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Car Culture

Este foi o primeiro carro a chegar aos 100 km/h – e que criou o famoso teste “0 a 100”

Quanto tempo seu carro leva para chegar aos 100 km/h? Dez, quinze segundos? Quase meio minuto? Ou, se você for o feliz dono de um belo esportivo, menos de seis ou sete segundos? Não importa. O fato é que o desempenho de todos os tipos de carro é medido pelo tempo que ele leva para chegar aos 100 km/h partindo da imobilidade. Mas nem sempre foi assim — há muito, muito tempo mesmo, talvez não se imaginasse que aquela invenção recente, a “carruagem sem cavalos”, pudesse um dia chegar aos 100 km/h — quanto menos passar dos 300!

É bem verdade que mal existiam carros — era 1898, e o primeiro automóvel (pela definição que diz que um automóvel é um veículo projetado para ser movido por um motor de combustão interna) havia sido patenteado havia apenas 12 anos: o Benz Patent Motorwagen, de 1886, criado por Karl Benz. A noção de “recorde de velocidade em terra” não existia — por muito tempo, o fato de existir um veículo capaz de ir de um lugar ao outro por sua própria força já era espetacular o bastante.

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Benz Patent Motorwagen

O gênese da indústria automotiva mundial viu centenas de fabricantes surgirem e desaparecerem em questão de meses — afinal aquele era um ramo novo que todos queriam explorar — e, para sobreviver, era preciso se destacar dos demais. O conceito de propaganda automotiva não estava nem engatinhando, mas os fabricantes já sabiam que precisavam de publicidade.

Paralelamente, um fenômeno curioso acontecia: experiências com alternativas à combustão interna eram muito frequentes, visto que ainda não havia sido definido um padrão e os primeiros motores que queimavam combustíveis eram pouco eficientes, barulhentos (não no bom sentido) e precisavam de uma manivela para começar a funcionar, o que devia ser um saco — e algo que costumava deslocar o pulso dos motoristas, dependendo do tranco. Sendo assim, os carros elétricos estavam em alta no fim do século 19 — eram silenciosos, práticos e, como não existiam rodovias (ou postos de gasolina, diga-se), sua autonomia não tinha uma base de comparação, e por isso era o menor dos problemas.

E foi um carro elétrico quem estabeleceu o primeiro recorde de velocidade em terra — 27 km/h em 1898 durante uma subida de montanha, aferidos usando marcadores de distância, relógios de bolso e algumas contas simples. Não era um método preciso, muito menos oficial — mas a semente já estava plantada.

O homem responsável por isso era um belga chamado Camille Jenatzy, que entrou para a indústria automotiva no fim da década de 1890 usando os recursos financeiros da fábrica de borracha de sua família. Em pouco tempo, seu recorde chamou a atenção de fabricantes automóveis por toda a Europa — especialmente na França onde, em 1898, a revista La France Automobile decidiu organizar um torneio de velocidade.

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O primeiro vencedor foi Charles Jeantaud, fundador da empresa que levava seu sobrenome e começou a construindo carrocerias em 1881. Seu carro, o chamado Jeantaud Duc, chegou aos 63,13 km/h sob o comando do também francês Conde Gaston de Chasseloup-Laubat — que tornou-se efetivamente, o primeiro a quebrar um recorde de velocidade de carro na história no dia 18 de dezembro de 1898. Ele levou 57 segundos para fazê-lo. Curiosamente, o Jeantaud Duc é reconhecido como um dos primeiros carros da história a serem controlados por um volante — e não por alavancas, como era comum na época.

Contudo, seu reinado como o homem mais rápido do mundo não durou um mês inteiro: quando a notícia se espalhou, Jenatzy desafiou Jeantaud e o conde para um duelo: venceria o mais rápido. No dia 17 de janeiro de 1899, Camille Jenatzy contra-atacava com um carro chamado CGA Dogcart. Ele mesmo pilotou o carro e, naquele dia, chegou aos 66,66 km/h em um km. Tinha início aquela que foi uma das primeiras grandes rivalidades da indústria automotiva.

Qual o tamanho da rivalidade? Digamos que, naquele mesmo dia, Chasseloup-Laubat quebrou o recorde de Jenatzy — novamente com o Jentaud Duc, chegando aos 70,31 km/h. Dez dias depois, Jentazy pegou o CGA Dogcart e atingiu 80,35 km/h com ele.

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Jeantaud Duc Profilée

Demorou um pouco — seis semanas —  mas o francês reagiu: em março de 1899, um Jeantaud Duc modificado com uma traseira mais aerodinâmica e o sobrenome “Profilée” chegou aos 92,78 km/h. Era a maior vantagem até então e, talvez, a dupla de franceses tenha pensado que a brincadeira (levada muito a sério) havia acabado.

Ledo engano: Camille Jenatzy faria de tudo para sair por cima — mesmo que para isso fosse necessário criar um carro novo, do zero. Na verdade, ele já tinha um projeto em andamento — um carro com carroceria em forma de torpedo feita de uma liga metálica chamada partinium (batizada em nome de seu criador, G.H. Partin). O partinium, composto de alumínio, cobre, antimônio, tungstênio e estanho, era um material leve e caro, e jamais fora usado para fazer um carro antes, mas Jenatzy julgou o investimento necessário.

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Dotado de um cockpit com volante e chassi de madeira, o carro era movido por dois motores de 25 kW cada, alimentados por duas baterias de 100 Volts e 124 ampères cada uma. O resultado eram impressionantes 68 cv. Impressionantes, sim senhor — não esqueça que estamos falando de um carro feito no século 19! Outro detalhe importante era que, em vez de rodas de borracha sólida como todos os carros até então, ele tinha pneus ocos preenchidos com ar fabricados pela Michelin — que até já relembrou o feito em uma propaganda para a TV em 1981.

O novo carro de Camille Jenatzy ficou pronto a tempo de tentar quebrar o recorde o Duc Profilée no dia 29 de abril de 1899. Seu nome era La Jamais Contente — apropriado para o carro de um homem que jamais se deu por satisfeito em ser “o segundo homem mais rápido do mundo”. Chegando aos 105,88 km/h, o belga simplesmente destruiu o recorde de seu rival francês e tornando-se o primeiro a chegar (e ultrapassar) aos 100 km/h ao volante de um carro.

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Aparentemente a dupla de franceses desistiu da competição depois daquilo o recorde de Jenatzy só foi quebrado em 1902 pelo carro a vapor de Leon Serpollet, que atingiu os 120,80 km/h. Naquele mesmo ano, o primeiro carro com motor de combustão interna clamou para si o recorde por uma margem mínima — 120,83 km/h, ou apenas 0,03 km/h de diferença.

Paralelamente, Jenatzy seguiu sua carreira de piloto por mais alguns anos antes de voltar a se concentrar na fábrica de borracha de sua família. Ele morreu em 1913, durante uma caçada — dizem que ele pensou que seria uma boa ideia se esconder atrás de alguns arbustos e imitar um urso, o que levou seu amigo a atirar nele. Um fim pouco glamouroso para o primeiro homem a chegar aos 100 km/h.

Mas o maior legado de Jenatzy não é exatamente seu recorde, e sim o que foi feito dele: a barreira dos 100 km/h tornou-se uma referência quando os carros começaram a ultrapassá-la, e em determinado momento chegar mais rápido aos 100 km/h tornou-se uma base de comparação entre o desempenho de diferentes carros. Se hoje temos os testes de Zero a 100 km/h, devemos isto a Camille Jenatzy.

O carro do vídeo (e das fotos, incluindo a de abertura) não é o La Jamais Contente original, e sim uma réplica totalmente fiel e funcional construída por alunos da Université de Technologie et du Lycée Technologique de Compiegne, na França.

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