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Carros Antigos FlatOut Classics & Street

Gustavo e seu Volkswagen Voyage LS 1982 | FlatOut Classics

O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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De volta a tempos mais simples

Como se o mundo não estivesse complicado o bastante, a cada dia os noticiários nos presenteiam com mais acontecimentos que parecem ter sido feitos sob medida para dificultar nossa vida – nossa sobrevivência – em uma infinidade de aspectos diferentes. E a maioria deles é consequência do estilo de vida da nossa sociedade.

Ter um carro antigo pode ser, de certa forma, uma forma de escapar de tudo isto e retornar a tempos mais simples. Tempos de carburador, direção sem assistência, quebra-vento. Tempos sem preocupação com emissão de poluentes, o fim dos combustíveis fósseis, alta do dólar, extinção do motor a combustão interna. Tempos mais barulhentos, mais perigosos, mais românticos.

Gustavo Boaron, personagel do FlatOut Classics de hoje, sabe disso. Não é à toa que ele tem não um, mas dois carros antigos: o Ford Corcel quatro-portas que já apareceu por aqui, e um belíssimo VW Voyage LS 1982. Sem mencionar o caminhão FNM que seu pai usava para trabalhar e que hoje é um caminhão de passeio.

 

Primeira experiência sobre rodas

Gustavo foi mais breve ao falar do Voyage, mas a história é interessante – ele foi seu primeiro carro. “Meu pai comprou este Voyage, um 1982, como segundo dono. A compra foi feita em 1994, mesmo ano em que eu nasci, e ele foi o carro de uso da família por muito tempo.” Quando fizemos a matéria com o caminhão FNM, Gustavo me disse que seu pai nunca incentivou o filho a seguir o caminho da ferrugem – e que ele até foi contra. Mas, com esta informação, com todo o respeito, me parece que o pai de Gustavo acabou estimulando seu gosto por velharias (novamente, com todo o respeito) mesmo sem querer. Afinal, o garoto cresceu na boleia de um FNM e também no banco traseiro de um Voyage LS, ora essa!

Em todo caso, Gustavo diz que o Voyage acabou se tornando seu primeiro carro – ele comprou o sedã VW assim que tirou a carteira de motorista, em 2012. “Foi meu carro de uso no começo, o que eu usava no dia-a-dia… então eu comprei um carro novo e o Voyage virou carro de passeio.”

 

Pioneirismos

Em 1982, ano de fabricação do Voyage de Gustavo, o VW Santana ainda não era uma realidade – feito sob medida para encarar o bem sucedido Chevrolet Monza, ele só chegaria em 1984. Sendo assim, o VW Voyage era o único três-volumes da família.

Na época o Voyage ainda era um bebê – ele havia sido lançado no ano anterior, 1981, como versão de três volumes do Gol. No primeiro ano de fabricação, o motor deslocava 1,5 litro para entregar 78 cv a 6.100 rpm e 11,5 kgfm de torque a 3.600 rpm, ainda moderados por uma caixa de quatro marchas. Em 1982, foi adotado o motor 1.6, com 81 cv a 5.200 rpm e 12,8 kgfm de torque a 2.600 rpm. A diferença nos números em si não era tão grande, mas os picos de potência e torque chegavam muito antes e isto fazia uma diferença enorme em aceleração e retomada. Quem já guiou um desses, especialmente com a caixa de quatro marchas, sabe do que estou falando.

O Voyage LS era a versão intermediária em 1982 – um carro simples, porém bem construído. E era bastante prático – o porta-malas acomodava 382 litros contra 334 do Gol, o que acabava compensando a perda da terceira porta. Espaçoso para a época, ele herdava a boa dinâmica e a robustez do Gol, e seu estilo enxuto lembrava o Jetta europeu. E ele serviu muito bem a Gustavo até se tornar veículo de passeio.

 

Puro lazer, e nada mais

O carro é do tipo que, literalmente, dispensa comentários. Como terceiro dono, Gustavo conhece muito bem o histórico do Voyage e sabe que ele está em perfeitas condições – literalmente. Parece um carro novo, com a pintura impecável e interior idem, sem qualquer tipo de alteração às características originais. Gustavo, como você deve ter percebido se acompanhou os outros posts de sua pequena coleção, é extremamente cuidadoso com este tipo de detalhe.

As condições do interior são especialmente impressionantes: o painel de lata não tem riscos ou amassados, os revestimentos não trazem detalhe algum, e até mesmo um rádio de época está abrigado no painel. Do lado de fora, temos a oportunidade de apreciar a simplicidade de um VW oitentista, com seus para-choques cromados com borrachões finos, polainas curtas (mais charmosas que as longas, na opinião deste que vos escreve), sem faróis auxiliares, e apenas um discreto friso cromado abaixo da linha de cintura. É realmente espantoso o bom estado do Voyage.

Todos os itens de acabamento são originais – o carro é utilizado ocasionamente mas, a exemplo do Corcel, está sempre pronto para rodar. Pneus são novos, e calçam rodas de aço estampado sem calotinhas calotinhas. Nada de mudanças na suspensão, nada de descaracterizações (mesmo aquelas consideradas de bom gosto). Sabe aquele papo de “menos é mais?” Se aplica aqui.

Diferentemente do Corcel, que foi comprado quase por impulso (um carro encontrado na Internet que, por sorte, era um negócio imperdívell), o Voyage entrou para a família de Gustavo ao mesmo tempo que ele próprio. Ele talvez não ande no VW com a mesma frequência que no Ford agora, mas é totalmente compreensível sua motivação para mantê-lo por perto: queira ou não, o pequeno sedã vermelho faz parte de sua história.

Honestamente, eu também não venderia este carro nunca – e tentaria rodar com ele para sempre, mesmo que não todos os dias. Ao menos uma vez por semana, de manhãzinha, sairia para dar uma volta pelo bairro, quebra-ventos abertos. Nem mesmo ligaria o rádio, pois o ronco do quatro-cilindros todo revisado, com carburador mini-progressivo afinadinho e escape original seria toda a música de que eu precisaria.

A cada matéria que faço com um dos carros de Gustavo, fico mais convencido de que este cara sabe mesmo como cuidar de um carro antigo e curti-lo como se deve.