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Trânsito & Infraestrutura

E se a pandemia revolucionasse a mobilidade?

A imagem do médico da peste negra — capa longa, chapéu medieval e máscara bicuda com olhos de vidro —, tornou-se uma espécie de ícone macabro da cultura pop moderna, com seu visual sombrio e perturbador.  A estética conhecida atualmente, contudo, é uma invenção recente: nas máscaras originais o bico está mais para uma tromba, o couro não é tingido de preto, os olhos são afastados como os de um pato mal-desenhado. São simplesmente toscas como a tecnologia da época.

Como as pessoas acham que era…

Mas havia uma boa razão para serem bicudas: na época acreditava-se que a peste era transmitida pelos vapores que causavam o mau-cheiro, então os médicos colocavam extratos de ervas e flores na máscara. Para permitir a circulação da respiração, ela tinha esse compartimento alongado, que, no fim das contas, parecia um bico. Ou uma tromba.

… como realmente era.

A noção de que a transmissão da peste se dava pelos maus odores iniciou um comportamento que acabou se tornando uma mudança sócio-cultural que persiste até hoje: o uso de perfumes.

Para se proteger da praga, as pessoas começaram a usar estas essências em suas roupas e nas partes do corpo. Os perfumes já eram conhecidos havia quase 3.000 anos, datados do antigo Egito, mas seu uso cotidiano não era popular. Com a intenção de se proteger da peste, o uso de essências naturais perfumadas se tornou um hábito justamente no período de decadência do feudalismo, dando origem ao que se tornaria século mais tarde a indústria de perfumaria.

A pandemia de COVID-19 não tem a menor chance de ganhar a proporção da Peste Negra, mas como toda situação de crise, ela subverte a ordem natural e estabelecida das coisas e, assim que tiver terminado, certamente deixará sua indústria de perfumaria.

É claro que não há como prever — não espere que as pessoas adquiram o hábito de lavar as mãos ao chegar da rua; seria pedir demais —, mas eu gostaria de arriscar um palpite fundamentado, de certa forma. Um palpite otimista e que tem tudo a ver com o trânsito e com a cultura automobilística.

Em 2016, quando estávamos no auge da discussão da mobilidade urbana no Brasil, escrevi um texto sugerindo que tudo isso seria eficaz por algum tempo, mas logo a demanda induzida — que não se aplica somente a ciclovias, mas também às cidades que melhoram suas condições de mobilidade — faria seu trabalho de saturar o sistema novamente.

Os “empurradores” do metrô de Tóquio no horário de pico

Isso, porque não estávamos analisando o cenário completo, mas os sintomas. A solução não é atacar o uso indiscriminado do automóvel, ou a falta de subsídios para o transporte público, ou incentivar as bicicletas e patinetes, ou então fazer um plano diretor novo a cada 30 anos. Para encontrar a solução da mobilidade deveríamos entender a motivação dos deslocamentos das pessoas. Entendendo a motivação dos deslocamentos, poderíamos usar as novidades tecnológicas para eliminar deslocamentos desnecessários, fazendo com que as pessoas saiam de casa, entrem nos ônibus, dirijam seus carros e pedalem suas bicicletas apenas para atividades em que a presença é indispensável.

Em condições normais, contudo, tais mudanças são lentas e graduais, pois são afetadas por costumes, questões culturais, econômicas, sociais e legais — o que esbarra em grupos de pressão e de poder, daí a demora.

Mas nos tempos de crise as prioridades se invertem, a ordem das coisas muda, e algumas mudanças acabam aceleradas. Imagine quanto tempo levaríamos para usar perfumes sem a imaginária proteção contra a peste.

O perfume, desta vez, pode ser esta revolução social, uma quebra de paradigma para encerrar processos desnecessários, regulações anacrônicas, e permitir que as pessoas tenham liberdade de escolher onde viver e quando se deslocar, sem reduzir sua produtividade, resultando em cidades mais racionais e menos concentradas. Se você acha que é exagero, pense apenas no trânsito e no transporte público durante as férias escolares.

Neste momento não podemos ter todos ao mesmo tempo em um só lugar, mas precisamos seguir em frente apesar de tudo. Talvez agora, com a pandemia e com o isolamento quase-forçado, possamos olhar com calma as soluções que já existem e que já poderiam ter sido adotadas há muito tempo para reduzir o número de deslocamentos “obrigatórios”, para reduzir a aglomeração forçada de pessoas.

Desde que a pandemia foi anunciada, várias empresas  adotaram pela primeira vez o home office — uma prova de que seus processos presenciais eram, ao menos em parte, desnecessários. Agora, autoridades estaduais estão determinando — em caráter oficial ou meramente sugestivo — que parte dos funcionários trabalhem a partir de casa, algo possibilitado pelo nível da tecnologia de informação a que chegamos em 2020.

Home obre-se

Os Tribunais de Justiça terão audiências emergenciais por teleconferência — se é possível hoje, porque não era possível até semana passada? Da mesma forma temos a autenticação e certificação digital, porque raios precisamos ir até os cartórios pessoalmente — mas não sem antes passar no caixa eletrônico para sacar dinheiro vivo?

O Conselho Federal de Medicina — e diversos outros conselhos profissionais — vetam qualquer tipo de consulta por internet ou meios eletrônicos. Por que não podemos fazer uma pré-consulta pela internet, permitindo que recebamos orientações médicas básicas sem sair de casa — em vez de perguntar ao pior médico do planeta, o Dr. Google?

São apenas alguns exemplos de atividades que poderíamos manter ininterruptas, do isolamento preventivo ao qual estamos nos submetendo voluntariamente esperando as boas notícias. Seriam pequenas e fragrantes certezas nestes dias incertos e, quem sabe, o perfume da pandemia Covid-19.