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Pensatas

E se o coronavírus acabasse com o carro elétrico?

Vejam só como os tempos de crise chacoalham o mundo e alteram nossa realidade da noite para o dia: ao mesmo tempo em que o mundo está se adequando para continuar girando apesar do isolamento necessário para conter a pandemia do coronavírus, a Rússia e a Arábia Saudita seguem brigando pelo preço do petróleo e o negócio chegou a US$ 22, sua menor marca em vinte anos.

Aos nossos olhos acostumados à rotina e à ordem estabelecida das coisas, isso significa apenas que vamos pagar um pouco menos na gasolina daqui a algumas semanas.

Mas a ordem das coisas está brevemente fora do lugar.

Não estamos mais acordando todas as manhãs para ir ao trabalho — o trabalho agora está em casa. Nossos filhos também não vão à escola pois estão estudando em casa — exatamente um ano depois de a discussão sobre a educação domiciliar dividir opiniões no Brasil. Governadores e prefeitos parecem ter finalmente descoberto que não precisavam amontoar os cidadãos nas repartições públicas para corrigir carnês de IPTU ou renovar a CNH e outros processos burocráticos simples. De repente o arroz e o feijão começaram a ser comprados pela internet, como nossos livros, nossos móveis e eletrodomésticos. E isso só está acontecendo porque já era possível há muito tempo, só não havíamos adotado em grande escala. Imagine você: prefeituras trabalhando em regime de home office!

Há pouco mais de dez dias, fiz um exercício de futurologia aqui: e se tudo isso se tornasse permanente? Não a maldita pandemia, mas esta nova rotina que impusemos a nós mesmos para não termos de sair de casa para coisas banais como trabalhar. Nossos deslocamentos passariam a ser feitos somente para atividades impossíveis de se fazer remotamente. Foi um insight que tive há cinco anos (e que transformei neste post) — como o trânsito seria melhor se começássemos a viver uma rotina pós-revolução tecnológica, algo que ainda não aconteceu — e que pareceu possível de se materializar neste momento.

A cada dia que o isolamento avança e que novas soluções são anunciadas, essa hipótese me parece cada vez mais próxima de uma realidade próxima. Ainda hoje, procurando suprimentos para minha casa na internet optei por usar pela primeira vez o modo de envio rápido, no qual o produto chega até mim em, no máximo, 36 horas. E então fui trazido de volta ao mundo pré-coronavírus por uma matéria da BBC que desmistifica a hipótese de os carros elétricos serem mais poluentes que os carros a combustão quando se considera toda a cadeia.

Isso me colocou a pensar sobre a necessidade dos carros elétricos naquela antevisão que fiz há duas semanas. Porque, no fim das contas, a viabilidade do carro elétrico depende dos malefícios do carro à combustão. E eles são muito, muito reduzidos quando você elimina os deslocamentos de rotina.

Veja só: apesar da recomendação de distanciamento, o transporte público de São Paulo continua operando, porém o volume de passageiros diminuiu 77%. O impacto no trânsito foi semelhante: segundo a startup VAI – Vehicle Artificial Intelligence, desde o início da quarentena o tempo gasto nos carros diariamente caiu 50,35% e o número de viagens caiu 41,4%. É quase a metade do número de viagens.

E a redução das viagens trouxe outro efeito: em São Paulo, o nível de monóxido de carbono está abaixo do nível mínimo do medidor usado pelo Instituto de Astronomia e Geofísica da Universidade de São Paulo.

Evidentemente não é uma redução que aconteceria nessa proporção em situações normais — as atividades necessariamente presenciais ainda manteriam parte dos deslocamentos. Mas uma eventual escalada do home office, do ensino domiciliar e das compras online, certamente traria uma redução significativa do número de passageiros — o que melhoraria a qualidade da viagem ou até reduziria o volume de viagens. E aí teríamos menos emissões, menor consumo de combustível.

Foi o menor consumo, aliás, que ajudou a derrubar o preço do petróleo para este patamar ridiculamente baixo de US$ 22 — colocando em contexto, em 1974, antes de o barril de petróleo disparar e causar a grande crise energética daquela década, ele custava o equivalente a US$ 15,74.

Diante disso, faço a pergunta: em um cenário no qual fazemos menos deslocamentos “obrigatórios” cotidianos, em que os níveis de emissões estão em patamares aceitáveis e saudáveis, e o petróleo se mantém na casa dos US$ 40, o que seria do carro elétrico?

Porque embora pareça uma tecnologia plenamente desenvolvida, ela ainda está engatinhando e tem muito a contornar — especialmente a questão das baterias, tanto na eficiência, quanto no armazenamento de energia e no tempo de recarga. O carro a combustão é uma máquina que vem sendo aperfeiçoada de forma contínua desde que a sra. Bertha Benz pegou o carro do marido para visitar a mãe em 1886. Em 2013, por exemplo, os fabricantes registraram mais de 1.300 patentes relacionadas ao motor à combustão, em sua busca constante por melhor eficiência.

E eles insistem nessa máquina fumacenta e quente porque sabem que o carro elétrico será inviável em escala global em médio prazo. Por essa razão também se estima que o auge da eficiência energética do motor a combustão irá acontecer em 2050, daqui a 30 anos. Trinta anos! Compare o consumo do seu Gol GL 1.8 1990 com o de um Polo 1.0 TSI e você terá uma noção superficial do nível de evolução que temos pela frente. Atualmente os melhores carros a combustão não-híbridos já têm motores com quase 40% de eficiência térmica. Os motores mais avançados do planeta, usados pela Fórmula 1, já estão beirando os 60% de eficiência.

Claro: esta é apenas uma hipótese que dificilmente terá um efeito tão drástico como estamos observando agora, mas que poderá modificar nossa rotina e a mobilidade das cidades. Nesse cenário, o carro elétrico teria chance?