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Car Culture História

Dez réplicas fiéis criadas no Brasil


Os anos 1980 começam com um grande impulso na indústria “fora de série” brasileira. Com importações proibidas, e a indústria aqui instalada estranhamente desinteressada nos volumes pequenos envolvidos na fabricação de carros esporte e de luxo, uma série de fabricantes de todos os tipos apareceu para suprir este vácuo no mercado.

De todo tipo mesmo: de gente cuidadosa e reverente ao produto original, a pessoas que por ignorância, ingenuidade ou simplesmente desprezo filosófico, criava veículos oportunistas, meras cascas de fibra de vidro em cima de plataforma VW refrigerada a ar. Que por sinal, era uma plataforma no sentido clássico: um chassi-plataforma que permitia qualquer coisa ser montada em cima. Um exemplo bom do que houve de ruim é o Gringo: um buggy carioca que dava “a certeza de lembrar um carro de presença marcante na indústria automobilística do passado, o CITROEN.” Ein?!?!?

Mas o que significa o termo “réplica”? O Aurélio diz: “Cópia ou reprodução, exata ou muito próxima do original”, mas no mundo do automóvel a definição era mais estrita quando nasceu: uma cópia do veículo original, feito pelo fabricante original.

Começou na verdade derivado das atividades de competição: uma cópia de um vencedor nas pistas, vendido ao público. Um exemplo famoso: Frazer-Nash Le Mans Replica. Uma cópia do carro que correu nas 24 de Le Mans (e quase ganhou), vendida ao público pela própria Frazer-Nash nos anos 1950. O engraçado desse exemplo é que um fabricante pequeno inglês recriou os Frazer-Nash Le Mans Replica nos anos 1990, réplicas perfeitas em cada minúsculo detalhe. Como tinham direito de usar o nome Frazer Nash, chamou eles de “Frazer-Nash Le Mans Replica Replica”.

Frazer Nash Le Mans Replica Replica

Hoje há uma febre de “Continuation Cars” dos fabricantes originais, carros novos, cópias de antigos, que não podem ser emplacados, mas ainda assim são vendidos à preços estratosféricos. Um exemplo fácil são os Jaguar D-type recentemente construídos pela Jaguar/Land Rover. O nome “réplica” está desgastado demais em meio a um oceano de fibra de vidro em fundo de quintal para ser usado aqui, mas estes D-Type são a definição clássica do termo: uma cópia do veículo original, feito pelo fabricante original.

Hoje, portanto, o significado da palavra mudou: já que nenhum fabricante original quer usar a palavra, preferindo “continuação”, “replica” hoje significa efetivamente uma cópia do original, por um fabricante diferente. E existe uma classificação também do tipo de réplica. A saber:

MP-Lafer: idêntico só por fora.

1 – Réplica vaga: se lembra em alguma coisa o carro original, está valendo; a mecânica nem precisa ser próxima. O já mencionado buggy carioca Gringo é o melhor exemplo aqui: vale literalmente tudo aqui, se vagamente inspirado em algum outro carro.

2 – Réplica de aparência fiel: o carro tem que parecer o original de verdade, tem que existir pelo menos uma vontade forte de se conseguir a experiência visual completa do carro replicado. Mas a mecânica pode ser completamente diferente e mais barata. Exemplo clássico: MP Lafer. Uma réplica de qualidade, de aparência perfeitamente replicada, mas bem diferente em conceito mecânico. Embora idêntico ao MG TD original, era baseado num VW Brasília, provavelmente o mais longe do MG que se pode chegar usando sua carroceria.

3 – Réplica fiel: além da aparência, a mecânica tem que tentar reproduzir o máximo possível o carro original. Se o carro tinha motor dianteiro de 4 cilindros e tração traseira, a réplica deve ser assim também, e nunca baseada em Fusca, para ser fiel. E o motor tem que ser o mais próximo possível, em configuração, potência e personalidade. Não precisa ser o mesmo motor, claro, mas o mais próximo que se pode chegar com as ferramentas disponíveis. Esta lista de réplicas nacionais tratará deles, então os exemplos daremos mais adiante.

Bugatti T35B da Pur Sang: idêntico ao original

4 – Réplica fidelíssima: Nada ou muito pouco o distingue do original. O carro, para todos os efeitos, é exatamente igual ao original. O exemplo clássico são os Bugatti tipo 35 criados pelo argentino Jorge Anadon e sua empresa, a Pur Sang. Localizada em um sítio no interior da Argentina, a Pur Sang faz Bugattis inteiros sem comprar peça alguma, fazendo tudo em casa, como 90 anos atrás fazia Ettore Bugatti na França. Reproduz não só o carro, mas também a fábrica e o método de produção! Esta categoria inclui os D-Type zero km da Jaguar, também, claro.

Se nunca conseguimos fazer estas réplicas fidelíssimas como os argentinos, fomos muito bons em fazer os outros três tipos, tradição que, com todas as dificuldades, permanece nas réplicas de Porsche 356 e Spyder que ainda são feitas por aqui. Mas a época de ouro delas foram os anos 1980, não há dúvida: a proibição das importações os ajudou a crescer e florescer. O que ainda temos hoje, é continuação do trabalho dos pioneiros desta época.

Selecionamos alguns exemplos para vocês hoje; fique a vontade para lembrar de outros nos comentários.

 

MG Avalone (1977)

Antônio Carlos Avallone era um piloto brasileiro de Jundiaí, um dos primeiros a tentar a sorte na Europa. Depois de um acidente, volta ao Brasil em 1970, e começa a fabricar carros de competição baseados nos Lola ingleses.

No salão de 1976, mostra o seu primeiro carro de rua. Para diferenciar-se do popular MP-Lafer, o carro de Avallone era baseado no seu sucessor: o MG-TF, último carro da marca a manter o estilo clássico da série “T” iniciada nos anos 1930. Era também bem mais interessante que o Lafer: embora também fosse idêntico ao carro original em estilo, era muito parecido na mecânica e comportamento. Como o original, tinha motor dianteiro e tração traseira, suspensão independente dianteira e eixo rígido bem localizado atrás. Como o original, o motor era um quatro em linha de um sedã de alto volume. Morris no caso inglês, Chevrolet no caso brasileiro: era baseado no Chevette.

O chassi era de chapa de aço dobrada, e a carroceria em fibra de vidro. Além da alta qualidade e desenho perfeitamente replicado do original, tinha comportamento esportivo também muito próximo do carro que o inspirou. Mais tarde, motores de Monza e Opala de 4 cilindros, inclusive com turbo, foram oferecidos. Cerca de 200 carros foram produzidos, até hoje um cobiçado clássico nacional.

 

Envemo Super 90 (1980)

Talvez a melhor de todas as réplicas brasileiras, o Envemo Super 90 era uma réplica fiel do Porsche 356C Super 90 de 1964. O dono da Envemo, Luís Fernando Gonçalves, sacrificou seu próprio carro para que a réplica pudesse nascer: o seu Porsche original foi desmontado completamente para que moldes diversos pudessem ser feitos.

Usando a plataforma da Brasília encurtada em 30cm, é apenas ligeiramente mais largo que o original: sem atenção a alguns pequenos detalhes até um especialista tem dificuldade de distinguir a réplica do original. Tudo foi replicado à minúcia, até bancos, vidros, guarnições, instrumentos, e um sem-fim de detalhes. A mecânica opcional 1700cm3 de 88cv (SAE brutos) se aproximava inclusive dos 90cv do carro original, ao menos no papel.

Certamente atrás do volante, era um a experiência parecidíssima ao original, apenas o acerto de suspensão menos esportivo da Brasília denunciando a réplica. Mas como modificações em VW são fáceis, até isso podia ser acertado por um dono cuidadoso.

Apenas 202 foram feitos de 1980 a 1983, incluídos aí alguns conversíveis, a baixa quantidade motivada principalmente pelo preço, altíssimo. Sua produção foi continuada pela CBP, ainda que com qualidade menor. Hoje, os sobreviventes continuam caros no mercado de clássicos: qualidade e raridade tem o seu preço.

 

Fera XK 4.1 (1980)

Criado pelo antigomobilista Henrique Erwene a partir de um carro original, o Fera XK 4.1 replicava o famoso Jaguar XK120 de 1948. O chassi de aço usava componentes mecânicos do Opala de seis cilindros, o que resultava na principal diferença em relação ao carro original: o carro, com largura de Opala, era visivelmente mais largo que o original, principalmente claro na grade dianteira.

O Jaguar original: mais estreito.

Mas era um carro bem construído (pela Indústria de Artefatos Metálicos Bola S.A., empresa do setor de autopeças e implementos agrícolas de São Paulo), e com a configuração básica do original. O seis em linha do Opala era OHV ao invés do DOHC do original, mas era na verdade mais moderno: com origens em 1962, e não em 1948 como o Jaguar. Em termos de motor, as características de potência, torque e peso, eram próximas. Como era comum em nossas réplicas, era o acerto geral do carro, mais para passeios do que uso esportivo, que diferia a réplica do original em espírito.

 

Dardo F1.3 (1981)

Uma criação do indefectível Toni Bianco a pedido de Bruno Caloi, o Dardo era uma réplica nacional quase perfeita do Fiat X1/9 italiano. Como tal, usava a mecânica do Fiat 128 (aqui do parecido 147) em posição entre-eixos traseira.

 

Como a Fiat fornecia a mecânica para a empresa de Bruno Caloi (a Corona S.A.), é de se imaginar que a empresa não se importou com a fabricação de uma réplica de um carro ainda em produção na Europa; coisas da época de mercado fechado. Mas o fato é que o carrinho é praticamente idêntico ao original em tudo, ainda que com a carroceria em fibra de vidro.

 

Glaspac Buggy (1968)

Dois brasileiros de ascendência inglesa, Donald Pacey e Gerry Cunningham, sócios na empresa de fibra de vidro Glaspac, trazem para o Brasil em 1968 uma febre mundial: o Buggy Meyers Manx. Era exatamente igual ao carro original, possível pelo fato de que a mecânica VW refrigerada a ar ser também a base do original, e ele também ter carroceria de fibra de vidro. A empresa replicou também o Manx SR, aqui chamado de “Super Bug”

Cria uma febre de buggy, e uma indústria de cópias diversas, aqui no Brasil também, tal qual fora em seu país de origem, e mundo afora.

 

Glaspac Cobra (1982)

Um carro criado pelo desejo de se ter um carro esporte de verdade em um país fechado às importações e carente nisso, de novo pela dupla Donald Pacey e Gerry Cunningham. Os dois criam uma réplica muito bem feita, chassi e acerto próprio, com motor V8 Ford (do Maverick/Landau), câmbio Ford manual de quatro marchas, suspensão dianteira de Opala (mas direção pinhão e cremalheira de Dodge 1800) e suspensão traseira com molas helicoidais em um eixo de Maverick V8.

O Cobra original, sabemos, usava o mesmo motor (em 4,7 litros ao invés dos 5 litros nacional) e um esquema parecido, apenas a suspensão traseira independente conceitualmente diferente. O carro é de uma personalidade única, com detalhes de cabine de Jaguar, um carro esporte de verdade. É fabricado até 1987.

 

Phoenix (1982)

Uma réplica de aparência exata do Mercedes-Benz 230/250/280 SL “Pagoda” (W113, 1963-1971), o Phoenix era produzido no Rio de janeiro pela LHM Indústria Mecânica Ltda., empresa que levava as iniciais de seu fundador, o empresário Luís Henrique Mignone. Para cria-la, um Mercedes 280SL 1970 foi totalmente desmontado para servir de base ao novo carro de fibra de vidro.

O Phoenix. O logotipo normalmente era trocado no primeiro dia…

Era feito se aproveitando toda a plataforma do Opala, inclusive a parede de fogo (curvão) dianteiro e todo o assoalho, bem como, claro, toda sua mecânica, com todas as opções de motorização e câmbio do Chevrolet. Era oferecido, inclusive, o teto rígido removível, igual ao do Mercedes.

 

Dimo GT (1983)

Fabricado pela Fibrario do RJ, o Dimo GT era uma réplica quase idêntica em aparência ao Ferrari Dino 206/246 GT de 1967, inclusive o interior, bancos e painel. O chassi também era inspirado no desenho original: motor refrigerado a água central-traseiro, suspensões independentes nas quatro rodas, e freios a disco.

Mas é claro que com as limitações do Brasil de 1983: o motor era de Passat TS (depois 1.8 de Gol GT), e as suspensões eram também as dianteiras do Passat nos dois eixos. Hoje em dia certamente receberia visitas dos advogados da Ferrari; os anos 1980 eram bem menos paranoicos.

 

Chamonix Spyder (1985)

A Chamonix foi criada em 1984 por Milton Masteguim, um dos fundadores da Puma, e seu filho Newton. Visava basicamente produzir a réplica do Porsche 550 Spyder projetada pelo americano Chuck Beck, para exportação aos EUA.

 

O carro era muito parecido ao Spyder original: um chassi muito parecido, tubular, e um motor VW refrigerado a ar em posição central-traseira, e uma carroceria em fibra de vidro. Era um produto de qualidade, que permaneceu em produção até 2010 na empresa original, e que hoje tem a produção retomada pela Athos, de Newton Masteguim. A Chamonix também acaba comprando os moldes da CBP para o cupê e conversível 356, que sabemos vir da Envemo, e também os produz, embora com menos sucesso que o 550 Spyder.

 

Grancar Futura (1990)

Em 1990, Toni Bianco se juntou a Eugênio Andrade Martins, e ao Armando Jorge Neto, dono da concessionária Ford paulista Grancar, para criar esta minivan, uma cópia muito próxima do primeiro Renault Espace. Para isso, nos contou o Toni que seus sócios foram a Europa, compraram uma Espace, e mandaram para a Brasil para que ele pudesse replicá-la.

O criativo Toni deu um jeito de fazer uma Espace com o que tinha por aqui: baseada no Ford Del Rey, com um chassi próprio, carroceria em fibra e motores VW 1.8, ou preparados até 2100cm3. Mas a concorrência com a inundação de importados nos anos 1990 rapidamente acabou com a promissora ideia já em 1991. Apenas pouco menos de 160 unidades foram fabricadas.

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