante, abrindo o caminho para o elétrico e o autônomo. A Mazda, com o Miata, desde 1989, mostra um caminho diferente.

Isso é o que interessa realmente. O que importa se meu carro é mais rápido que o meu, fora de uma pista? O foco no como as coisas acontecem, na direção, no acelerador, no balanço dinâmico, em fazer o carro um todo coeso e gostoso de guiar, cria coisas sensacionais, mas muito mais difíceis de descrever no papel, de comparar numa tela. Números são mais fáceis de comparar, e dispensam o engajamento do cérebro e do coração na operação. Mas num exemplo de como o que é bom aparece claramente mesmo assim, o Miata é talvez o carro de rua mais presente em pistas mundo afora. E muita gente com carros mega-potentes teve que suar a camisa para se manter na frente de um Miata bem dirigido em pista.

Mazda Millenia: ciclo Miller.

A Mazda sempre foi uma empresa de motores, criada por força do Wankel, mas agora, a partir de sua epifania do Miata, uma empresa de carro inteiro também. Motores continuaram algo forte em sua história, porém, com inovações como os V6 minúsculos dos anos 1990, os V6 em ciclo Miller, e as família de incríveis quatro em linha que até hoje fazem sucesso debaixo dos capôs dos Ford.

A longa parceria com a Ford foi algo que deu a ela toda uma família de motores de quatro cilindros excelente (os Duratec), mas fora alguma ajuda em dinheiro para desenvolvimento, a Ford não ajudou a Mazda em mais nada. Tecnicamente, a Mazda é o gigante desta parceria, apesar de fisicamente pequena. Incrível que o gigante industrial americano se apequene tanto frente ao pequeno japonês, mas ilustra bem o que aconteceu.

MX3, MX5, MX6

Mas desde então (a Ford vendeu a maioria de sua participação em 2015) a Mazda tem dado a entender que quer expandir o espírito do Miata para todos os seus carros. Inteligentemente, percebe que ninguém mais faz isso nesse mundo esquisito, e portanto há um mercado inexplorado aqui. Desde que saiu desta longa e não muito feliz parceria com a Ford, a empresa tem tentado se tornar a opção futura para gente que ainda quer estar no comando de seu automóvel. Tentando algo diferente, e acreditando que se sairá melhor assim.

O Mazda 6 atual

“Dirigir é importante” diz a empresa agora, em suas propagandas, algo que nos deixa obviamente felizes. Vibrando até, num tempo como o de hoje. E o desenvolvimento de motores a combustão interna continua a todo vapor: os novos motores Skyactiv-X anunciados, que combinam ignição a compressão e velas de ignição em motores a gasolina prometem um futuro ainda mais limpo e potente.

Uma recente parceria com a Toyota coloca um orçamento gigante de desenvolvimento em suas mãos, algo que devia deixar todas as outras empresas com medo. O que a Mazda fará com um orçamento de desenvolvimento tamanho Toyota é difícil de imaginar. Um repórter americano fez um chute: “Receber Elon Musk, quando este chegar em Marte, com um coquetel de camarão nativo do planeta.”

O futuro Mazda 6?

Uma notícia recente é ainda melhor: seu próximo Mazda 6, hoje um carro médio da categoria Camry/Accord/Maxima, quebra o molde da categoria e se liberta do normal: vai ganhar um seis em linha, e tração traseira!

E mais: será um seis com a tecnologia Skyactiv-X, e com um sistema híbrido de 48v, provavelmente algo como o incrível Mercedes de que falamos a pouco. E tudo isso, claro, com o incrível foco na experiência, no como e não no que faz, que a Mazda sabe fazer. O resultado vai ficar fenomenal, tenho certeza.

Tudo isso nos enche de esperança que Mazda que cresça muito com a Toyota, e mostre a todos como fazer (e ganhar dinheiro de verdade) com automóveis. Um futuro focado no prazer de dirigir, permitido por uma tecnologia que faça até a tal estufa se quebrar em mil pedaços. Um futuro de alta tecnologia, mas colocada a serviço do humano, da emoção, da arte do automóvel. Não para criar um mísero cubo autônomo, que só é esperado avidamente por empresas de transporte público.

Além do horizonte deve ter mesmo é um belo Mazda conversível para a gente viver em paz. Alegria e felicidade com certeza. Vamos ter fé em dias melhores, que eles estão logo ali, virando a esquina. Prometo para vocês!

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