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História Zero a 300

East Bay Dragons: a história do primeiro motoclube negro dos EUA

No fim da década de 1950, fazia quase cem anos que a escravidão de africanos e afrodescendentes havia sido abolida nos EUA e, como comentamos neste post sobre Wendell Scott, primeiro piloto negro da Nascar, a segregação racial e étnica só estava começando a ser considerada um problema social – aliás, nos Estados Unidos, esta segregação ainda é vista com naturalidade por muita gente.

“E por que vocês estão nos contando isto, FlatOut?”, você deve estar indagando. É simples: neste post, vamos contar a história do primeiro motoclube negro dos Estados Unidos, os East Bay Dragons.

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Antes deles, a cena dos motoclubes americanos era exclusivamente branca. É difícil traçar a história dos chamados outlaw motorcycle clubs, ou “clubes de motociclistas fora-da-lei”, em tradução quase literal, mas acredita-se que a mesma surgiu na década de 1930. Motoclubes como os Outlaws e os Hell’s Angels ficaram conhecidos por arranjar brigas e financiar suas atividades por meio de atividades ilegais, como tráfico de drogas e contrabando – e por isto também costumam ser chamados de “gangues de motociclistas”.

Na verdade, se você assistir Sons of Anarchy, por exemplo, vai notar que até o elenco é predominantemente branco. Não queremos mergulhar em questões sociais aqui, claro, até porque é mesmo uma questão cultural. Mas, para você entender melhor a situação: hoje em dia, qualquer um pode entrar em uma concessionária Harley Davidson e comprar uma moto nova – você precisa ter a grana, claro, mas não importa qual é a cor da sua pele. Em 1959? Nem pensar: a Harley Davidson não vendia motos para negros.

Não era algo declarado ou corroborado pela tradicional fabricante de motocicletas que, para muita gente, é sinônimo do American way of life, mas era o que acontecia, na prática. Na verdade, a Harley-Davidson foi a primeira fabricante de motos a ter uma de suas concessionárias aos cuidados de um negro – William “Wild Bill” Johnson, que era piloto de subida de montanha na década de 30 e foi representante da Harley-Davidson até morrer, aos 95 anos de idade, em 1985.

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Acontece que, caso você fosse negro, a concessionária de “Wild Bill” Johnson, que ficava em Nova York, era a única onde você poderia comprar uma Harley nova. Outros revendedores autorizados da marca não gostavam muito dele, na verdade. Eles o enxergavam como um intruso que tinha privilégios especiais por causa da cor de sua pele. Recusar-se a vender motos para negros era uma forma de “protesto”. E até meados dos anos 1960 isto era considerado normal.

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Tobie Gene Levingston, o fundador dos East Bay Dragons, mudou-se do estado da Louisiana para a Oakland, na Bay Area de São Francisco, Califórnia, em 1955. Ele era fã de automóveis, e não demorou para que ele fundasse um clube de entusiastas em sua nova cidade. O clube foi batizado Dragons Car Club (o “East Bay” veio em 1958), e rapidamente conseguiu uma reputação não muito boa junto ao departamento policial de Oakland: eles sempre entravam em brigas e faziam algazarra pelas ruas da cidade. Os caras se encontravam de carro para disputar rachas e sair na porrada com membros de gangues rivais, e acabaram marcados pelas autoridades.

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Não era muito difícil que eles o fossem, na verdade: todas as gangues entravam em brigas, mas só eles eram negros. E havia também a questão dos carros que eles utilizavam: a maioria deles não ganhava o suficiente para bancar um carro exclusivo para as atividades do clube e, por esta razão, pegavam o mesmo veículo que dirigiam para ir ao trabalho e se locomover no dia-a-dia: ou seja, era muito fácil identificá-los.

Foi um amigo de Tobie, Sonny Barger (que é branco e, em 1957, fundou da filial de Oakland dos Hell’s Angels), quem sugeriu que ele mudasse o ramo dos East Bay Dragons em vez de acabar com o clube, como vinha planejando. Havia boas razões para isto: primeiro, as motos eram mais baratas de se comprar e manter, e assim cada membro poderia ter a sua sem precisar usar o carro da família. Segundo, elas eram mais fáceis de manter e consertar. E, terceiro, era mais fácil agir em grupo e com discrição em cima de uma moto do que ao volante de um carro.

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Olha só que coisa: Sonny era amigo de Tobie, mas os dois não podiam pertencer ao mesmo motoclube porque um deles era branco e o outro, negro. E, como não podiam comprar motos da Harley na concessionária, Levingston e os outros membros tiveram de comprar exemplares usados. Para o bolso, tanto melhor: em 1959, uma Harley-Davidson nova custava US$ 500 (US$ 4.200 em valores atuais), enquanto uma usada podia ser conseguida por US$ 30 (US$ 250 em 2017). Vale lembrar que isto aconteceu muito antes de a Harley-Davidson se tornar um ícone cultural americano: hoje em dia, a H-D mais barata que se pode comprar nos EUA é a Street 500, com um motor V-twin de 500 cm³, que custa US$ 6.800.

Comprando motos usadas, o motoclube cresceu bastante em popularidade e com o passar dos anos, seguiu o mesmo caminho de outros daquela época, abandonando as atividades ilegais e dedicando-se a atividade filantrópicas e a favor de sua comunidade.

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O fundador, Tobie Levingston, ainda está vivo, e ainda é o presidente dos East Bay Dragons, cuja existência foi extremamente influente para a popularização da cultura biker entre a comunidade negra americana. Além disso, o motoclube inspirou o surgimento de outros.

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O Chosen Few MC, por exemplo, foi fundado na mesma época, e logo de cara deu um passo importante para a integração racial entre os entusiastas do motociclismo, aceitando um membro branco já em 1960 e tornando-se o primeir motoclube “multi-étnico” dos Estados Unidos.

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