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Dois Humber Super Snipe no Brasil | FlatOut Classics


O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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Se você nunca tinha ouvido falar da marca Humber, está desculpado. Se nunca viu um Humber Super Snipe antes de abrir esta página do Flatout, também: aqui no Brasil, é algo raríssimo. A marca já é rara aqui, mas o Super Snipe sem se fala: acredita-se que estes dois aqui deste ensaio, ambos de um mesmo dono, sejam espécies únicos aqui no Brasil. Sim, só existem esses dois.

A Humber é uma marca inglesa, sediada bem no epicentro da indústria daquele país, e praticamente em seu centro geográfico também: a cidade de Coventry, aproximadamente a 160 km noroeste de Londres. É uma marca excepcionalmente tradicionalista, com raízes no início da indústria do automóvel, mas é para sempre lembrada por ser a mais importante marca, e o início, do conglomerado Rootes.

A Humber foi talvez mais famosa mundialmente como marca de bicicleta que de automóvel: participa ativamente da revolução da bicicleta “de segurança” (aquela como a moderna, em oposição às de rodas gigantes “penny farthing” onde cada parada era um tombo) nos anos 1880. A empresa fundada por Thomas Humber e seus sócios fabricava na Inglaterra e na França, e ajudou a revolução da mobilidade pessoal.

A empresa se envolveu com motocicletas e automóveis também, desde o início, construindo ambos antes de 1900. Mas ficaria realmente famosa quando comprada por dois irmãos famosos na Inglaterra: William e Reginald Rootes.

Se as marcas do grupo Rootes não são conhecidas por inovação tecnológica ou engenharia original, sempre conseguiram acertar o mercado inglês na mosca: suas configurações básicas, desenho da carroceria, pacotes de opcionais e preço de venda sempre eram certeiros para o mercado. Não é a toa: a grande habilidade da dupla era entender o mercado; como CAOA qui no Brasil, por exemplo, começaram como concessionários e distribuidores, muito antes de se aventurar como fabricantes.

Foi fundada em Hawkhurst, Kent, em 1913 por William Rootes como uma agência de vendas de automóveis independente do negócio de motores Hawkhurst de seu pai. Em 1919 a distribuição de carros e veículos comerciais já se estendiam a Londres e outras partes do país. Em 1924, a Rootes já era o maior distribuidor de caminhões e carros no Reino Unido. Tinham showrooms em endereços de luxo importantes em Londres, e vendiam carros de todas as faixas de preço, em marcas diversas: Rolls-Royce, Daimler, Sunbeam, Austin, Hillman, Fiat e Clyno.

Um impulso para exportação (principalmente para as colônias inglesas ultramar) faz com que os irmãos resolvam entrar no negócio de produção de carros, e não só venda. Em 1928 compram o controle da Hillman Motor Car Company Limited, seguida um ano depois pela Humber Limited e Commercial Cars Limited.

Hillman e Commer tornaram-se subsidiárias integrais da Humber Limited e a participação dos irmãos Rootes acabou se tornando 60% das ações ordinárias da Humber. Os irmãos Rootes podiam agora mostrar sua capacidade de fabricar carros com forte apelo de vendas. Eventualmente, o grupo teria controle das marcas Hillman, Humber, Singer, Sunbeam, Talbot, Commer e Karrier.

No início dos anos 1960 o grupo ia de vento em popa e nada parecia impedir seu crescimento constante. Mas uma aposta em um novo e revolucionário carro pequeno de alto volume mudaria tudo em poucos anos: a empresa investiu fortemente numa nova fábrica e no novo Hillman Imp, que deveria desbancar o Mini de Issigonis com dinâmica superior: motor traseiro de alumínio de projeto Coventry Climax e acerto de chassi do piloto/engenheiro ex-Ferrari Mike Parkes.

Apesar de ser um sensacional carrinho para dirigir, problemas iniciais de qualidade na fabricação do motor acabaram com a reputação dele, e com o investimento da Rootes: em 1967 o conglomerado era parte da Chrysler. Em 1978, se tornava parte da PSA. Até 2007 a Peugeot ainda fazia carros nas plantas da Rootes inglesas; isto significa que muito provavelmente, as marcas Hillman, Humber, Singer, Sunbeam, Talbot, Commer e Karrier são de propriedade da Stellantis. Como se ela já não tivesse marcas suficientes…

 

Humber Super Snipe

A marca Humber se manteve o topo da linha Rootes; durante os anos que sucederam à segunda grande guerra isso significava carros sedatos e formais, seguindo a tradição aristocrática inglesa. Não chegava ao prestígio de Daimler, Bentley ou Rolls-Royce, claro, estes reservados à realeza; estava mais como concorrente dos Rover e dos Wolseley da BMC.

O nome “Snipe” (Narceja, um pássaro; não tem nada a ver com atiradores de elite, os snipers) aparece pela primeira vez em 1930, junto com a limusine topo de linha, o Humber Pulmann. O Snipe era na verdade uma versão de menor entre-eixos do Pulmann. Uma das grandes novidades era a suspensão dianteira independente por feixe de mola transversal.

Vinha com um motor seis em linha com cabeçote em F, ou como era chamado então, “inlet over exhaust”, admissão sobre escape: a válvula de admissão ficava no cabeçote, em cima da de escape, lateral. Media 80 x 116 mm, para um total de 3498 cm³. Em 1936, aparecia o primeiro Snipe projetado pela Rootes: continuava na família do Pulmann, mas agora era um carro bem mais desejável, com um desenho fortemente americanizado, e um motor mais antigo, mas mais forte: um seis em linha de válvulas laterais, 85 x 120 mm, 4086 cm³ e 100 hp a 3400 rpm. Era um carro de cinco metros de comprimento, 3150 mm de entre-eixos e duas toneladas: enorme.

Prestem atenção que agora o negócio fica meio confuso: em 1938, o Snipe recebia um motor menor, o seis em linha “inlet over exhaust”, mas com apenas 3180 cm³ e 75 hp. O motor de 4,1 litros e 100 hp continuava, porém, criando um novo modelo: o Humber Super Snipe. A carreira deste novo Humber parecia deslanchar, mas a segunda guerra interveio; o carro, porém, continuou em produção como um staff-car camuflado e fosco, destinado aos oficiais durante a guerra.

Quando a produção civil retoma em 1946, o Super Snipe era outro carro: era essencialmente uma versão de 6 cilindros do Humber Hawk de 1945, ele próprio um carro reestilizado do pré-guerra. O motor continuava o velho seis em linha de válvulas laterais e 4086 cm³, que duraria em mais três gerações do Super Snipe (MkI, MkII e MkIII) até 1952. Era um carro menor um pouco: 4,572 mm de comprimento num entre eixos de 2896 mm. Em 1948, no MkII, aumentaria o entre-eixos para 2972 mm, e o comprimento total para 4750 mm.

Um dos Humber Super Snipe deste ensaio de fotos é um MkII de 1949. O Mark II foi anunciado em meados de setembro de 1948, e basicamente era um redesenho discreto de chassi e carroceria. Tinha seis lugares com banco dianteiro inteiriço com a alavanca de câmbio na coluna de direção, bitolas mais largas, e uma nova caixa de direção.

O Snipe “não-super” foi descontinuado no seu lançamento. A imprensa achou o carro confortável e fácil de dirigir apesar do tamanho, e sempre elogiava o bom gosto e qualidade dos produtos da Rootes.

O Super Snipe Mark IV seria totalmente novo: anunciado em meados de outubro de 1952, usava uma carroceria do Humber Hawk Mk IV alongada para cinco metros, entre-eixos de quase três metros aos 2940 mm, e um peso final de 1750 kg. Ainda usava chassi separado, norma entre os ingleses “de classe”.

Mas agora o motor era novo e mais moderno: um seis em linha OHV de sete mancais, 88,9 x 111,1 mm, 4139 cm³ e 113 hp a 3400 rpm. Ainda na coluna de direção, o câmbio era de quatro marchas, todas sincronizadas. Overdrive Laycock e câmbio automático Borg-Warner depois se tornariam opcionais. A suspensão dianteira abandonava o feixe de mola transversal por molas helicoidais.

Em 1958, aparecia mais um Super Snipe totalmente novo; agora era o “New” Super Snipe, abandonando a nomenclatura “Mk” anterior. Era agora um monobloco de aço estampado, e o seis em linha mais moderno de novo: apesar de menor aos 2651 cm³ (82,5 x 82,5 mm), produzia a mesma potência do anterior, praticamente: 112 hp a 5000 rpm. O tamanho diminuíra de novo: 4692 mm de comprimento num entre-eixos de 2794 mm, e um peso total de 1600 kg. O câmbio era de três marchas sincronizadas, com comando na coluna para seis lugares. Era oferecido também como perua.

O Novo Super Snipe permaneceria em produção até 1967, quando foi descontinuado. Durante este tempo, teve cinco grandes atualizações, chamadas de “Series”. O carro de 1964 que aparece no ensaio é um dos últimos Serie IV, já que seria substituído pelo Serie V em outubro de 1964.

O motor, que já no Serie II tinha aumentado para 3 litros (2965 cm³, via aumento de diâmetro de pistão para 87,2 mm), agora tinha 132,5 hp. Um Super Snipe desta época era um carro grande de prestígio e luxo, mas também de desempenho considerável: podia chegar a 160 km/h, e fazia o 0-100 km/h perto de 17 segundos.

 

Dois Super Snipe no Brasil

O Oscar Allgayer, de Porto Alegre (RS), é um dos poucos, senão o único, colecionador a se dedicar aos Humber no Brasil. A marca é tão rara por aqui que ele quase tem todos os Humber nacionais.

Sua história com eles é peculiar. Em 1980, fez estágio de engenharia com um engenheiro que colecionava carros antigos, o que serviu como um combustível para se iniciar na atividade. Na época, passeava com a futura esposa todo domingo a tarde de moto. Num destes passeios, topou com um carro abandonado; um carro difícil de reconhecer e com uma marca estranha: Humber. Era um Humber Hawk de 1951, e pior: estava a venda. O Oscar vai se informar, e descobre que era algo raro mesmo por aqui, e resolve tentar comprá-lo. Infelizmente, o dinheiro que tinha não era suficiente e acaba por desistir.

Pois bem, o tempo, como costuma fazer, passa. Um ano depois o Oscar está prestes a se casar com a menina dos passeios de moto. Dois meses antes do casório, a noiva vai até uma floricultura com a sogra, e lá chegando, encontra o mesmo Humber Hawk. Ainda abandonado, mas agora com um novo proprietário.

A noiva liga para o noivo e lhe diz: o carro está aqui, a venda novamente, e bem mais barato. Não pensaram duas vezes para mudar as prioridades. Os dois fizeram as contas e decidem gastar as economias, até ali guardadas para o casamento e início da vida de casado, e comprar o Humber. Mas só o dinheiro que tinham não foi o suficiente, então tiveram que contrair um empréstimo, mas compraram o carro. E sim, o casamento aconteceu de qualquer forma, e o Oscar não foi bobo: continua casado com sua parceira no crime.

Dez anos se passaram depois disso, até que o Oscar pudesse dispor de dinheiro para restaurar o Humber. Em julho de 1991, mostrava o carro pela primeira vez em um encontro de antigos, restaurado.

Obviamente esses dez anos foram de muita pesquisa e aprendizado; naquele ponto já  conhecia muito da história do grupo Rootes e da marca Humber. E feito novos amigos:o Fernando Silva, de São Luís do Maranhão, tem um Hawk como o dele, que fora de seu pai desde novo.

Foi o Fernando que lhe enviou uma pequena foto de um Super Snipe series IV 1964 que pertencera a Embaixada do Reino Unido no Rio de Janeiro, e que estava abandonado e a venda. Assim o Oscar comprava seu segundo Humber, e talvez o único Super Snipe aqui desde novo. Carro muito completo, detalhes de interior em madeira e com mecânica completa.

Restaurar o Super Snipe 1964 demorou 3 anos. Com o carro restaurado e conhecendo melhor a marca, Oscar começa a querer mais: sonha com um Super Snipe mais antigo, que só conhecia por fotos de revistas ou livros. Lembre-se que nesse ponto, Internet não existia ainda.

Em uma viagem ao Uruguai, Oscar encontra um Super Snipe MkII, de 1949. Outra paixão à primeira vista. Importa o carro para o Brasil, e após longo processo de regularização, inicia o restauro. O carro também veio muito completo, mas que exigiu uma restauração longa e minuciosa.

Hoje, juntamente com o seu outro Super Snipe 1964, são os dois únicos exemplares que se tem conhecimento no Brasil. O amor por esta marca largamente desconhecida só lhe trouxe alegria: amizades diversas, de lugares distantes; é hoje membro do Post Vintage Humber Car Club, de Londres, e sempre que pode, viaja para lá em encontros anuais.

O carro antigo, por mais obscuro que seja, é definitivamente uma máquina de fazer amigos e conhecer pessoas. Como não os amar?

 

 

 

 

 

 

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