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Mercado e Indústria

Por que os preços dos carros usados não caíram se as vendas diminuíram?


Há uns dias meu irmão me ligou: “Léo, ofereceram 10% abaixo do preço que eu estou pedindo no meu carro. Vendo, né?” Ele já estava esperando quase 50 dias para vender o carro, recebia muitos contatos, mas nenhum ia ao ponto de marcar uma visita, muito menos de fazer uma proposta. O carro não é dos piores, pelo contrário, era um desejado e valorizado Honda Fit 2014. E era o mais barato anunciado em toda a região — ele já estava anunciado a 10% abaixo da tabela. Um carro dentro da média de uso, boa conservação, havia recebido um detalhamento dos bons e estava exposto em uma loja, ainda por cima.

Não é estranho que, nestes tempos de inflação descontrolada no setor automobilístico, um carro razoavelmente desejado, bem-cuidado e com preço abaixo da média demore tanto tempo para ser vendido ou mesmo receber uma proposta? Ou será que parte da inflação é especulativa?

O preço dos carros novos e usados vai baixar após a pandemia?

O que está acontecendo com os preços dos carros usados?

Calma, não estou sugerindo que há uma bolha no mercado de usados. A oferta não é tão grande assim, afinal. Mas talvez ela não seja tão menor do que a demanda como imaginamos. Talvez a demanda, depois de dois anos de restrições econômicas forçadas pelas políticas de enfrentamento à pandemia, tenha simplesmente diminuído. Há alguns indícios de que isso pode ter acontecido realmente.

O primeiro deles é o volume de transações de carros usados no Brasil, que diminuiu 23% em relação ao primeiro quadrimestre de 2021. O outro é que o custo do dinheiro aumentou. Não poderia ser diferente: depois de tudo o que aconteceu nos últimos dois anos, o risco de inadimplência aumentou, então o dinheiro ficou mais caro: a taxa anual de juros era de 19,5%, em média, no início da pandemia, em março de 2020, e chegou a 27,5% em novembro de 2021 e se manteve nessa faixa até hoje.

Ou seja: a cada R$ 100.000 que você financia em 2022, irá pagar R$ 8.000 a mais, por ano, do que alguém que financiou os mesmos R$ 100.000 em março de 2020. E nem vou entrar na questão de os R$ 100.000 terem mais poder de compra na época.

preços dos carros usados
Tabela: trademap.com.br

Então temos esse cenário no qual o volume de transações diminuiu, mas o preço dos carros usados continua aumentando, em parte pela referência dos novos, que seguem em alta, porém de forma desproporcional. Os carros novos subiram cerca de 15% em 2021, enquanto os usados valorizaram até 20%, em vez de desvalorizar, como seria o movimento natural.

A valorização dos usados, contudo, também foi apoiada na demanda de 2021. No ano passado, o volume de vendas de carros usados aumentou mais de 30%, o que, de fato, indica uma maior demanda por eles. Só que, desde o começo deste ano essa demanda desapareceu, e quem quer vender um carro usado, precisa esperar muito ou aceitar propostas abaixo do valor anunciado.

Acontece que, mesmo o valor negociado tem seu limite. Afinal, os usados são vendidos quase sempre para bancar parte dos novos. E o financiamento também está caro para os novos. Então quanto menor o valor de entrada, maior o valor financiado, mais juros o comprador terá de pagar. No fim das contas, é uma reação em cadeia que desacelerou fortemente o mercado. Quem quer vender não quer baixar o preço, quem quer comprar, não quer pagar tanto. Fica cada um com o seu carro, esperando uma mudança no cenário.

E quem mostra isso é a tabela de carros novos. A Fiat Strada vem liderando o mercado com pouco mais de 7.400 unidades vendidas mensalmente, em média até agora. Em 2019 (o último ano não-afetado pela pandemia), um volume de 7.400 unidades mensais colocaria a Strada, no máximo, na quinta posição de vendas. Na verdade, era exatamente esse tanto que a Strada vendia na época.

Ou seja: não é a Strada que está vendendo muito mais, mas o resto que está vendendo menos. O vice-líder HB20, por exemplo, vendeu uma média de 8.400 unidades mensais em 2019, em 2021 foram 7.200 unidades mensais e, em 2022, até agora, a média não chegou aos 7.000 exemplares mensais.

Por que os preços dos carros não vão parar de subir tão cedo

Os preços dos carros usados subiram só no Brasil?

Esse movimento é um infeliz fenômeno global. Nos EUA o preço dos carros usados subiu, em média, 40,5% entre 2021 e 2022. No Reino Unido a inflação dos usados foi mais branda, mas ainda de assustadores 33% no mesmo período. Na Alemanha o aumento foi pouco menor, de 27%. Na Austrália os usados ficaram 21% mais caros em 2021, enquanto no Japão eles subiram 31,5%. No México, que tem características semelhantes às do Brasil, o aumento foi menor, de 15% “apenas”, e na Argentina, os preços subiram 41,3%.

Como dissemos anteriormente, não espere que os preços “voltem ao normal”. Se há um setor em que o tal do “novo normal” pode se concretizar, este setor é o automobilístico. Contudo, essa escalada de preços e a lentidão do mercado não devem durar muito tempo.

Primeiro porque se o mercado de usados está parado, a tendência é que, aqueles que precisam trocar de carro, acabem vendendo seus carros por preços mais baixos. Depois, porque mesmo os que balizam seus preços pelos preços dos novos, terá de levar em consideração que um carro usado tende a desvalorizar à medida em que envelhece e que os carros mais novos entram no mercado de usados. E os preços dos carros novos tendem a se estabilizar em médio prazo, à medida em que diminui a instabilidade na cadeia de suprimentos e os fabricantes conseguem colocar em prática seus planos revisados.

Por ora, o que eu tenho recomendado a amigos e familiares, é que tente negociar o valor de compra, porque não há tantos compradores por aí dispostos a tirar o dinheiro do bolso para comprar um carro. Quem realmente quer vender por qualquer motivo que não seja especulativo, acabará sentando à mesa para a negociação. Mas se você não precisa vender seu carro, se ele ainda está bom, por que comprar um mais novo em um momento tão instável. Você sai correndo na chuva de verão, ou espera 15 minutos até ela passar?

Na próxima parte desta matéria, teremos uma tabela com a evolução dos preços dos carros mais vendidos de cada segmento no mercado de usados, com um ano de uso, com valores de época e corrigidos pela inflação oficial. Fiquei de olho!

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